«Little Girl Blue» é um projeto tremendamente original, uma daquelas obras que parece que só o cinema francês consegue produzir. O mérito desta obra recai na realizadora Mona Achache que presta tributo à sua mãe, Carole Achache, ao mesmo tempo que faz as pazes com o passado. Carole foi escritora, atriz e fotógrafa. Era filha da escritora Monique Lange. Carole cresceu junto dos grandes vultos da arte francesa no pós-guerra que eram amigos dos seus pais. O filme também se torna uma história (maldita) das mulheres de diferentes gerações desta família que são marcadas pela tragédia na adolescência, factos que definiram as suas vidas. Após o suicídio da mãe, Mónica Achache encontrou 26 caixas de arquivo e um dictafone. Este acervo (milhares de fotos, cadernos com notas e os excertos de áudio) torna-se o ponto de partida para criar um filme com Marion Cotillard a interpretar a sua mãe para despoletar uma discussão entre a fantasia e a memória. O fantasma ganha corpo e dialoga com a filha, subitamente observamos não só esse diálogo com o passado, como a construção de um filme e de um personagem em tempo real. Marion Cotillard vai ao fundo do poço da criação e transforma-se perante os nossos olhos. Simultaneamente sentimos os seus desafios de encarnar Carole Achache. Marion, na sua angústia de artista, afirma que nunca fez algo semelhante na sua carreira. «Little Girl Blue» salta agilmente entre o documentário e a ficção num filme cheio de emoção, dor, solidão, memórias de rebeldia e ativismo político, mas sobretudo a constante vontade de viver entre o inesperado e a aflição. Não sabemos se foi premeditado ou um feliz acaso, mas esta viagem de entendimento entre mãe e filha é surpreendente e notável. Aqui, as criadoras (atriz e realizadora) da obra tornam-se igualmente as protagonistas da sua própria criação.
Título original: Little Girl Blue Realização: Mona Achache Elenco: Marion Cotillard, Mona Achache, Marie Bunel Duração: 95 min. França/Bélgica, 2023




