A Girl

UMA RAPARIGA REGRESSA DE NOITE SOZINHA A CASA

UMA RAPARIGA REGRESSA DE NOITE SOZINHA A CASA

Ana Lily Amirpour não precisou de muito tempo para mostrar as garras (ou os dentes, se se preferir). Em «Uma Rapariga Regressa de Noite Sozinha a Casa», aquela que é a sua primeira longa-metragem, a jovem realizadora americana de ascendência iraniana cruza com enorme confiança e graça referências e estilos muito diferentes. A cuidadosa composição espacial dos planos, a atenção votada à música, à iluminação e à caracterização dos actores revela não só o domínio da estética e dos códigos de género (o filme de terror, o western, o noir), mas também uma originalidade que não se fica pelo pastiche ou a homenagem.

A atitude crítica e criativa de Amirpour está presente, desde logo, no título do filme, que joga com as nossas expectativas e preconceitos. Em «Uma Rapariga Regressa de Noite Sozinha a Casa» não é “a rapariga” (Sheila Vand) que corre perigo: ela é o perigo. O típico xador negro que a cobre da cabeça aos pés não simboliza a sua submissão à lei patriarcal, não serve para esconder a sua beleza frágil mas antes para acentuar a natureza fantástica de uma predadora implacável.

Totalmente falado em farsi, o filme passa-se num qualquer subúrbio industrial a que se chamou, simplesmente, “Cidade Má”. Neste cenário desolado, entre bandidos, prostitutas e drogados, vão-se cruzar dois seres solitários: ele (Arash Marandi), um jardineiro com ares de James Dean, ela, uma vampira muito cool que parece saída de um filme da nouvelle vague. O magnetismo que a actriz empresta à personagem é absolutamente irresistível – não só para as suas vítimas como para a própria câmara, que a segue avidamente.

Em «Uma Rapariga Regressa de Noite Sozinha a Casa», a quase ausência de diálogo é, sem prejuízo, substituída pela qualidade do detalhe visual. Como numa pequena alegoria, a ambiguidade moral é servida pela fotografia a preto e branco onde o sangue se confunde com o batom e o recurso a velhas lentes anamórficas estica e distorce ligeiramente a imagem esbatendo os limites entre o bem e o mal. Será este um sinal de esperança ou de danação?

Título original: A Girl Walks Home Alone at Night Realização: Ana Lily Amirpour Elenco: Sheila Vand, Arash Marandi, Marshall Manesh Duração: 101 min. EUA, 2014

[Texto originalmente publicado na Revista Metropolis nº31, Setembro 2015]