As comemorações e aniversários obrigam sempre a arrumar a casa e a repensar o futuro. E Hollywood, que pode ser muitas coisas mas nunca foi modesta quando se trata de se celebrar a si própria e já começou a preparar o grande momento: os Óscares caminham para a sua 100.ª edição em 2028 e ninguém quer chegar ao centenário com um espectáculo cansado, previsível e visto apenas por meia dúzia de cinéfilos nostálgicos agarrados à televisão.
A Academia percebeu que o mundo mudou e que o velho ritual televisivo — aquela longa noite de discursos emocionados, números musicais extravagantes e vestidos que custam o equivalente ao orçamento de um filme independente europeu — já não tem o mesmo magnetismo. O público mudou de hábitos, as redes sociais passaram a decidir o que é relevante e a atenção coletiva dura hoje o tempo de um vídeo no telemóvel. Resultado: Hollywood decidiu fazer o que sabe fazer melhor quando sente o perigo: reinventar o espectáculo antes que ele envelheça.
A mudança mais radical está prevista para 2028, quando os Óscares deverão abandonar o modelo tradicional de transmissão televisiva e passar a ser difundidos globalmente no YouTube. A ideia, defendida pelo CEO da Academia, Bill Kramer, é simples e ao mesmo tempo ambiciosa: alcançar o maior público possível. Segundo ele, a plataforma pode chegar a cerca de 2,5 mil milhões de pessoas em simultâneo, um número que faz parecer quase modestas as audiências televisivas do passado. No fundo, Hollywood quer transformar os Óscares numa espécie de Super Bowl global do cinema, um espectáculo pensado para circular em todas as plataformas ao mesmo tempo, da televisão da sala ao telemóvel no metro. Curiosamente, isto não significa abandonar o ecrã tradicional, porque milhões de pessoas já veem YouTube precisamente… na televisão. O que muda é a escala e a ambição: a cerimónia deixa de ser um evento essencialmente americano para assumir plenamente o estatuto de espectáculo planetário.
Mas talvez a mudança mais simbólica não seja tecnológica, seja histórica. Pela primeira vez em quase um século de prémios, os Óscares vão reconhecer oficialmente o trabalho dos directores de elenco com uma nova categoria dedicada ao Melhor Elenco. Durante décadas, estas figuras permaneceram nos bastidores, apesar de serem muitas vezes responsáveis por encontrar talentos, montar equipas de actores e garantir que um filme funciona como um organismo vivo. Agora passam finalmente para os holofotes. O actor britânico Richard E. Grant resumiu a questão de forma quase brutal: os directores de elenco trabalham anos a desenvolver projectos, muitas vezes com salários modestos, enquanto os actores recolhem os aplausos. Em Hollywood, onde o ego pode ter o tamanho de um estúdio inteiro, esta invisibilidade era uma injustiça antiga e demorou quase cem anos a corrigir.
No meio de tudo isto paira ainda uma palavra que anda a inquietar a indústria inteira: a inteligência artificial. Alguns vêem-na como ameaça, outros como ferramenta inevitável. A Academia optou por uma posição prudente e quase diplomática: a IA é apenas um instrumento. Não ajuda nem prejudica um filme na corrida aos prémios. Mas existe uma linha clara que Hollywood ainda não quer ultrapassar: os Óscares continuam a ser atribuídos a seres humanos. Num momento em que algoritmos já conseguem gerar imagens, vozes e até guiões, a Academia insiste que a autoria artística continua a ter de ser humana, mesmo que as máquinas comecem a ocupar cada vez mais espaço no processo criativo.
Outra reforma menos filosófica mas igualmente urgente é a duração da cerimónia. Durante anos, os Óscares tornaram-se uma espécie de maratona televisiva que podia ultrapassar quatro horas, uma eternidade para uma geração habituada a consumir entretenimento em doses rápidas e virais. A promessa agora é de um espectáculo mais compacto, mais ritmado e mais consciente do seu próprio tempo mediático. Mais momentos musicais, mais sequências pensadas para circular nas redes sociais e menos discursos intermináveis que fazem metade da audiência procurar a porta de saída antes da estatueta final.
Apesar de todas estas mudanças, Hollywood continua fiel a duas velhas receitas que nunca falham: nostalgia e espectáculo. Os números musicais continuam a ser o coração emocional da cerimónia, como provou recentemente Ryan Gosling ao cantar “I’m Just Ken” e transformar um momento aparentemente absurdo num fenómeno viral. No fundo, hoje o sucesso dos Óscares mede-se menos pelos números de audiência televisiva e mais pela quantidade de clips que invadem a internet no dia seguinte.
Entretanto, a organização da cerimónia tornou-se também um exercício de segurança digno de uma cimeira internacional. Num mundo onde eventos globais podem ser alvo de protestos, ameaças digitais ou sabotagem tecnológica, a logística dos Óscares envolve hoje protocolos sofisticados, colaboração com autoridades federais e vigilância constante. Hollywood pode viver de fantasia, mas montar a sua maior festa anual tornou-se um trabalho quase militar.
À medida que o centenário se aproxima, a pergunta inevitável paira no ar: os Óscares ainda importam? Talvez não da mesma forma que importavam há cinquenta anos. Mas continuam a ser uma coisa rara no panorama cultural contemporâneo: um momento em que o cinema, essa arte que vive entre a indústria e o sonho, se olha ao espelho e decide contar uma história sobre si próprio. E Hollywood, que construiu uma civilização inteira à volta de contar histórias, dificilmente desistirá de uma noite por ano em que pode fazer exactamente isso. Enquanto houver cinema — e enquanto houver ego suficiente para premiá-lo, haverá sempre Óscares.




