François Truffaut (1932-1984) marcou, como cineasta e como crítico, o cinema moderno. Fez parte do núcleo central da Nouvelle Vague, com Godard, Chabrol, Rivette e Rohmer, uma geração cinéfila, que começou pela crítica e pelo cineclubismo (Truffaut, ainda menor, fundou um cineclube, com o sugestivo nome de “Cercle Cinémane / Círculo Cinemaníaco”) e passou à realização sem frequentar a escola de cinema. No início dos anos 80, com o grande sucesso de O ÚLTIMO METRO, chegou a ser considerado um “cineasta popular”, como o foram também, aliás, muitos dos realizadores que ele mais amava: Chaplin, Renoir, Hitchcock ou Lubitsch. Mas, e apesar da sua importância fundamental e de ter sido também ele um dos cineastas mais amados do seu tempo, os seus filmes, com raras excepções, têm sido, desde a que a Cinemateca os mostrou há vinte anos, menos vistos nas salas de cinema, eventualmente por razões de direitos.
Finalmente restaurados, vamos poder vê-los de novo agora – e para uma nova geração de espectadores esta será uma oportunidade única – numa retrospectiva praticamente completa (só FAHRENHEIT 451 e A NOITE AMERICANA ficam, por enquanto, de fora). Como epígrafe ao seu livro Os Filmes da Minha Vida, Truffaut escolheu uma afirmação de Orson Welles: “Creio que qualquer obra será boa na medida em que exprima o homem que a criou.” Os filmes de Truffaut, para quem a vida era o cinema, e por amor dele se perdeu e por amor dele se salvou, exprimem as suas complexidades e contradições, os seus entusiasmos e os seus medos. Num número temático que lhe dedicaram recentemente os Cahiers (onde foi crítico, apadrinhado por André Bazin, seu tutor e que exerceu junto dele – que crescera numa família complicada e fora um jovem marginal como alguns dos protagonistas das suas obras – o papel de figura paterna positiva), sublinha-se que “os seus filmes continuam a tocar-nos e a estimular-nos, ainda hoje, quase quarenta anos depois do seu desaparecimento precoce. […] Imperfeita, múltipla, lúdica e por vezes trágica, a sua obra não tem nada de um monumento. Pelo contrário, quando revemos os seus filmes, ficamos impressionados pela sua impureza, a sua invenção e o seu lado paradoxal. É uma obra viva, […] única na sua multiplicidade, cuja interpretação, aliás, tem variado ao longo das épocas.”
Como sabemos, a história de qualquer arte está constantemente a ser reescrita. E se a seguir à sua morte, depois de alguns dos sucessos de bilheteira, os Cahiers e outros vieram por sua vez reabilitar alguns dos filmes mais secretos, passionais, atravessados por correntes subterrâneas, hoje, quatro décadas volvidas, começa a redesenhar-se, pouco a pouco, um Truffaut mais solar, o dos filmes DISPAREM SOBRE O PIANISTA, BEIJOS ROUBADOS ou NA IDADE DA INOCÊNCIA. É tempo de redescobrir a sua obra e de lhe trazer novas interpretações.
