Em «A Dança das Raposas/La Danse des Renards, o realizador belga Valéry Carnoy pega no dispositivo aparentemente clássico do drama de formação masculino em ambiente desportivo para desmontar, a partir de dentro, o esgotamento contemporâneo da virilidade tradicional. O filme acompanha Camille (Samuel Kircher), um jovem pugilista de um internato desportivo cuja identidade assenta integralmente na resistência física, na disciplina e na posição hierárquica dentro do grupo masculino. Após um acidente, porém, o corpo deixa de responder como instrumento de poder. Surge uma dor fantasma. E é precisamente essa dor invisível que abre uma fissura no edifício ideológico da masculinidade.
Carnoy filma a adolescência masculina como um regime disciplinar. O internato, o balneário, o ringue, os corredores nocturnos: tudo funciona segundo códigos de vigilância, competição e supressão emocional. Mesmo nas cenas de balneário, espaço tradicionalmente associado à exposição física masculina, os rapazes mantêm os boxers vestidos, como se a roupa interior funcionasse ainda como último escudo contra a vulnerabilidade e a completa exposição do corpo. O que o filme torna particularmente claro é que estes rapazes não são violentos por natureza; são socializados para interpretar vulnerabilidade como humilhação. A ternura só pode surgir sob a forma de brincadeira agressiva, contacto físico brutal ou lealdade tribal. Quando Camille perde a capacidade de corresponder ao ideal do corpo invulnerável, deixa também de conseguir ocupar o lugar simbólico de “homem” dentro do grupo.
Lembremos a obra “Guyland” do sociólogo Michael S. Kimmel que descreve a adolescência masculina prolongada das sociedades ocidentais como um espaço intermédio onde os rapazes vivem sob permanente avaliação dos pares. A masculinidade deixa de ser uma condição adquirida e transforma-se numa performance incessante. Em «A Dança das Raposas», Camille existe precisamente nesse território: um mundo sem adultos verdadeiramente estruturantes, onde a autoridade é difusa e a validação masculina depende exclusivamente do reconhecimento do grupo. O acidente não destrói apenas o futuro atlético do protagonista; destrói o mecanismo através do qual ele obtinha legitimidade social.

O mais interessante no filme é que Carnoy evita a moralização simplista. Não há uma oposição banal entre “masculinidade tóxica” e sensibilidade progressista. O realizador percebe que estes jovens também são vítimas daquilo que reproduzem. Carnoy afirmou interessar-lhe “a injunção à virilidade e a relação com a violência”, insistindo na mistura entre brutalidade e ternura. Uma ambiguidade que percorre todo o filme. Matteo (Faycal Anaflous), o amigo mais próximo de Camille, encarna simultaneamente afecto genuíno e crueldade disciplinadora. O vínculo entre ambos nunca é reduzido a rivalidade convencional; pelo contrário, o filme sugere constantemente uma intimidade emocional que o próprio universo masculino impede de ser verbalizada.
A questão da gestão do afecto entre rapazes heterossexuais foi especialmente bem explorada na obra “Dude, You’re a Fag” de C.J. Pascoe. A sociologista demonstrou como a masculinidade adolescente contemporânea se organiza menos em torno da homofobia clássica e mais no medo permanente da feminização. O insulto não serve apenas para atacar sexualidades dissidentes; serve sobretudo para policiar fragilidades masculinas. Em «A Dança das Raposas a exclusão progressiva de Camille decorre exactamente dessa lógica. O seu problema não é deixar de ser forte; é deixar de parecer forte: uma versão retorcida do clássico ditado “À mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta”. A dor invisível ameaça toda a economia simbólica do grupo porque introduz hesitação, medo e instabilidade emocional. O rapaz lesionado torna-se intolerável porque obriga os outros a confrontarem-se com a possibilidade da própria vulnerabilidade.
