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The Hawk

Will Ferrell regressa ao humor absurdo num território que lhe é familiar: o do homem convencido de que continua a ser maior do que realmente é. Em «The Hawk», a nova comédia da Netflix, interpreta uma antiga lenda do golfe cuja tentativa de recuperar a glória perdida dá origem a uma história sobre ego, envelhecimento e a dificuldade em aceitar que o tempo não perdoa.

Há muito que Will Ferrell faz carreira a interpretar homens incapazes de reconhecer os próprios limites. «The Hawk» recupera essa persona, mas reveste-a de um tom mais melancólico do que seria de esperar. Embora o golfe funcione como motor da narrativa, a série interessa-se sobretudo pela forma como Lonnie enfrenta o fracasso, o envelhecimento e a perda de relevância.

Lonnie “The Hawk” Hawkins (Will Ferrell) já conheceu o topo do golfe mundial, mas o tempo encarregou-se de o afastar dos grandes palcos. Recusando aceitar que os melhores dias ficaram para trás, lança-se numa última tentativa de conquistar o único major que lhe falta e completar o Grand Slam. A busca pela glória, porém, obriga-o a enfrentar muito mais do que os adversários em campo: uma relação distante com o filho, um casamento falhado e a persistente convicção de que ainda é o mesmo campeão que um dia dominou a modalidade.

É precisamente nessa incapacidade de olhar para além de si próprio que a série encontra grande parte da sua força. Lonnie não é um protagonista particularmente fácil de admirar. O ego que alimentou a sua carreira continua a ditar as suas decisões, mesmo quando estas têm consequências evidentes para quem o rodeia. Até perante acontecimentos que exigiriam maior empatia, Lonnie é incapaz de colocar os outros em primeiro lugar, como demonstra a forma como reage à morte de um amigo.

«The Hawk» não procura desculpar-lhe os defeitos nem transformá-lo num herói redimido à força. Pelo contrário, aceita que o humor possa nascer precisamente do desconforto provocado por uma personagem incapaz de reconhecer que, durante demasiado tempo, colocou sempre a própria ambição acima de tudo o resto.

Ao recusar transformar Lonnie num herói facilmente redimível, «The Hawk» torna-se mais interessante do que uma simples comédia sobre um regresso improvável ao desporto de alta competição. A série evita procurar simpatia imediata pelo protagonista e prefere construir, aos poucos, uma figura contraditória, tão capaz de provocar frustração como de despertar compaixão. O mérito está em nunca perder de vista essa ambiguidade: Lonnie continua a ser movido pelo ego, mas é precisamente quando as suas certezas começam a vacilar que a narrativa encontra os momentos mais genuínos.

O restante elenco desempenha um papel essencial ao impedir que a narrativa fique demasiado centrada nas excentricidades de Lonnie. As personagens que o rodeiam funcionam como um permanente confronto entre a imagem que ele tem de si próprio e a realidade que insiste em ignorar. Sem grandes discursos moralizadores, a série mostra como anos de decisões egoístas deixaram marcas nas relações familiares e pessoais, dando às interações um peso emocional que vai além da piada fácil.

O elenco inclui nomes como Molly Shannon, Jimmy Tatro, Fortune Feimster, David Hornsby e Luke Wilson, entre outros. Esta é uma criação do próprio Will Ferrell, com Chris Henchy e Harper Steele.

Photo by Colleen E Hayes/Netflix – © 2026 Netflix, Inc

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