Ao escrever sobre «Um Sinal Secreto» no início de 2026, há uma sensação de que estamos a fazer batota, mas a realidade é que visionamos esta obra sobre outro prisma face aos acontecimentos no mundo real. Dois eventos incidem na visão que fica após o término desta obra. O primeiro, o fenómeno de bilheteiras de «A Criada», o filme de Paul Feig com Sydney Sweeney e Amanda Seyfried, foi baseado no best seller homónimo de Freida McFadden, é um grande retrato sobre a masculinidade tóxica e o reverso dessa medalha… O segundo acontecimento é a publicação parcial dos ficheiros Epstein nos EUA, onde se levanta mais um pouco do véu medonho dos atos que o multimilionário e amigos fizeram com as suas vítimas de adolescentes a mulheres através do grooming. Ao vermos «Um Sinal Secreto», uma bela surpresa realizada por Zoë Kravitz — atriz e agora promissora realizadora —, ela revela, na sua obra de estreia, um panorama digno da ilha de Epstein.

Frida (a talentosa e expressiva Naomi Ackie) deseja um lugar ao sol, é pobre e não tem onde cair morta. Frida, quando está a trabalhar como empregada num evento de ricos e famosos, faz-se passar, com a sua amiga, por uma convidada e subitamente estabelece uma conexão com o anfitrião. Slater (Channing Tatum) é um milionário das novas tecnologias e tem uma reputação de bad boy, mas diz estar renascido para o mundo após penitenciar os seus pecados… Onde é que já ouvimos isto? Slater e os seus amigos vão todos para uma ilha paradisíaca que é a sua propriedade e as acompanhantes são todas jovens e atraentes, mas quando começam a dialogar umas com as outras, apercebem-se de que todas elas são pessoas normais e insignificantes face a esses titãs da indústria. Quando desaparece a melhor amiga de Frida, a trama complica-se; a partir daí o mundo fica invertido num daqueles twists incríveis que provavelmente deixariam Epstein e companhia com vontade de pedir direitos de autor… Um filme bem interpretado, um elenco secundário com pequenos, mas bons apontamentos. E Channing Tatum, mesmo em velocidade cruzeiro, quando chega ao clímax, apresenta-se uma persona gélida e assustadora. Zoë Kravitz assinou o argumento com E.T. Feigenbaum numa história que por vezes parece tão errática quanto a própria realidade de um mundo cada vez mais desigual, em que os ultra-ricos comportam-se como bestas no seu estado mais primário, tratando os desfavorecidos como carne para canhão.
Título original: Blink Twice
Realização: Zoë Kravitz
Elenco: Naomi Ackie, Channing Tatum, Christian Slater, Alia Shawkat, Adria Arjona
Duração: 102 min.
EUA/México, 2024



