No filme de animação e imagem real «Coyote Vs. ACME», 2023/2026, de Dave Green, o argumento (inspirado num artigo publicado na prestigiada revista New Yorker) situa a acção num mundo em que personagens de carne e osso coexistem com figuras conhecidas da animação americana, neste caso oriundas das séries “Merry Melodies” e “Looney Tunes”, duas marcas que consolidaram de forma indelével várias décadas de curtas-metragens nos Estúdios da Warner Brothers. Estamos a falar de um diversificado catálogo de pequenos grandes filmes e de um vasto leque de endiabradas comédias onde podemos encontrar algumas obras-primas do formato e do género e a “prestação” de um amplo elenco de personagens literalmente “maiores do que a vida” (na verdade, nunca morrem ou envelhecem): Bugs Bunny, Daffy Duck, Porky Pig, Foghorn Leghorn, Elmer Fudd, Tweety, Sylvester, Yosemite Sam, Tasmanian Devil, Speedy Gonzales e, para o que aqui nos interessa, o engenhoso, persistente, mas azarado Wile E. Coyote e o “supersónico” Road Runner, a velocíssima ave do deserto, igualmente identificada pelo som Beep Beep. Todas estas figuras desenhadas e animadas para encantar crianças e adultos perduraram seguramente na memória de quem acompanhou desde cedo as suas aventuras e desventuras. Deve-se ao genial Chuck Jones (1912-2002) o primeiro filme protagonizado pelos rivais, designados num falso latim por Carnivorous Vulgaris e Accelleratii Incredibus, intitulado “Fast and Furry-Ous”, 1949. Do argumento de Michael Maltese sobressaíam já as manobras e vicissitudes do esfaimado Wile E. Coyote para capturar o Road Runner e os gadgets de que se servia (pelo menos um deles certificado pela ACME, o Super Outfit, fatinho ao estilo dos super-heróis), sem esquecer os foguetões, as barras de dinamite, os pedregulhos e demais expedientes, e ainda os muito recorrentes sapatos movidos a jacto. Enfim, em vez de usar o seu mais básico instinto animal para capturar de imediato a ambicionada presa (o que naturalmente daria cabo da continuidade da famosa saga), o mamífero passou anos a inventar uma infindável sucessão de minas e armadilhas que, fatal como o destino, se viravam contra ele umas atrás das outras. De notar ainda que nesta série de curtas da dupla não havia diálogos. Quando era necessário as personagens “falarem”, faziam-no através de cartões e placas onde estava escrito o que queriam dizer.

Muitos anos depois, a sequência inicial da actual longa-metragem (frenética abertura situada em 1992) deixa no ar uma frase plena de mistério e um pressuposto de intriga conspirativa, ao estilo “um dia saberemos a verdade”. Nela destaca-se a figura do acossado Dr. Peter Lorre (graficamente decalcado das caricaturas do actor utilizadas na produção de animação da Warner, e não só) que vai desaparecer em circunstâncias no mínimo invulgares. Entretanto, desses iniciais anos noventa do século XX, o filme salta para o presente onde iremos dar conta dos esforços de Wile E. Coyote para processar a empresa ACME que, segundo vozes geralmente bem informadas, usou e abusou dos cartoons para ensaiar produtos com um assinalável grau de risco antes de os colocar no mercado. Lá está, as personagens da animação a sofrer uma inegável discriminação e as consequências de serem consideradas indestrutíveis, diríamos mesmo, imortais. Para os devidos efeitos, o nosso herói irá contactar uma firma um bocado chungosa de advogados viciados em acordos judiciais preguiçosos (aparentemente rentáveis), especializada em casos de violência sobre figuras animadas. Trata-se da Avery, Jones & Maltese, (ou seja, dito de outra maneira e em jeito de homenagem a nomes emblemáticos da animação, (Tex) Avery, (Chuck) Jones & (Michael) Maltese). Diga-se que os episódios de crueldade e agressão aos cartoons não podiam deixar de ser senão actos da responsabilidade da ACME, essa empresa fictícia que garantiu a perenidade cinematográfica ao longo de anos e anos de desvairadas ficções e cuja sigla, ainda hoje no plano metafórico, representa o pináculo da arbitrariedade capitalista, o reino do vender gato por lebre. E neste «Coyote Vs. ACME» a mais improvável das conjunturas jurídicas vai ser urdida e a sua engrenagem oleada com inúmeros gags ou situações extremas a que os produtores vão imprimir força e dinâmica, precisamente, a partir de mil e uma memórias cinéfilas. Não precisamos de ser catedráticos do cinema de animação, sobretudo made in Warner Brothers, mas algum conhecimento do histórico ajuda para saber ler nas entrelinhas os pormenores (por vezes bem subtis) que aqui e ali vão sendo introduzidos na parafernália de referências áudio e visuais destinadas a agregar muita matéria que “Coyote Vs. ACME” introduz na estrutura do guião para dar consistência aos seus pressupostos lúdicos e narrativos. Podemos mesmo dizer que a seguir a cada sequência com princípio, meio, e uma espécie de catapulta para uma fugaz conclusão que afinal sustenta o fio condutor de outras nova(s) sequência(s), não seria despropositado ouvir na divertida barafunda geral o jingle das “Merry Melodies” ou do “Looney Tunes”, assim como o carismático “That’s All Folks”. Entretanto, quando finalmente se inicia o processo movido por Wile E. Coyote, concebido na sua cabeça e nas blueprints com que sustenta a suposta precisão e astúcia das suas mirabolantes armadilhas, percebemos que o principal objectivo daquele desgraçado “cão do deserto” não era apenas o de fazer prevalecer a justiça pelos danos sofridos no passado. Na prática, no meio das disputas legais, queria apanhar a jeito o dito Beep-Beep, a presa obsessivamente desejada que supostamente devia ser convocada para o julgamento por ser a única criatura capaz de confirmar os desastres e as malfeitorias da ACME que atormentaram sobremaneira o percurso existencial do seu eterno perseguidor.

