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Queridos Pais – Emmanuel Patron

O cinema francês vive hoje em grande parte do sucesso das muitas comédias que chegam regularmente às salas. Os milhões de espetadores que compram um bilhete para assistir a uma comédia à francesa contribuem assim para o financiamento do cinema independente e de autor. Mas se muitas delas apresentam um investimento artístico mínimo e por vezes são dificilmente exportáveis, o mesmo não se passa com «Queridos Pais». Para começar, o filme baseia-se numa peça de teatro que conheceu um gigantesco sucesso em França e já chegou a outros países. Emmanuel Patron escreveu-a com a irmã Armelle e agora assina a solo a realização. Depois, a história não podia começar melhor: quando os pais lhes anunciam uma reunião de urgência, os filhos pensam que um deles tem um problema de saúde grave. Afinal, era para lhes anunciar que ganharam a lotaria… mas não vão partilhar o dinheiro com eles! Se quiserem saber o que se passa a seguir, só têm de ir ver o filme. Para já, fiquem com a conversa que mantivemos em Paris com Emmanuel Patron.

A peça que deu origem ao filme, e que teve imenso sucesso, foi escrita com a sua irmã Armelle. Há um lado autobiográfico?

Emmanuel Patron: Eu e a minha irmã tivemos a sorte de ter uma família e uma infância ideal. Éramos quatro filhos, com pais bastante carinhosos. Queríamos escrever uma peça e ver se funcionava bem em Paris e em França. E perguntámo-nos o que é que poderia fazer com que uma família normal explodisse? Pensámos que o dinheiro poderia ser um fator importante. Portanto, escrevemos esta peça que conta a explosão de uma família normal, que, de repente, se vê à frente de uma enorme soma de dinheiro e que acaba por se desintegrar.

Quando é que começou a pensar que também poderia dar um bom filme?

Emmanuel Patron: A peça teve rapidamente muito sucesso. Um produtor veio ver a peça logo no início e disse que havia ali um verdadeiro tema de cinema. Nós refletimos e acabámos por ceder os direitos para fazer o filme. Trabalhámos na adaptação tentando manter o espaço fechado, essa espécie de panela de pressão onde decorre a peça.

“O dinheiro pode causar danos irreparáveis

Quais foram as principais dificuldades da adaptação para filme?

Emmanuel Patron: Comecei por escolher uma casa no sul de França, muito isolada, que representa um pouco esse ambiente fechado. A adaptação foi muito longa e difícil. Porque a peça estava a correr extremamente bem em Paris. Eu próprio interpretava o papel do irmão mais velho e representei-a 450 vezes. O mais difícil foi pensar como manter a alma da peça, mas não fazer teatro filmado, mas sim um verdadeiro filme de cinema. No teatro escreve-se para o ouvido, no cinema escreve-se para o olhar. Tivemos de adaptar muito.

A peça foi escrita com a sua irmã, mas realizou o filme sozinho. Há por aí algum problema familiar?

Emmanuel Patron: Não (risos). Eu já queria realizar há muito tempo. A Armelle não tem interesse na realização. Escrever a dois é quase indispensável para mim. Corrigimos tudo em conjunto, avançamos mais rápido. Mas a realização é um ponto de vista artístico muito pessoal, é difícil partilhar. Falei com ela e ela apoiou-me totalmente.

Apesar de não haver um lado autobiográfico, os diálogos parecem muito reais. Inspiraram-se de alguma forma na vossa família?

Emmanuel Patron: Inspirámo-nos na nossa família sobretudo nas situações, não tanto nos diálogos. Os nossos pais eram muito envolvidos no trabalho social, o meu pai dirigia um lar, a minha mãe era gerontóloga, foi presidente de câmara, trabalhou no governo. Tivemos uma vida muito privilegiada nesse sentido. Mas sim, há algumas falas que vêm diretamente da vida real, frases que eu próprio disse ou ouvi na família. Há muita coisa inconsciente, reescrevemos coisas que ouvimos ao longo da vida.

 A 4L do filme acaba por se tornar também uma personagem.

Emmanuel Patron: Sim, a 4L foi o meu primeiro carro. No filme, também representa a juventude do casal e o contraste entre mundos, o irmão chega com um grande SUV elétrico, enquanto os pais ainda têm a 4L. E isso cria conflito. Percebo agora que há muitas coisas no filme que vêm da infância, de forma inconsciente. A família é um tema muito importante para nó. Tivemos duas 4L, e a cena em que estão todos lá dentro é fantástica. A Miou-Miou conduziu logo naturalmente, sabia perfeitamente como funcionava.

O que pensa que esteve na origem do imenso sucesso da peça?

Emmanuel Patron: É a história de uma família que explode. E isso, em teatro ou cinema, é um tema muito interessante. A família é um microcosmo onde há imensas histórias: as pessoas amam-se, odeiam-se, mas estão ligadas para sempre. Isso cria conflitos enormes. É uma comédia familiar, mordaz e completamente amoral.

E entretanto a peça também foi publicada em livro e faz parte do programa escolar, certo?

Emmanuel Patron: A peça foi publicada, sim. Está editada e foi representada em dez países. Não em Portugal, infelizmente, o que é escandaloso (risos). Não é leitura obrigatória nas escolas, mas existe uma edição escolar, sim.

Nunca devem ter pensado que chegasse a ter uma edição escolar, imagino.

Emmanuel Patron: É uma comédia sobre a família e sobre o dinheiro, temas universais que interessam a todos, toda a gente se identifica. No teatro, em Paris, inicialmente vinham os pais, depois voltavam com os filhos, ou os filhos vinham com os avós. É transversal. E era uma comédia que teve sucesso sem estrelas, o que é raro. Hoje é estudada na escola — o que nos deixa muito felizes, apesar de ser bastante amoral.

Na versão para cinema contam com dois grandes atores no papel dos pais, André Dussollier e Miou-Miou.

Emmanuel Patron: Não queria atores demasiado associados à comédia tradicional. Queria que a comédia viesse das situações, não da interpretação. O André Dussollier é um ator extraordinário, com presença, autoridade e também muito humor. A Miou.Miou é muito diferente, mais subtil, mais crua, muito sensível. Nunca tinham trabalhado juntos, e achei essa combinação interessante. Eu já tinha trabalhado com ela como ator e admiro-a muito.

Apesar de ser uma comédia, há um lado negro, que surge no final.

Emmanuel Patron: Sim, exatamente. O verdadeiro negrume está no final, que não posso revelar, mas o moral da história é que ninguém está preparado para lidar com tanto dinheiro. O dinheiro pode causar danos irreparáveis. Quando o filme estrear em Portugal, um país de que gosto muito, espero que o venham ver.  Acho que todos se vão identificar: filhos, pais, avós. É uma história universal.

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João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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