Depois de «Steve», adaptado do livro de Max Porter “Shy”, chega a altura de “Grief is a Thing with Feathers”, primeiro livro de Porter, ser adaptado para o ecrã. «A Sombra do Corvo» [«The Thing with Feathers»] é outro filme enviado do festival de Sundance no início do ano. Não parece haver mais imediato selo de aprovação. A partir do que é um dos livros elementares sobre o luto, «A Sombra do Corvo» de Dylan Southern está ao serviço do argumento escrito pelo próprio Porter, que acontece durante o período mais intenso de luto de um escritor (Benedict Cumberbatch, numa interpretação memorável) e dos seus dois filhos depois de perderem a esposa e mãe, respectivamente. Período no qual o pai escreve uma novela gráfica sobre o poeta Ted Hughes, e a figura do corvo que desenha a carvão materializa-se em tamanho humano (voz de David Thewlis) e começa a visitá-los. É, desde logo, muito claro de que se trata de uma manifestação do subconsciente daquele homem, a sua forma de proferir a visceralidade do que sente. O corvo é tanto terapeuta como joker.
É um filme que, logo à partida, procura como representar as várias fases do luto. Quando o corvo se junta à história, um mundo de fantasia abre-se e o pathos dilacerante é canalizado pelo ritmo e acústica da prosa poética de Porter, onde não existe definição. Tudo é indistinguível, sem muros ou arestas. É um mundo onde se pára e arranca e se pára outra vez até a potência certa ser atingida. Como olhar para a dor arrebatadora de outra forma?
Ao contrário do que poderá ser imaginado, «A Sombra do Corvo» é sobre a vida, não sobre a morte. Mesmo que se possa considerar que a personagem no seu centro seja, de facto, a mulher que aquelas três pessoas perderam. Na sua ausência, encontra-se em cada canto daquele formato quadrado (4:3) sufocante e escuro. Southern, que vem de uma carreira enquanto documentarista musical, enche o filme de jump cuts, armamentizando-o com sequências que abanam o espectador ao ponto do gesto parecer demasiado óbvio, de tão excessivo. Porque neste caso tudo é sobre o sopro e a fragmentação do eu, já que a voz foi esganada. Há que dizer, no entanto, que o filme se esbarra demasiado com o sobrenatural por vezes, fazendo-nos questionar se existe mais ali para saber.
Em retrospectiva, não será isso que ficará de «A Sombra do Corvo». Por um lado, é figura estilística do escritor e do seu acto de criação, a única coisa que pode, de facto, alterar e ter controlo sobre. Por outro, retrata como um homem aprende a viver com a errada ordem das coisas, a devastadora injustiça. “Este seria um ensaio geral que ditaria o resto das nossas vidas”، ouviremos durante muito tempo depois.
TÍTULO NACIONAL: A Sombra do Corvo
TÍTULO ORIGINAL: The Thing with Feathers
REALIZAÇÃO: Dylan Southern
ELENCO: Benedict Cumberbatch, Sam Spruell, David Thewlis
ORIGEM: Reino Unido
DURAÇÃO: 98 min.
ANO: 2025