Na verdade, este filme que abre com a suprema provocação “Based on a True Story” possui uma enorme vantagem sobre outras abordagens mais ou menos recentes produzidas a partir do património da animação e do mundo dos comics: não se leva muito a sério, mas no bom sentido da palavra. Há uma liberdade latente na organização da sua conjuntura ficcional que não quer ser mais do que aquilo que é, ou seja, puro entretenimento. Não obstante, pleno de humor inteligente e sem fazer concessões ao slapstick de pacotilha. Por outro lado, não deixa de lançar para cima da mesa uma certa crítica (menos superficial do que possa parecer) ao modo como funcionam as grandes companhias da plutocracia moderna, nomeadamente as que procuram dominar os mercados e os modelos de negócio através da concentração monopolista. Para já não falar no modo como retrata os meandros da justiça que nem sempre protege os mais fracos e, já agora, as causas com alguma razão do seu lado.

Em suma, «Coyote Vs. ACME» cumpriu a promessa que anunciava, a de ser uma comédia para grandes e pequenos, mas orientada para um público adulto que sabe interpretar a realidade em que vive e cuja experiência de vida não se resume apenas ao universo algo surreal dos “Looney Tunes” e das “Merry Melodies”. De igual modo fica claro que o filme possui o necessário e suficiente para se constituir como uma sátira bem-disposta aos conglomerados que procuram dominar a oferta de produtos e serviços, como a sinuosa ACME Corporation (no filme liderada pelo galo Foghorn Leghorn, que se comporta como um pavão, se perfila como um nababo do capitalismo selvagem e se expressa com pomposo sotaque do Sul dos EUA). Estava pronto em 2023, mas devido a questões fiscais e administrativas que aqui não vou desenvolver a estreia foi empurrada para 2026. Em boa hora foi “libertado”. Num panorama algo morno de estreias, não hesitem em dar uma voltinha neste carrossel de imponderáveis que, digamos com igual ironia, se não aconteceu podia acontecer lá para as bandas do Novo México e da cidade de Albuquerque. Já agora, por mera curiosidade, diga-se que em 1969 o pássaro “Dusty Roadrunner” (inspiração maior para o Beep-Beep) foi adoptado como símbolo oficial do citado Estado do Sudoeste dos EUA. Entretanto, segundo fontes que se mantiveram anónimas, não consta que haja planos para dar a qualquer “Coyote” similar honra e distinção. Como diriam os hispânicos que por lá ficaram ou se instalaram: Pobrecito…! De facto, não há direito! Mas, como dizia o outro, así es la vida!
Título original: Coyote vs. Acme
Realização: Dave Green Elenco: Will Forte, Lana Condor, John Cena, Tone Bell, Luis Guzmán, P.J. Byrne
Duração: 101 min.
EUA, 2026
Fotografias (© 2026 WARNER BROS. ENTERTAINMENT INC)