Truffaut e os actores
“No cinema de François Truffaut, as actrizes e os actores ocupam um lugar absolutamente central. Eles são tanto a carne como o centro nervoso dos seus filmes. Desde a sua primeira longa-metragem, Os Quatrocentos Golpes, impõe um novo corpo, o de Jean-Pierre Léaud, que vai, ao longo do tempo, tornar-se o seu duplo. Juntos, inventarão uma nova forma de representar que navega entre o natural e a estilização. De filme em filme, Truffaut trabalha com os maiores actores e as maiores actrizes do seu tempo, de Charles Aznavour a Fanny Ardant, passando por Jeanne Moreau, Françoise Dorléac, Marie-France Pisier, Michael Lonsdale, Charles Denner, Delphine Seyrig, Catherine Deneuve, Claude Jade, Jean- -Paul Belmondo, Bernadette Lafont, Isabelle Adjani, Nathalie Baye, Gérard Depardieu, Jean-Louis Trintignant, etc. Em cada ocasião, o seu desafio consiste em integrar esses actores e actrizes de personalidade forte no seu mundo, sem, no entanto, fazer com que percam a sua singularidade.” Cahiers du Cinéma
OS INSOLENTES Les mistons
com Gérard Blain, Bernadette Lafont, Bernadette Jouve
1957 – 18’ | M/12
+
OS QUATROCENTOS GOLPES Les 400 Coups
com Jean-Pierre Léaud, Claire Maurier, Albert Rémy
1959 – 1h40 | M/12
2 Julho, 21h30 / 12 Julho, 10h30
DISPAREM SOBRE O PIANISTA Tirez sur le pianiste
com Charles Aznavour, Marie Dubois, Nicole Berger
1960 – 1h22 | M/12
3 Julho, 15h
JULES & JIM
com Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre
1962 – 1h46 | M/12
5 Julho, 15h / 9 Julho, 22h
ANGÚSTIA La Peau douce
com Jean Desailly, Françoise Dorléac, Nelly Benedetti
1963 – 1h58 | M/12
4 Julho, 19h30 / 15 Julho, 13h30
A NOIVA ESTAVA DE LUTO La Mariée était en noir
com Jeanne Moreau, Michel Bouquet, Jean-Claude Brialy
1967 – 1h48 | M/12
3 Julho, 19h / 12 Julho, 21h30
BEIJOS ROUBADOS Baisers volés
com Jean-Pierre Léaud, Delphine Seyrig, Claude Jade
1968 – 1h32 | M/12
8 Julho, 18h / 14 Julho, 16h
A SEREIA DO MISSISSIPI La Sirène du Mississipi
com Jean-Paul Belmondo, Catherine Deneuve, Michel Bouquet
1969 – 2h04 | M/12
10 Julho, 14h
DOMICÍLIO CONJUGAL Domicile conjugal
com Jean-Pierre Léaud, Claude Jade, Mademoiselle Hiroko
1970 – 1h38 | M/12
9 Julho, 18h
O MENINO SELVAGEM L’Enfant sauvage
com Jean-Pierre Cargol, François Truffaut, Françoise Seigner
1970 – 1h25 | M/12
6 Julho, 15h30 / 15 Julho, 16h
AS DUAS INGLESAS E O CONTINENTE Les deux Anglaises et le continent
com Jean-Pierre Léaud, Kika Markham, Stacey Tendeter
1971 – 2h10 | M/12
4 Julho, 15h / 13 Julho, 18h30
UMA BELA RAPARIGA Une Belle fille comme moi
com Bernadette Lafont, Claude Brasseur, Charles Denner
1972 – 1h41 | M/12
7 Julho, 16h
A HISTÓRIA DE ADÈLE H. L’Histoire de Adéle H.
com Isabelle Adjani, Bruce Robinson, Sylvia Marriott
1975 – 1h38 | M/12
5 Julho, 19h / 15 Julho, 20h
NA IDADE DA INOCÊNCIA L’Argent de poche
com Georges Desmouceaux, Philippe Goldmann, Nicole Félix
1976 – 1h46 | M/6
11 Julho, 14h
O HOMEM QUE GOSTAVA DAS MULHERES L’Homme qui aimait les femmes
com Charles Denner, Brigitte Fossey, Nelly Borgeaud
1976 – 1h58 | M/12
10 Julho, 19h
O QUARTO VERDE La Chambre verte
com François Truffaut, Nathalie Baye, Jean Dasté
1977 – 1h34 | M/12
3 Julho, 13h / 8 Julho, 22h
AMOR EM FUGA L’Amour en fuite
com Jean-Pierre Léaud, Claude Jade, Marie-France Pisier
1979 – 1h34 | M/12
11 Julho, 20h
O ÚLTIMO METRO Le dernier Métro
com Catherine Deneuve, Gérard Depardieu, Jean Poiret
1980 – 2h12 | M/12
2 Julho, 15h / 12 Julho, 19h
A MULHER DO LADO La Femme d’à côté
com Gérard Depardieu, Fanny Ardant, Henri Garcin
1981 – 1h46 | M/12
6 Julho, 21h30 / 14 Julho, 20h
FINALMENTE DOMINGO! Vivement dimanche!
com Fanny Ardant, Jean-Louis Trintignant, Jean-Pierre Kalfon
1982 – 1h51 | M/12
7 Julho, 20h
Cópias digitais restauradas
Mais informações em https://medeiafilmes.com/ciclos/ciclo-francois-truffaut-ao-sol-da-nouvelle-vague



