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The Rocky Horror Picture Show

          «The Rocky Horror Picture Show» é muito mais que apenas um filme: é uma síntese singular entre musical, horror e ficção científica que se consolidou tanto como um marco do cinema cult, quanto como um objeto de estudo académico na análise de estética, performance e subversão narrativa. Adaptado do musical homónimo de Richard O’Brien, o filme dirigido por Jim Sharman traduz para a linguagem cinematográfica um universo teatral exuberante, utilizando a câmara, a iluminação, a montagem, a música e o guarda-roupa como elementos de construção narrativa e simbólica. A conjugação destes elementos confere ao filme uma identidade única, capaz de desafiar as normas cinematográficas e sociais da época e conseguindo criar um universo exuberante, grotesco e transgressor, que continua a fascinar audiências cinco décadas após a sua estreia.

          Jim Sharman, que já havia trabalhado com O’Brien no musical original, demonstra uma notável sensibilidade para a adaptação cinematográfica. A sua realização equilibra de forma eficaz o opulência teatral com a necessidade de um ritmo narrativo coerente. Para tal, Sharman demonstra um domínio notável da mise-en-scène, integrando a artificialidade teatral do musical com as exigências do cinema narrativo. A sua utilização da câmara combina planos gerais que valorizam o espaço performativo da mansão de Frank-N-Furter com movimentos de tracking que acompanham os personagens, acentuando a coreografia e a energia dos números musicais. Por exemplo, na sequência de abertura, em que Brad e Janet atravessam o nevoeiro na estrada, utiliza um plano geral e iluminação difusa para evocar suspense e antecipação, remetendo ao cinema de horror clássico; enquanto a introdução da mansão recorre a close-ups e cortes rápidos para enfatizar a estranheza e a artificialidade do ambiente. Assim, consegue manipular habilmente o contraste entre amplos enquadramentos e planos mais íntimos, criando uma tensão visual que oscila entre o grotesco e o sensual, reforçando a atmosfera de camp e de subversão. A montagem do filme, realizada com ritmo intencionalmente irregular, contribui para o efeito de desorientação e surpresa, essencial à experiência do espectador. Cortes rápidos nas sequências de dança e planos prolongados nos momentos de tensão dramática ou humorística ajudam a manter a atenção do público, ao mesmo tempo que acentuam a natureza híbrida e subversiva do filme.

          O elenco do filme desempenha um papel central na criação desta atmosfera. Tim Curry, no papel de Dr. Frank-N-Furter, oferece uma interpretação memorável, caracterizada por um equilíbrio entre carisma magnético e perversidade lúdica. A sua performance é essencial para sustentar a ambiguidade moral e sexual da personagem, conferindo-lhe uma presença inesquecível. Susan Sarandon, como Janet Weiss, e Barry Bostwick, como Brad Majors, desempenham papéis que funcionam como contraponto à energia desbragada de Curry. A sua relativa rigidez e inexperiência inicial perante o universo de Frank-N-Furter acentua a diferença entre o “normal” e o “transgressor”, reforçando a tensão dramática e humorística. Richard O’Brien, como Riff Raff, contribui com uma interpretação marcada por gestos estilizados e presença inquietante, que enfatiza o tom burlesco e ao mesmo tempo sinistro do filme. A química entre os actores e a forma como cada um encarna o seu papel dentro de um código estético bem definido é crucial para a coesão do filme.

          A banda sonora, composta por Richard O’Brien, Richard Hartley e músicos associados, é outro pilar essencial do filme. Canções como “Time Warp” e “Sweet Transvestite” transcendem a função narrativa, funcionando simultaneamente como números musicais e como mecanismos de construção do mundo. A música incorpora influências do rock, doglam e do musical clássico, criando um efeito híbrido que amplifica a sensação de transgressão e celebração. A utilização estratégica de pausas, silêncios e repetições sonoras permite a Sharman explorar o ritmo cinematográfico de forma sofisticada, transformando as sequências musicais em momentos de clímax emocional e estético. Soma-se o guarda-roupa, concebido por Sue Blane, como ponto crucial para a construção visual e simbólica das personagens. As roupas de Frank-N-Furter funcionam como extensão da personagem, afirmando a libertação sexual e desafio às normas de género. Contrariamente, o vestuário de Brad e Janet é conservador, simbolizando inocência e normalidade; este contraste visual reforça a narrativa de transgressão e transformação. O guarda-roupa é também estratégico na definição de hierarquias de poder, atração e teatralidade: cada elemento, desde as botas de plataforma às meias de rede e corpetes, contribui para a codificação visual do universo camp do filme.

