Orçado em US$ 42 milhões e elogiado por alguns dos mais rigorosos veículos de imprensa dos EUA, «The Naked Gun: Aonde É Que Para a Polícia?!» inspirou um dos memes mais postados do fim de semana, com Liam Neeson a alertar: “Alerta de Spoilers. Não há zumbis, nem super-heróis e o Pedro Pascal não está neste filme”. A piada bastou para ampliar a fama do astro irlandês no radar das novíssimas gerações. Nos últimos 16 anos, sem ignorar convites de diretores autorais, como Martin Scorsese, Atom Egoyan e o seu compatriota Neil Jordan, ele manteve acesa a pólvora das longas de pancadaria, assumindo um lugar de vigilante crepuscular, já grisalho, fazendo jus à sabedoria dos seus 73 anos. Em 2025, além de mobilizar telas e streamings com sessões comemorativas dos 20 anos de «Batman Begins» (no qual é vilão), ele tem outra pátria para salvar: a comédia.
A escolha dele para estrelar a nova versão do hit “The Naked Gun” é uma forma de angariar plateias para o filão do politicamente correto – ampliada pela filosofia woke – enfraquece dia a dia. O mesmo vinha acontecendo com os thrillers de adrenalina pura… até Liam salvá-los.
Sob a direção de Akiva Schaffer, o «The Naked Gun: Aonde É Que Para a Polícia?!» («Corra Que A Polícia Vem Aí!», no Brasil) de 2025 é uma continuação tardia da franquia milionária que fez de Leslie Nielsen (1926-2010) uma estrela. Frank Drebin, o polícia desmiolado que Nielsen encarnava (dublado no Brasil por Márcio Seixas), fez fortunas. O primeiro filme da sua trilogia, lançado em 1988, custou US$ 12 milhões e arrecadou US$ 152 milhões. O segundo custou US$ 23 milhões e ajudou o ano cinéfilo de 1991 a ficar com as contas no azul ao somar US$ 192 milhões. O terceiro e último episódio das suas peripécias – que podem ser vistas pelo povo do Brasil na Netflix de lá – contabilizou US$ 132 milhões em 1994. Cabe agora a Liam viver Drebin Jr.
Na legacy sequel o trapalhão da Lei e da Ordem tem um assassinato para desvendar pelo meio da luta para impedir que o seu departamento feche as portas. Pamela Anderson é outro destaque do elenco da longa, cujo produtor é Seth MacFarlane, o criador da animação “Family Guy”. Mais do que isso, Seth foi o responsável pelo último fenómeno humorístico de Hollywood: «Ted» (2012), aquela deliciosa iguaria na qual um adulto (Mark Wahlberg) tinha como melhor amigo um ursinho falante de peluche. A sua arrecadação na venda de ingressos beirou US$ 550 milhões há… 13 anos.

Com dois filmes prontos para lançar daqui até dezembro («Ice Road 2: Road to the Sky» e «Cold Storage»), o astro de «A Lista de Schindler» (1993) pode se reinventar como comediante da mesma forma que se recriou, no fim dos anos 2000, como protagonista de longas-metragens de pancadaria, criando uma persona digna de Charles Bronson. Ganhou essa persona em 2009, com o fenómeno comercial da franquia «Busca Implacável» (“Taken”) e manteve-se firme nela, brilhando em blockbusters como «Sem Identidade» [no Brasil, «Desconhecido»] (2011) e «Missão Inesperada» [no Brasil, «Na Mira Do Perigo»] (2021).
O mais seguido de todos os géneros, sobretudo por correntes ideológicas que confundem transcendência estética com sociologia, o cinema de ação viu o seu panteão de estrelas e os seus códigos narrativos serem esvaziados pelo politicamente correto ao longo dos anos 1990 para cá, substituindo o que nele havia de épico pelo patético da comédia, rejuvenescendo (ao nível da infantilização) dos seus protagonistas. Quando morreu o último dos heróis anciões do filão, o já citado Bronson, em 2003, acreditou-se que a perspectiva de um vigilantismo maduro, de cabelos grisalhos – e, por isso mesmo, aberto a autocríticas – estaria extinto para sempre. Só sobreviveria das iniciativas de Sylvester Stallone – o midas dessa seara – em juntar os mestres aposentados do passado na franquia The Expendables (2010-2023). Clint Eastwood, que era também um vetusto herói, pendeu mais para a direção. Will Smith, Vin Diesel, Charlize Theron e The Rock conjugaram com maestria os códigos do thriller, porém sempre seguindo uma linha mais próxima da aventura e do family film do que das convenções OMACs (One Man Army Combat), ou seja, “exércitos de uma pessoa só” dos anos 1970 e 80.

Nessa convenção, só dois astros brilharam, curiosamente ambos dobrados (dublados) pelo mesmo e talentoso ator – o paulista Armando Tiraboschi – no Brasil: Jason Statham e Neeson. O primeiro enveredou mais por uma linha B, de filmes graficamente explícitos no sangue e na quebra de ossos, à moda gore, numa reinvenção da fórmula do guerreiro imparável, como os ronins (samurais sem mestre) de Akira Kurosawa. Neeson, não.
Filmes de eficiência comercial (e artística) inquestionável, como “Absolution” e “Taken”, comprovam que o septuagenário artista não só assumiu o posto de Bronson – de ser o justiceiro com rugas no rosto – como humanizou o arquétipo do vigilante experiente, trazendo tridimensionalidade a papéis antes representados de modo raso, resumidos às suas jornadas. Arrastou o seu conhecimento teatral, sobretudo de Tchekov, para cada empreitada dessas, construindo heróis alquebrados, penitentes, com dilemas. Não precisou deixar os convites de diretores de grife, como Martin Scorsese (com quem trabalhou em “Gangues de Nova York” e “Silêncio”), para isso.
Título original: The Naked Gun Realização: Akiva Schaffer Elenco: Liam Neeson, Pamela Anderson, Paul Walter Hauser, Danny Huston, CCH Pounder, Kevin Durand Duração: 85 min. EUA, 2025

