Autora de filmes tão belos como os seus títulos, como eram «Coisas Que Nunca Te Disse», «A Minha Vida Sem Mim» ou «A Vida Secreta das Palavras», a catalã Isabel Coixet filme pela primeira vez em Roma, adaptando o livro de Michela Murgia, “Tre Ciotole”, que se poderia traduzir por “Três Taças” ou “Três Tigelas”, cuja simbologia se percebe ao ler o livro ou ver o filme. Em Portugal, seguiu-se um título internacional mais direto, «Três Vezes Adeus». É sobretudo o adeus à vida da personagem de Marta, magnificamente interpretada por Alba Rohrwacher, uma professora de ginástica cujo marido a deixou, pouco antes de descobrir que tem uma doença incurável. Isabel Coixet volta a mostrar toda a sua sensibilidade e sentido poético, num filme que escapa aos lugares-comuns do género e que dificilmente esqueceremos.
O seu filme representa um regresso aos temas de «A Minha Vida Sem Mim». Porque quis voltar a falar da morte nesta fase da sua vida?
Isabel Coixet: Não sei se voltei, porque não tenho a certeza de alguma vez ter ido embora. A morte não é um tema ao qual se regressa, como quem volta a uma aldeia da infância; está ali, na cozinha, enquanto se põe água a ferver. O que mudou foi o ângulo. Em «A Minha Vida Sem Mim», uma mulher jovem organizava aquilo que ia deixar para trás, preparava o depois dos outros. Aqui não há legado para administrar: a morte está dentro do corpo de Marta, e aquilo que o filme observa não é como alguém se prepara para partir, mas como consegue continuar presente sabendo que está a partir. O que o filme coloca em questão é isso a que chamamos viver.
Como descobriu o livro de Michela Murgia?
Isabel Coixet: O livro, que é um livro de contos, não um romance, chegou-me quando a Michela já não estava entre nós, e isso muda tudo: lê-se alguém que escreve sabendo, não imaginando. “Três Taças” é quase um diário disfarçado de ficção e, desde a primeira página, tive aquela sensação desconfortável e maravilhosa de estar a ler coisas que eu própria andava há anos a ruminar sem me atrever a dizê-las com aquela clareza. Não o li como realizadora à procura de material. Li-o como leitora e só depois percebi que não me ia conseguir libertar dele.

Como foi repartido o trabalho de adaptação com Enrico Audenino?
Isabel Coixet: É o meu primeiro filme rodado em italiano, por isso o Enrico foi muito mais do que um coargumentista: foi o meu ouvido. Eu sei o que quero que uma cena diga, mas há uma musicalidade na forma como os italianos falam entre si, uma maneira de discutir e de não dizer as coisas, que eu conseguia intuir, mas não escrever a partir de dentro. Ele trazia essa verdade da língua e do bairro; eu trazia a estrutura, o olhar, aquilo que sobra e aquilo que falta. Discutimos muito, que é a melhor forma de trabalhar. E houve coisas que entraram tarde e que não estavam nem no livro nem na primeira versão do argumento, a cena do gelado, por exemplo, é inteiramente minha, porque adaptar não é traduzir: é decidir o que se trai para permanecer fiel ao que realmente importa.
Partilha a filosofia de aceitação daquilo que a vida nos dá que caracteriza a personagem de Marta?
Isabel Coixet: Gostava de partilhar. A Marta não negocia, não implora, não declara guerra à sua doença, e eu odeio profundamente toda essa épica da “batalha contra o cancro”, como se os que morrem tivessem perdido por fraqueza. Ela simplesmente inclina-se, como nos inclinamos perante um sol que se põe sabendo que voltará a nascer, mas noutro lugar onde já não estaremos para o ver. Eu sou bastante mais ansiosa do que ela, confesso. Mas filmar isto deixou-me uma ideia muito nítida, quase vergonhosamente simples: a vida é curta e desperdiçamo-la a angustiar-nos com disparates. Aceitar não é resignar-se. É deixar de lutar contra aquilo que não pode ser mudado para ter as mãos livres para o que se pode.
“Sou bastante mais ansiosa que a personagem do meu filme“
Perante as questões que o filme coloca, existe um olhar feminino e um olhar masculino sobre elas?
Isabel Coixet: Desconfio um pouco da pergunta, porque, assim que se fala em «olhar feminino», as pessoas esperam delicadeza e flores, e quando se fala em «olhar masculino» esperam distância e raiva. Não é por aí. O que existe são duas formas diferentes de habitar a perda. Marta sofre para dentro, em silêncio, quase com pudor. Antonio, que é cozinheiro, refugia-se no trabalho e demora a compreender aquilo que fez; o seu é um luto tardio, o de alguém que percebe o erro quando já serve de pouco. A Michela era feminista, mas não escrevia teses: escrevia corpos. E o filme é, para mim sem qualquer dúvida, sobre ela. O Antonio é importante, não é uma simples personagem secundária, mas o centro de gravidade é Marta.
Como trabalhou com Alba Rohrwacher? Foi a sua primeira opção? Hoje é impossível imaginar o filme sem ela.
Isabel Coixet: Foi a minha única opção. Disse ao produtor que só faria o filme se a Marta fosse a Alba, e disse-o sem rede de segurança. Há atrizes que sabem representar a dor; a Alba sabe representar, no mesmo plano, a dor, o prazer e a criança que ainda existe dentro da mulher. Na cena do gelado vê-se alguém a desfrutar de algo com todo o corpo precisamente quando sabe que em breve já não poderá desfrutar de nada, e isso não se dirige, isso existe. Além disso, aconteceu entre nós uma coisa que não estava no argumento: passámos a gostar muito uma da outra. Trabalhar com alguém assim é fácil ao ponto de parecer suspeito. Costumo brincar dizendo que conquisto os meus atores convidando-os constantemente para comer, mas a verdade é mais simples: escuto-os. Vejo para onde vão, como se sentem durante as filmagens. Só isso.

Roma é uma das cidades mais cinematográficas do mundo. Como se apropriou desse espaço?
Isabel Coixet: Precisamente aquilo que me fazia hesitar em fazer o filme era Roma, porque foi fotografada até à exaustão e toda a gente acredita conhecê-la. Eu não queria essa Roma. Quando Marta diz “deixa-me mostrar-te a minha Roma”, sou eu a dizer aquilo de que gosto. Filmámos no bairro onde a Michela vivia, no restaurante onde se encontrava todas as quartas-feiras com Roberto Saviano; o homem que casou com ela três semanas antes da sua morte é uma personagem do filme. Procurámos os lugares verdadeiros, aqueles que ainda conservam alma, enquanto a cidade se transforma num cenário de Airbnb e TripAdvisor que banaliza a comida, banaliza os lugares e apenas faz crescer aquilo que é massificado. Abro e fecho o filme com os estorninhos sobre Roma, essas nuvens de aves que desenham algo belíssimo e sem propósito. Por vezes, isso basta.
O cinema espanhol atravessa um excelente momento, como se pôde verificar há poucos dias em Cannes. Como vê o cinema espanhol, que também é o seu?
Isabel Coixet: Vejo-o com alegria e com cautela. Há uma geração com uma voz própria, teimosa, que não pede licença, e isso entusiasma-me genuinamente. Mas desconfio da narrativa do «momento dourado», porque um bom ano em Cannes não resolve a precariedade com que o cinema é financiado e visto, algo contra o qual todos os cineastas lutamos diariamente. Celebremos este momento. E, no dia seguinte, continuemos a lutar, porque nesta profissão, como na vida, não se agrada a toda a gente o tempo todo.



