A Ponte dos Espiões

A PONTE DOS ESPIÕES

A PONTE DOS ESPIÕES

É bem verdade que os grandes cineastas não se deixam reduzir a modelos mais ou menos esquemáticos e definitivos. Steven Spielberg, por exemplo. Mesmo não esquecendo que ele é o autor de alguns momentos fulcrais do espectáculo moderno, incluindo «Tubarão» (1975) e «Os Salteadores da Arca Perdida» (1981), será que a noção corrente de “entertainment” basta para caracterizar a riqueza conceptual e artística do seu trajecto?

A resposta é claramente negativa, quanto mais não seja porque o seu trabalho sempre foi alternando filmes da mais pura exaltação espectacular, tendencialmente abstractos, com abordagens de contextos históricos muito específicos. Assim aconteceu, aliás, nos seus dois títulos anteriores, «Cavalo de Guerra» (2011) e «Lincoln» (2012), respectivamente sobre um episódio da Primeira Guerra Mundial e a conjuntura em que os EUA libertaram os escravos. Assim volta a acontecer neste magnífico «A Ponte dos Espiões», uma evocação tão incisiva quanto complexa dos primórdios da Guerra Fria.

Como sempre, a complexidade provém não tanto das componentes conjunturais, mas da relação dessas componentes com a dimensão individual. Dito de outro modo: este é um filme sobre uma advogado, James B. Donovan (Tom Hanks, de novo numa composição de sábia depuração), que se vê compelido a gerir uma troca de prisioneiros entre EUA e URSS, mesmo se é verdade que a sua especialidade são… os seguros.

Aquilo que interessa Spielberg é, afinal, o mais “hitchcockiano” dos dramas. A saber: o modo como circunstância excepcionais obrigam os protagonistas a exceder a sua própria normalidade (profissional, política, etc.), de algum modo desafiando os valores correntes da sua época. Nesta perspectiva, «A Ponte dos Espiões» assenta num fascinante paradoxo: um filme sem heróis, mas cujo tema é o heroísmo.

Título original: Bridge of Spies Realização: Steven Spielberg Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Alan Alda, Amy Ryan, Domenick Lombardozzi Duração: 141 min. EUA, 2015

[Texto originalmente publicado na Revista Metropolis nº33, Setembro 2015]