          A cenografia da mansão é projetada para criar uma atmosfera simultaneamente sedutora e grotesca. As cores saturadas, o mobiliário antigo e délabré, assim como os elementos de iluminação dramática evocam o horror gótico e o cabaré expressionista. Ao alternar entre tons quentes e frios, enfatiza a plasticidade dos corpos, a textura do vestuário e a ambiguidade dos espaços. Os efeitos visuais e maquilhagem –  particularmente na transformação de Rocky (Peter Hinwood) – são deliberadamente estilizados, sublinhando a artificialidade e a teatralidade do universo. Comparativamente a outros filmes de horror e musicais da década de 1970, «Rocky Horror» distingue-se pela integração destes elementos num continuum estético coerente, onde cada escolha visual reforça a narrativa e o clima emocional.

          Um dos aspectos mais fascinantes do filme é a sua relação com o mito de Frankenstein. Caroline Picart, em “Remaking the Frankenstein Myth on Film: Between Laughter and Horror”, analisa como o filme reinterpreta esse mito clássico. A académica (de filosofia do cinema) argumenta que, assim como o monstro de Frankenstein, Frank-N-Furter é uma criação que desafia as normas sociais e sexuais da época. No entanto, enquanto o monstro de Frankenstein é uma figura trágica e rejeitada, Frank-N-Furter é uma figura carismática e “empoderada”, que celebra a sua identidade e desafia as convenções de género e sexualidade. Essa subversão não apenas homenageia o mito original, mas também o transforma, utilizando-o como uma metáfora para a liberdade sexual e a aceitação da diferença. E é aí que reside a sua força que perdurou junto do público que acolheu a obra e fez uma re-apropriação. Após o lançamento inicial, que foi um fracasso comercial, «The Rocky Horror Picture Show» encontrou um novo fôlego nas exibições de meia-noite, especialmente no Waverly Theater em Nova York. Estas sessões tornaram-se eventos interactivos, onde o público não apenas assistia ao filme, mas também participava activamente: cantando, dançando e respondendo às falas dos personagens. Danny Peary, em “Cult Midnight Movies”, discute como o filme exemplifica as características dos filmes cult, incluindo a sua capacidade de criar uma comunidade de fãs dedicados, a par da sua resistência às normas comerciais da indústria cinematográfica. A interacção do público transformou o filme numa experiência colectiva, onde a linha entre o filme e o público se desfazia, criando uma celebração da individualidade e da liberdade de expressão. Em particular, «Rocky Horror» desempenhou um papel significativo na representação da comunidade queer no cinema (mesmo que alguns apontem que o filme perpetua estereótipos negativos sobre pessoas trans ao retratar Frank-N-Furter como uma figura insidiosa e manipuladora) oferecendo uma plataforma para discussões sobre identidade e diversidade sexual numa época em que tais temas eram frequentemente marginalizados.

          O impacto cultural de «The Rocky Horror Picture Show» é inegável e incontornável. O filme não influenciou apenas gerações de cineastas e artistas, mas também deixou uma marca indelével na cultura popular. A sua força reside, justamente, na perfeita conjugação de diversos elementos formais e artísticos: a realização de Sharman, as interpretações memoráveis do elenco, a banda sonora electrizante, o guarda-roupa emblemático e a cenografia imaginativa criam uma experiência audiovisual que é ao mesmo tempo grotesca, sedutora e hilariante. O filme mantém-se como uma referência incontornável para o estudo de cinema musical, camp e da cultura queer, destacando-se pela sua capacidade de transformar um espectáculo teatral em experiência cinematográfica duradoura, envolvente e estética. Por tal, é mais do que um filme; é um fenómeno cultural que desafiou as normas sociais e cinematográficas da sua época e o seu legado perdura lembrando-nos da importância de questionar as normas estabelecidas e de cada um procurar a sua verdadeira identidade. Como diz a canção que se tornou lema: “Don’t dream it, be it!”

Leia o especial completo «The Rocky Horror Picture Show» na revista Metropolis 124

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