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O bolo que adoçou a coragem do Irão

Pátria de Samira e Mohsen Makhmalbaf, Asghar Farhadi, Abbas Kiarostami (1940-2016) e Ali Ahmadzadeh, o Irão mobilizou festivais de peso da indústria audiovisual deste ano (Cannes, Locarno e San Sebastián) com aulas de resistência à opressão, como o feroz candidato ao Oscar «A Semente do Fruto Sagrado» e o vencedor da Palma de Ouro de 2025 «Foi Apenas Um Acidente», do artesão autoral Jafar Panahi. Destaque no Golden Globe, esse thriller político é um dos achados desta temporada. A génese dessa febre se deu quando «Meu Bolo Favorito» («My Favourite Cake») brilhou na corrida pelo Urso de Ouro de 2024 e deixou a Berlinale com o Prémio da Crítica e o do Júri Ecumênico. Esquecido nos últimos meses, este drama de tons românticos hoje brilha no streaming, tanto em terras ibéricas, via Filmin.pt, quanto em solo brasileiro, na plataforma Reserva Imovision. Há um triste contexto político por detrás dessa trama outonal com holofotes sobre dois septuagenários: uma viúva e um motorista de táxi. Os seus diretores, a dupla Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha (de «O Perdão»), foram proibidos de viajar para a capital alemã por um veto das autoridades do seu país, o Irão. Eles são acusados de desafiar os códigos morais iranianos em relação ao uso de hijab, uma espécie de touca (com aspecto de véu) que cobre a cabeça feminina de forma bem justa. A interdição da presença de Maryam e Behtash foi recebida pela direção do Festival de Berlim como um atentado à arte.

“Decidimos ultrapassar as restrições legais e pintar um retrato real das mulheres iranianas”, disseram os realizadores numa carta lida diante da imprensa pela atriz e jornalista Lily Farhadpour, que protagoniza «Meu Bolo Favorito» ao lado de Esmaeel Mehrabi.

Ela interpreta Mahin, que perdeu o marido há cerca de três décadas, criou (bem) a filha e hoje vive sozinha, aos 70 anos. Na mesma idade, o motorista Faramarz (papel de Esmaeel) também lida com a solidão em seu dia a dia. Porém, durante uma noite, num encontro casual, eles vão provar do gostinho do bem-querer.

Tal sinopse pode sugerir apenas doçura. No entanto, «Meu Bolo Favorito» sabe ser áspero ao expor a brutalidade policial na repressão de jovens estudantes que ousam sair de casa com os cabelos à mostra. “Sonhamos com o dia em que nosso filme poderá ser exibido nas telas do nosso país”, afirmaram Maryam e Behtash no texto enviado à Berlinale.

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