Nasceu em 1979, na Cidade do México e tem feito a sua carreira de forma independente, enquanto argumentista, realizador e produtor, muitas vezes associado a vários países europeus e trabalhando com atores como Tom Roth, Charlotte Gainsbourg ou Jessica Chastain. Depois de filmes como «Chronic», «As Filhas de Abril», «Nova Ordem» ou «Crepúsculo», volta a trabalhar com esta última em «Sonhos». No filme, um bailarino mexicano entra nos Estados Unidos sem papéis, para se reunir sem aviso com a namorada, uma influente socialite. Sexo e poder juntam-se num drama escaldante, que assinala também a estreia como ator do popular bailarino mexicano Isaac Hernandéz. O filme esteve em competição em Berlim, onde falámos com Michel Franco.
Há alguma razão particular para fazer este filme neste momento?
Michel Franco: Tive esta história na cabeça durante anos. Faço um filme todos os anos ou de dois em dois anos, chega sempre o momento de perguntar qual é o próximo. Enquanto filmava «Memory», disse à Jessica Chastain, durante uma pausa para almoço, que tinha esta ideia que originalmente era para um homem, mas como queria voltar a trabalhar com ela, achei que poderia funcionar se transformasse a personagem numa mulher. Mas na altura ainda não sabia que seria sobre ballet.
Há também alguma razão política ligada à atualidade por detrás desta história?
Michel Franco: A razão pela qual essa ideia continuava a voltar à minha cabeça é porque, sendo mexicano, estou muito interessado e profundamente perturbado com a forma como os imigrantes são tratados nos Estados Unidos, especialmente os mexicanos, que sustentam a economia. E achei que tinha encontrado um ângulo diferente, ou pelo menos uma forma diferente de lá chegar. Não é que esteja deliberadamente a abordar temas. E também, suponho, sempre quis fazer um filme sobre uma relação tóxica. De repente, tudo se juntou.
E o ballet, veio mais tarde?
Michel Franco: Conheci o Isaac, vi-o num espetáculo e pensei: «faz dele um bailarino, é este o tipo.» Sou argumentista, realizador e produtor. O que significa que tenho controlo total. O cinema não pode ser outra coisa senão um meio de expressão pessoal. O problema é que é muito caro. Mas quando vi o Isaac em palco, pensei que era o que faltava ao filme. E também achei interessante ter uma personagem mexicana, para destacar o quanto os mexicanos e os imigrantes contribuem para os Estados Unidos e para qualquer outro lugar.

Além da mudança da personagem para uma mulher, para trabalhar de novo com a Jessica Chastain, que outras alterações houve à ideia original?
Michel Franco: O «After Lucia», o meu segundo filme, foi escrito durante anos para um rapaz e depois pensei que uma rapariga era mais interessante. «Chronic» era para uma mulher, e depois o Tim Roth disse que fazia o filme se fosse um homem. Mas sempre me interessei mais por mulheres, desde muito novo. Neste caso, o que eu e a Jessica descobrimos foi que era interessante porque ela tem poder e é uma mulher rica. Mas encontrámos uma camada adicional, a forma como a família a diminui. É uma família dominada por homens.
Além de bailarino, o Isaac Hernandéz teve de ser ator…
Michel Franco: Bem, ele não é ator, é bailarino. Agora é ator porque tem um papel principal com a Jessica Chastain,. Vi-o num espetáculo no México. Dançou para 10 mil pessoas. O ballet nunca foi popular no México, era quase inexistente. E este tipo não é apenas o melhor bailarino do mundo, como também tornou o ballet popular no México. No final do espetáculo, estávamos a beber um copo, e dei por mim a dizer: «tenho esta história, se o tornar bailarino, farias o filme? É com a Jessica Chastain.»
«Sonhos» tem uma dinâmica muito diferente de «Memory”, é muito mais duro.
Michel Franco: Espero nunca fazer o mesmo filme duas vezes. Quero mudar sempre. «Memory» foi surpreendente nesse sentido. A Jessica aceitou imediatamente não só porque queria voltar a trabalhar comigo, mas também porque era completamente diferente, é a personagem oposta. Mas é impossível fazer um filme honesto e interessante sobre a relação entre os dois países, que é uma relação muito tóxica, e torná-lo uma história bonita. Isso seria falso. E o final, que não vamos revelar, é especial. Bastante brutal, sim.
Porquê tão brutal?
Michel Franco: Não é nada, comparado com a brutalidade da relação entre os dois países e com a forma como os imigrantes são tratados nos Estados Unidos e também no México. Acrescentei também essa camada, como os emigrantes de outros países são tratados como criminosos no México. A cena do incêndio é baseada num acontecimento real horrível ocorrido no México há cerca de dois anos, em que 60 venezuelanos morreram queimados.

É curioso como retratou o sexo e a atração sexual no seu filme.
Michel Franco: Se pensarmos no final, é predatório de certa forma. Do ponto de vista dela, ela está a explorá-lo. Se os papéis fossem invertidos, veríamos isso ainda mais claramente.
Como trabalhou com a Jessica Chastain uma dimensão sexual tão explícita?
Michel Franco: Há uma confiança mútua. «Memory» foi uma experiência tão boa, eliminámos barreiras. Agora somos amigos, falamos frequentemente. Essas cenas íntimas fazem avançar a história. A primeira é terna. Depois evolui para algo mais complexo, a cena das escadas é muito apaixonada, mas também sobre poder. Ela foi até ao fim porque confia em mim, mas também porque nunca pensámos nessas cenas como «cenas de sexo». Fazem parte da narrativa. Cenas de sexo são más quando não são necessárias, e isso nunca faria.
O filme centra-se em personagens que pertencem a um mundo privilegiado…
Michel Franco: Eu também sou privilegiado em muitos sentidos, claro, e tento usar essa posição para fazer estes filmes. Mas é curioso como julgamos as pessoas. O meu pai nasceu em Juárez, muito pobre, atravessava a fronteira todos os dias, deixou a escola aos 13 anos. É daí que venho. O problema maior são as pessoas que nascem no privilégio e julgam os outros. Milhões de mexicanos atravessam a fronteira porque não têm alternativa. Fogem da morte. E fazem-no com um sorriso, trabalhando arduamente.
Alguma vez teve experiências desagradáveis na fronteira?
Michel Franco: Cresci a viajar para os Estados Unidos. Nunca me senti em perigo, mas sempre desconfortável. Tal como me sinto no México por causa da desigualdade social.
Onde vive atualmente?
Michel Franco: No México. Sempre vivi lá. Não vou sair. Vivo numa cidade com 25 milhões de pessoas, onde em minutos passas de zonas ricas para bairros muito pobres. Isso já é uma forma de violência. E depois há a violência real. No México, morrem cerca de 200 pessoas por dia. Mas eu nunca embelezo a violência. Mostro-a apenas quando é absolutamente necessário. Não quero sobrecarregar o público, mas sim manter a conversa viva.
Que filmes gosta de ver?
Michel Franco: Clássicos. Cinema italiano, Buñuel, Fassbinder, cinema americano dos anos 70. Dos contemporâneos gosto muito de Martin McDonagh. Nas «O Filho de» Saul foi a última obra-prima que vi no cinema.



