Última Edição

Novidades

Artigos Relacionados

Sophia Setembro de 1963

Seguramente num belo dia de Verão de 1963, não por causa do ameno clima mediterrânico mas sobretudo pelo despertar de sensações e emoções que as primeiras viagens sempre convocam, a escritora e poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen pisou o solo grego. Depois seguiu em frente por uma estrada que ela assinala no seu diário como: “Estrada maravilhosa à saída de Patras. Vamos rente ao mar entre oliveiras e ciprestes e montanhas azuladas. Calor leve, ar perfumado (…) Paramos e vou lavar os pés, as mãos, os braços e a cara, no mar”. Escreve no plural, porque não vai sozinha. Com ela viajam duas personalidades da vida social, cultural e literária portuguesa, a escritora Agustina Bessa Luís e o marido, o advogado Alberto Luís.

Sessenta anos depois, dois jovens cineastas, Hugo Pereira e Vanessa Duarte, pegaram em fragmentos do referido diário e deram voz a alguns dos seus poemas, acrescentando outras palavras e ideias a partir da sua própria experiência de modernos viajantes. Tudo no contexto de uma rodagem que procurou, através dos passos e dos espaços outrora percorridos, reconstituir o percurso de alguém que, no plano da antecipação erudita e humanista, já viajara para a Grécia mesmo antes de lá chegar. Porque, na verdade, Sophia de Mello Breyner não partira nem chegara a uma Terra Incognita, mas sim a um melting pot geográfico e identitário, mosaico e simbiose de mundos, cruzamento de muitos povos e civilizações, do qual não ignorava nem o passado histórico nem o pretérito intelectual que serviu de berço fundador da cultura helénica. Tudo aquilo que permitiu erguer os pilares da continuidade patrimonial greco-romana e moldou o conceito de ocidente na perenidade do que ainda hoje são as nossas idiossincrasias enquanto europeus. Em suma, um fascinante cadinho de culturas de que ela foi beneficiária e exímia intérprete, valores que defendeu na sua escrita e que lhe valeram merecido destaque no panteão dos nomes grandes da nossa literatura.

Dito isto, o modelo cinematográfico adoptado pelos realizadores (igualmente responsáveis pela fotografia, montagem e narração) no seu «Sophia Setembro de 1963», 2026, incide na articulação da linguagem documental (sem recurso a materiais de arquivo mesmo quando eles são citados, por exemplo, as fotografias registadas por Sophia) com a manipulação imagética e sonora onde os silêncios se fazem sentir como depoimentos surdos face ao progresso da montagem visual. Esta dialéctica que empurra o projecto para o campo do ensaio (com os riscos inerentes que alguns sabem valer a pena correr) vai ser consolidada na fusão dos excertos da obra poética de Sophia, associados ou não ao seu diário, e as impressões de rodagem dos cineastas. Tudo sintetizado no diálogo imaginado para as duas vozes da narração, a feminina e a masculina, num exercício de oralidade que pontua o ritmo das sequências e situa as matérias e geografias abordadas. Damos assim conta dos ecos das palavras de Sophia e aquilo que os realizadores inseriram por acréscimo na contextualização (por vezes contraditória) do que na actualidade foram observando, as diferenças pressentidas e vividas entre a presença humana nos sítios arqueológicos no início dos anos sessenta do século XX e a massificação veraneante, mais ou menos generalizada, do início dos anos vinte do século XXI.

Para os devidos efeitos, podemos ver neste limbo em que o filme se estrutura uma forma de o enquadrar, mais do que numa Terra de Ninguém, num Tempo de Ninguém. Não o lugar real e concreto de uma viagem cronologicamente documentada, mas o lugar onde a nossa sensibilidade encontra a sombra da “protagonista” na sua passagem pela Grécia. E, sim, falo de protagonismo quando me refiro ao nome de Sophia. Na verdade, as referências aos seus companheiros de viagem são episódicas e nem sempre luminosas ou solidárias. Pelo menos, fica essa ideia no ar, a de uma crítica saudável mas incisiva ao modo de ser e encarar uma mesma realidade, sejam essas contradições verdadeiras, fundamentadas, ou não.

Por outro lado, não deixa de ser curiosa a introdução das opiniões do grupo que indicam um certo sentido prático na abordagem do dia-a-dia, como o preço de algumas refeições e estadias, o drama vivido com os mosquitos e a quantidade infernal de moscas que conspurcam os alimentos, a insistência grega no peixe frito e a quase ausência de grelhados, entre outros assuntos prosaicos que contrastam com a reflexão filosófica face a colunas milenares, estátuas esculpidas segundo o perfil de um ideal grego, rostos de mármore e capacetes de guerreiros que nos fazem lembrar os heróis, reais e míticos, de outras eras.

Mas não há rosas sem um ou outro espinho. No caso deste «Sophia Setembro de 1963», confesso que dispensava o expediente da figuração que de algum modo simula (discretamente) a presença física da autora. Preferia ver no que resta da antiga Grécia, a da Antiguidade Clássica, nas ruínas sobreviventes (preservadas ou não) de uma civilização, um espaço de pura memória, sem ruído estival e lúdico como por vezes acontece. Mesmo que para isso fosse necessário reenquadrar alguns planos na pós-produção ou enquadrá-los de outro modo em algumas das localizações de rodagem, por exemplo, fragmentando o campo visual na altura em que apontaram a objectiva e definiram as escalas com que filmaram uma paisagem, um monumento, uma estrada ou uma simples e singela praia de águas cristalinas. Há um momento que ilustra bem aquilo que quero dizer: a mão de uma mulher procura pedrinhas dentro de água e pouco antes deste plano entrar ouve-se na banda sonora: “Tomo banho, sozinha, entre montes azulados. Água morna. Um barco com dois pescadores. Apanho muitas pedras.” E o que melhor recordamos são as mãos de uma mulher mergulhadas na água, manipulando pedrinhas negras, num jogo quase inocente: está dito o que precisava de ser dito sobre a sensibilidade de Sophia! E seguramente as mãos nem sequer são dela. E, mais, para sentirmos a luz que banha o Mar Jónico ou o Mar Egeu nem precisamos da caução monumental dos sítios arqueológicos. Por vezes, citando claramente o seu diário, a voz narradora salienta a individualidade da poetisa revelando que ela visitara sozinha (e aos primeiros sinais do dia) os locais que a fascinavam como, por exemplo, o Parténon de Atenas. E a primeira vez que a “ouvimos” falar da sua experiência, aquilo que ela diz e nós vemos, funciona no plano subjectivo do que por fim acabamos igualmente por partilhar…! De facto, neste documentário ensaístico, o que importa não reside no concreto das coisas quotidianas, mas sim na abstracção da viagem, na volatilidade do mês e do ano que ficam assim associados ao nome e personalidade a que “Sophia Setembro de 1963” presta uma mais do que justa homenagem. Como se diz na sinopse: “Um filme que, mais do que sobre Sophia, é para Sophia e em sua memória.”

Produção da The Stone and The Plot, produtora e distribuidora liderada por Daniel Pereira, que persiste, e bem, em manter-se independente numa actividade cinematográfica e num panorama de estreias cada vez mais adverso a quem aposta na diferença.

Título original: Sophia Setembro de 1963
Realização: Vanessa Duarte, Vanessa Duarte, Hugo Pereira
Documentário
2026, Portugal

João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

Também Poderá Gostar de