Ainda nem às dez páginas tinha o conto de Denis Johnson chegado e já Robert Grainier (Joel Edgerton), um madeireiro nascido no séc. XIX, é forçado a retomar o seu isolamento no Oeste americano. A dor que sobre ele cai é inimaginável. Poderosa o suficiente para, sem esforço, engolir alguém vivo.
A adaptação para cinema do que é considerado ser um dos mais notáveis textos da literatura contemporânea, finalista ao prémio Pulitzer para Ficção em 2012 (o único ano, desde 1977, em que não foi atribuído um prémio de ficção), a segunda longa-metragem de Clint Bentley, vai além de responder visualmente, e de forma fiel, ao texto literário de origem. «Sonhos e Comboios» [«Train Dreams»] é superior à morte porque consegue proferir, sem precisar de pronunciar quaisquer palavras, como Grainier consegue agarrar-se à disformidade da vida depois de tão grande perda. O filme assiste, tal testemunha, ao seu levantar-se, numa dança introspectiva e contundente com o que lhe resta: os animais e a natureza, e a vulnerabilidade de viver segundo esse abraço.

Nenhum outro filme este ano tem o peso emocional de «Sonhos e Comboios». Se o seu olhar não se detivesse em paragem, focada em captar Robert e a forma como este contempla o mundo em redor, e escolhesse antes um movimento serpentino, não seria descomedido dizer que o filme poderia ser mais uma obra de Terrence Malick. Afinal debate-se sobre o mesmo que vemos desenrolar-se em «A Árvore da Vida» [«The Tree of Life»]: a vida interna de um homem atormentado com a imutabilidade do passado. Em comparação, «Sonhos e Comboios» poderá até ser o melhor filme, no sentido em que é dado à síntese, composto para evitar exactamente o lado mais inchado e interminável, no sentido de se tornar vago e repetitivo, do projecto mais ambicioso de Malick. Mas não é por isso que «Sonhos e Comboios» é menos grandioso. Eleva-se exactamente através dessa contenção, e aliado toque encantatório.
Talvez por ser uma história narrada com a economia de Hemingway mas com uma electricidade à mistura, concedendo-lhe um toque metálico, como se o próprio formato falasse já da mudança tecnológica que eventualmente se dá neste antigo novo mundo. Talvez por ser sobre a relação que as árvores, enquanto matéria-prima da vida, têm com os humanos que as cortam da sua raiz. Ou talvez por ser mecanismo que existe para fazer a leitura dos fantasmas que Robert cedo sente que o perseguem, «Sonhos e Comboios» marca o compasso do que é sobreviver à própria vida. Na imensidão dos bosques ou no cume de uma montanha invernosa, sentimos o cheiro da fumaça do carvão, o sal das lágrimas de Robert. E pelo caminho, perscrutamos silêncios audíveis. Ecos que falarão da origem das coisas e que, em «Sonhos e Comboios», fazem-no através de Robert.
TÍTULO ORIGINAL: Train Dreams REALIZAÇÃO: Clint Bentley ELENCO: Joel Edgerton, Felicity Jones, Kerry Condon, William H. Macy ORIGEM: Estados Unidos DURAÇÃO: 102 min. ANO: 2025