Carnoy filma o corpo masculino com uma estranha delicadeza clínica. Há suor (e chulé), hematomas, respiração ofegante, músculos tensos, mas raramente existe glorificação heróica. O corpo aparece como território de fragilidade e não como monumento de potência. O realizador explicou que queria “ver carne e sangue” e captar a materialidade física dos actores. Essa fisicalidade aproxima o filme de uma tradição contemporânea do cinema europeu interessado em desmontar o mito viril através da exaustão corporal de «Bom Trabalho/Beau Travail» (Claire Denis, 1999) a «Close» (Lukas Dhont, 2022).
Mas «A Dança das Raposas» acrescenta uma dimensão particularmente actual: a sensação de vazio deixada pelo colapso dos modelos masculinos tradicionais. O filme não apresenta alternativas claras. Os rapazes já não acreditam plenamente na figura patriarcal clássica tida como autoritária, estável e providencial; mas também não sabem o que colocar no seu lugar. Tema que foi explorado pelo já citado Kimmel em “Angry White Men” onde torna claro que os homens educados para ocupar posições de domínio confrontam-se hoje com um mundo onde essas posições deixaram de ser garantidas. Embora Kimmel tenha escrito especificamente sobre adultos americanos e o contexto de Carnoy seja europeu e juvenil, a lógica é semelhante. O sofrimento destes adolescentes nasce da incapacidade de corresponder a expectativas herdadas que já perderam fundamento histórico, mas continuam emocionalmente activas.

A figura dos rapazes no filme é, por isso, profundamente melancólica. Eles repetem rituais de força cujo significado já não compreendem totalmente. Lutam, provocam-se, humilham-se, competem: mas tudo parece atravessado por uma ansiedade difusa. As raposas do título funcionam então como metáfora ambígua: animais furtivos, nervosos, sobreviventes urbanos, simultaneamente predadores e criaturas ameaçadas. Tal como estes jovens homens, vivem num espaço de adaptação permanente. O realizador admite esse simbolismo, que pretendeu mais poético do que didático ou representacional. Nesse universo fechado e disciplinar, a presença de Yas (Anna Heckel) introduz uma breve hipótese de suspensão da lógica viril do grupo. Ela não surge como figura redentora nem como simples interesse romântico, mas como possibilidade de relação fora do regime permanente de competição masculina. Os momentos em que Camille a encontra a tocar o seu instrumento às escondidas, tornam-se hiatos serenos que interrompem a brutalidade física e os códigos de desempenho masculino do internato. Essas cenas “clandestinas” são decisivas porque revelam uma intimidade que o protagonista não consegue verbalizar: a música aparece como espaço secreto de vulnerabilidade, delicadeza e desejo de fuga, quase incompatível com o ambiente de agressividade ritualizada em que os rapazes vivem.
Formalmente, Carnoy trabalha essa instabilidade através de uma realização muito física: câmara inquieta, proximidade táctil dos rostos, som respiratório, tensão permanente entre contacto e afastamento. O filme recusa o sentimentalismo explícito, mas produz uma tristeza persistente precisamente porque mostra personagens incapazes de nomear aquilo que sentem. A amizade masculina surge como lugar de desejo de intimidade condenado pela própria gramática viril que a estrutura. «A Dança das Raposas» é um filme mais sobre rapazes órfãos de modelo do que um filme sobre pugilismo. Não propõe uma “nova masculinidade” já resolvida; mostra antes o momento confuso, doloroso e contraditório em que a masculinidade antiga deixou de funcionar, mas nenhuma outra linguagem emocional foi ainda plenamente construída. É aí que reside a força cultural do filme de Carnoy: perceber que a crise masculina contemporânea não produz apenas violência. Produz também medo, solidão e um sentimento difuso de perda identitária.
Título original: La Danse des renards
Título internacional: Wild Foxes
Realização: Valery Carnoy
Elenco: Samuel Kircher, Faycal Anaflous, Anna Heckel
Duração: 92 min.
França, Bélgica, 2025



