Em «Jay Kelly», George Clooney envelhece como nós, mas às vezes parece que com mais estilo. Será? É por isso que há filmes que aparecem na hora certa como quem pousa uma mão no nosso ombro e nos diz: “Calma, rapaz, isto ainda não acabou, estás vivo”. «Jay Kelly», o novo filme de Noah Baumbach («Histórias de Um Casamento») estreado na Netflix, é isso mesmo: um lembrete suave — e com George Clooney à frente, o que é sempre uma mais-valia — de que chegar aos 60 não é o fim da estrada, é só a primeira curva onde começamos finalmente a olhar para o retrovisor sem vergonha.
Se isto soa a auto-indulgência… talvez seja. Mas Baumbach, mais sensível do que o seu lado intelectual muitas vezes deixa transparecer, filma tudo com uma doçura desarmada. Há nostalgia, mas não daquela xaroposa que pede lenços; é antes aquela que nos faz sorrir antes de nos perguntarmos “onde é que eu estava com a cabeça aos 30?” Clooney, claro, dá a volta ao texto: mesmo quando o filme se aproxima perigosamente da sebenta existencial, ele resgata tudo com um olhar, um gesto, uma ironia à flor da pele. É, convenhamos, um daqueles actores que sabe carregar um filme só com o timbre de voz.
E depois há a parte encantadora — e inesperadamente adulta — da relação pai-filha, que não tenta ser fofa, nem moralista. É antes uma espécie de reconciliação possível, aquela que todos imaginamos quando começamos a perceber que crescemos pouco mais do que queríamos admitir. O filme podia empurrar para o kitsch sentimental, mas não empurra. Mantém-se firme no território da ternura discreta, que é o melhor território onde um homem de 60 anos pode existir.

O mais curioso é que Jay Kelly parece falar tanto de Clooney como de nós. Sobre o medo de não ter sido o suficiente, sobre os amigos que perdemos, sobre as carreiras que imaginamos e as vidas que afinal vivemos. E, de forma quase provocadora, diz-nos que está tudo bem. Que ainda há tempo para afinar o passo, pedir desculpa, rir de nós próprios e avançar. Mesmo que um joelho estale ou que a ressonância magnética seja o novo spa da meia-idade.
Baumbach pode ter feito filmes mais complexos, mais virtuosos, mais densos. Mas poucos foram tão calorosos. «Jay Kelly» é, no fundo, um brinde: ao passado, ao que ainda falta e à ideia bonita — e um bocadinho ingénua — de que envelhecer pode ser outra forma de começar.
E se for Clooney a mostrar como se faz, tanto melhor. Sempre deu mais jeito aprender com alguém que envelhece melhor do que nós.
TITULO ORIGINAL Jay Kelly REALIZAÇÃO Noah Baumbach ELENCO George Clooney, Adam Sandler, Laura Dern ORIGEM EUA DURAÇÃO 132 min. ANO 2025
Photo by Courtesy of Netflix – © 2025 Netflix, Inc.




