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Adónis: a arte de fingir que está tudo bem

Miguel chega aos 40 sem dinheiro, sem estabilidade e sem grande perspetiva de futuro. Em «Adónis», a nova série da RTP1, Renato Godinho interpreta um homem que transforma carisma em sobrevivência, entrando num mundo de desejo e identidades fabricadas.

Miguel (Renato Godinho) trabalha num ginásio, vive com dificuldades financeiras e atravessa uma fase de desgaste pessoal. Mesmo na casa dos 40, continua preso a uma ideia mais juvenil de si próprio, tentando relacionar-se com mulheres mais novas e recusando reconhecer que já entrou noutra fase da vida. É nesse desencontro entre aquilo que Miguel imagina ser e a realidade à sua volta que «Adónis» encontra o ponto de partida para uma história sobre o preço do desejo em tempos de sobrevivência social.

A mudança acontece quando a atenção inesperada de mulheres mais velhas e financeiramente estáveis se revela uma oportunidade improvável. Incentivado pelos colegas do ginásio, Wilson (Marco Paiva) e Nécio (Hélder Agapito), Miguel aproxima-se de um universo onde companhia, sedução e estatuto se tornam transações difíceis de separar. O que começa como uma solução improvisada para problemas imediatos acaba por misturar-se com uma fantasia de reinvenção pessoal que o protagonista parece incapaz de controlar.

A série utiliza esta premissa invulgar para explorar diferentes formas de solidão, desejo e fragilidade emocional, através de um registo que oscila entre desconforto e ironia. Embora a componente cómica esteja presente nas situações de embaraço e nas dinâmicas criadas em torno de Miguel, «Adónis» parece mais interessada na forma como o protagonista transforma a própria imagem numa forma de adiar a sensação de falhanço pessoal e envelhecimento.

Mais do que uma figura puramente cómica, Miguel funciona como reflexo de uma crise masculina marcada pela precariedade e pela dificuldade em aceitar o envelhecimento. «Adónis» aproxima-se frequentemente da dramedy por tratar o desconforto emocional do protagonista sem o transformar totalmente em caricatura, observando a forma como Miguel tenta preservar uma versão idealizada de si próprio mesmo quando a realidade financeira, afetiva e social começa a desmoronar-se à sua volta.

Essa dimensão torna-se particularmente visível na forma como a série associa intimidade e validação pessoal. Para Miguel, seduzir continua a funcionar como prova de juventude, estatuto e controlo, mesmo quando tudo o resto na sua vida aponta para instabilidade e desgaste. Ao invés de apresentar apenas um protagonista em crise de meia-idade, «Adónis» parece interessada em explorar o esforço constante de manter uma imagem masculina desejável num contexto onde dinheiro, aparência e sucesso social se tornam inseparáveis.

Ao mesmo tempo, «Adónis» utiliza as personagens femininas para fugir à caricatura mais óbvia associada à premissa. Em vez de surgirem apenas como figuras de desejo ou alívio cómico, as mulheres que entram na vida de Miguel parecem representar diferentes formas de solidão, poder, independência e vulnerabilidade emocional. A série desloca assim o olhar habitual destas narrativas, colocando mulheres mais velhas no centro das dinâmicas afetivas e de desejo sem as reduzir a estereótipos.

Essa abordagem ganha ainda mais peso através do elenco reunido pela série, que junta atrizes como Lídia Franco, Custódia Gallego, Maria Emília Correia ou Sílvia Rizzo. A experiência e diversidade destas personagens ajudam «Adónis» a construir um universo menos interessado na provocação fácil do que na observação de relações marcadas por solidão, necessidade de companhia e desequilíbrios afetivos num momento da vida raramente explorado pela ficção portuguesa.

Entre humor desconfortável, melancolia e comentário social, «Adónis» afirma-se como uma dramedy adulta sobre personagens que continuam a representar versões idealizadas de si próprias quando tudo à sua volta começa lentamente a desmoronar.

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