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PARA LESLIE

Toda a gente merece uma segunda oportunidade. E uma terceira. Uma quarta?… Na vida real, as situações de alcoolismo são sempre extremamente complexas e desgastantes. Boa parte desse desgaste resulta das sucessivas recaídas que arrasam por completo a confiança não só da própria pessoa que sofre da dependência, mas a de todos os envolvidos – família, amigos. O filme «Para Leslie» não é alheio a esses “efeitos colaterais” do vício, mas o seu foco vai de facto para a personagem que lhe dá o título.

Quando a conhecemos, Leslie (Andrea Riseborough) parece ter chegado ao fundo do poço. Passaram-se 6 anos desde que ganhou a lotaria, e ela está agora a ser posta na rua, expulsa de um motel barato onde aparenta ter ficado nos últimos tempos. Sobre aquilo que lhe terá acontecido, as diferentes etapas deste revés, sabemos pouco – que é como quem diz, quase tudo. Condensado num raccord entre dois planos do seu rosto, a história de uma vida em ruínas.

Sem grandes alternativas, Leslie vê-se obrigada a voltar às origens, ao confronto com velhos conhecidos que não esqueceram nem perdoaram o grande falhanço desta mulher, como mãe, mas, talvez sobretudo, como americana. A má gestão do capital é uma espécie de pecado que lhe está colado à pele como uma tatuagem. E, no entanto, não saímos da América! Como tal, a força de vontade, o amor e o empreendedorismo podem mesmo salvar o dia.

Nomeada para o Oscar de Melhor Actriz, Riseborough entrega-se por completo ao seu papel. Pena que Michael Morris não aproveite o seu carisma e energia, embrulhando-a num argumento feito de clichés mais ou menos testados. O filme pode até resultar com alguns tipos de público, mas certamente não ficará para a história.

Título original: To Leslie Realização: Michael Morris Elenco: Andrea Riseborough, Drew Youngblood, Tom Virtue Duração: 119 min. EUA, 2022

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº92, Abril 2023]

https://www.youtube.com/watch?v=kDvPwYu-y-A
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Catarina Maia
Catarina Maia
Catarina Maia é crítica de cinema, editora de conteúdos e investigadora independente. Escreve regularmente para a revista METROPOLIS desde 2013, entre críticas, entrevistas e ensaios sobre cinema contemporâneo, cultura visual e cinema de autor. Licenciada em Estudos Artísticos e pós-graduada em Estudos Fílmicos e da Imagem pela Universidade de Coimbra, cruza frequentemente o pensamento cinematográfico com questões sociais, éticas, ecológicas e urbanas. Paralelamente, desenvolve trabalho na área da comunicação cultural e coordena o projeto cívico de cariz ambiental Jardim Monte Formoso, ligado à biodiversidade e ao espaço público. Interessa-se particularmente pelas relações entre cinema, ética, memória e justiça social. A frase “Não gastes tudo em freiras”, do filme As Bodas de Deus (1998), de João César Monteiro, permanece como mote pessoal, entre a ironia, a ternura e a desobediência.

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