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Leibniz – Crónica de uma Pintura Perdida

Diz Leibniz: “No plano, o tempo não existe. Movimento e acontecimento são tempo. Ele não existe por si só”. Permite-se a pintora Van de Meer discordar do ilustre filósofo: “Creio que uma imagem não contém apenas um momento do presente congelado, mas sim muito tempo passado. O tempo da pintura está contido na imagem”. Situando o espectador: estamos já perto do final de «Leibniz – Crónica de uma Pintura Perdida», e neste como noutros diálogos é possível vislumbrar o prazer intelectual, quiçá o encantamento, de um filme erguido sobre o (e)terno e paciente labor das ideias. Sem chegarmos a ver a imagem de que se fala – o retrato pintado do próprio Leibniz –, dir-se-ia que o que o filme nos oferece ao olhar é então, justamente, o tempo da pintura: a acumulação de gestos, a observação recíproca e, sobretudo, a coreografia do pensamento que ocupa o atelier exíguo, acolhedor, onde quase toda a ação se passa.

Para usar só mais uma vez as palavras de Gottfried Wilhelm Leibniz, o repto deste fabuloso estudo de personagem insinua-se no desafio informal que ele, a certa altura, dirige à pintora: “Vamos pensar um pouco juntos?” Pressentimos aí o convite do realizador Edgar Reitz, veterano de 93 anos (o homem por trás da mais longa narrativa de cinema, a trilogia «Heimat»), aqui a partilhar a assinatura com Anatol Schuster, alguém que, respeitosamente, imaginamos como uma espécie Liebfried Cantor, o assistente que no filme ajuda a conservar as cores da artista e suporta o mestre na caminhada, quando a gota lhe afeta a perna.

«Leibniz – Crónica de uma Pintura Perdida» é, pois, o movimento do lápis, seguido do pincel e do pensamento, que nasce de uma solicitação específica: Sofia Carlota, rainha da Prússia, quer manter-se próxima do seu querido filósofo – o homem que sempre lhe ofereceu respostas otimistas para as grandes questões –, e, nesse intuito, encomenda um retrato dele. O primeiro pintor chamado à tarefa, um tal de Pierre-Albert Delalandre, cego pela vaidade do ato de criar, prova não estar à altura na esgrima de palavras com o objeto da sua “arte”. Já a substituta, uma pintora em vestes masculinas, de nome Aaltje van de Meer, desperta todo o interesse de Leibniz… Que não é um interesse romântico, mas pura atração de inteligências.

Dizíamos que o filme é um estudo de personagem, e é (nem vale a pena enveredar aqui pelo tema da “arte no cinema”). Mas a personagem inventada, Van de Meer, não tem nada de acessório no processo de revelação de Leibniz: ela, que pinta do escuro para o claro, da tela negra para a luz, obcecada com a construção de um universo visual que venha de dentro, observa o seu modelo como quem absorve a verdade dessa presença, deixando, com a passagem do tempo, que se abram janelas sobre a alma do retratado. As sombras, os espelhos (partidos ou embaciados), a camara obscura, o ângulo do raio de luz, o grão de expressividade do rosto, tudo isso concorre para uma vibração singular, em última análise, alcançada pelos atores Edgar Selge e Aenne Schwarz – são eles os cúmplices da grandeza de «Leibniz», uma obra discreta e consistentemente sublime.

TÍTULO ORIGINAL: Leibniz: Chronik eines verschollenen Bildes
REALIZAÇÃO: Edgar Reitz, Anatol Schuster
ELENCO: Edgar Selge, Aenne Schwarz, Barbara Sukowa
ORIGEM: Alemanha
DURAÇÃO: 104 min.
ANO: 2025

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