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Robert Redford (1936 -2025)

A estrela que inventou o cinema independente. O actor que trocou o seu estatuto de estrela por uma vida inteira dedicada ao cinema.

Robert Redford, o Sundance Kid foi ter com o Butch Cassidy para outras aventuras

Robert Redford partiu durante a noite aos 89 anos, em silêncio, no Utah. Dizem que morreu a dormir, como se até no fim tivesse escolhido a cena mais simples, sem dramatismos, sem discursos. Despediu-se com a mesma sobriedade que lhe conhecíamos no ecrã: presença luminosa, mas sem espalhafato.

Não foi apenas um actor bonito de olhos claros, foi um daqueles raros artistas que atravessam décadas sem perder pertinência e um grande estilo. Foi estrela de Hollywood, realizador de Óscar, activista ambiental antes de o mundo usar a palavra ‘sustentabilidade’ em reuniões de executivos, e fundador do Sundance, a plataforma ou melhor o festival que reinventou o cinema independente americano.

O brilho dos anos 70

O mundo apaixonou-se por ele em «Dois Homens e Um Destino» (1969), ao lado de Paul Newman. O filme tornou-se ícone e Redford também: meio cowboy, meio anti-herói, o charme em estado puro. Vieram depois «As Brancas Montanhas da Morte», «O Nosso Amor de Ontem», «A Golpada», «O Grande Gatsby», «Os Três Dias do Condor», «Os Homens do Presidente» [foto]. Uma década em que parecia carregar Hollywood às costas. Era romance e conspiração, era beleza e política, era o actor que tanto servia para pôr Barbra Streisand a suspirar como para desmontar o escândalo de Watergate com Dustin Hoffman. Era o mito dourado de uma América em crise e era credível, porque, por trás daquele sorriso único, havia consciência política.

A surpresa atrás da câmara

Em 1980, surpreendeu todos ao trocar o protagonismo pela realização. «Gente Vulgar» deu-lhe o Óscar de Melhor Filme e Melhor Realização logo à primeira tentativa. O ‘galã’ tinha-se transformado num autor. Seguiram-se «Duas Vidas e Um Rio», «Quiz Show – A Verdade dos Bastidores» e «O Encantador de Cavalos». Sempre uma América contraditória, frágil, mas filmada com delicadeza e melancolia.

Sundance: a alternativa

E se tivesse parado por aí, já seria lenda. Mas Redford foi mais longe: fundou o Sundance Film Festival, que se tornou a meca do cinema independente. Por lá nasceram «Cães Danados», «O Projecto Blair Witch», «Whiplash – Nos Limites», «Fruitvale Station – A Última Paragem» e «Coda – No Ritmo do Coração». Tarantino, Soderbergh, Kevin Smith, Chloé Zhao, todos passaram por ali antes de se tornarem nomes maiores no cinema. Sundance foi o maior gesto de gratidão de Redford ao cinema: devolver o que recebeu, multiplicado.

O crepúsculo em grande plano

Na velhice, não precisou de se esconder. Preferiu papéis que o expunham ainda mais: «Quando Tudo Está Perdido» (2013), um homem sozinho contra o mar, sem palavras nem truques. E em «O Velho e a Arma» (2018) saiu de cena com estilo, como um gentleman do crime, deixando-nos um último sorriso cúmplice. Até se deixou recrutar pela Marvel para ser vilão em «Capitão América: O Soldado do Inverno», um gesto de humildade ou pura curiosidade por um cinema que já não era o dele.

Recebeu todos os prémios possíveis: Óscar, Leão de Ouro, César, Legião de Honra, Medalha Presidencial da Liberdade. Mas o maior reconhecimento está na sala escura: gerações de cineastas e espectadores que cresceram à sua sombra.

O adeus inevitável

Robert Redford não era imortal, mas para nós parecia. Hoje sabemos que partiu, mas continua conosco: no cowboy rebelde, no jornalista que não largava uma pista, no realizador que acreditava em segundas oportunidades, no homem que apostou numa América mais verde e num cinema mais livre. Mais do que uma estrela, foi um território inteiro. Mais do que actor ou realizador, foi um capítulo essencial da história do cinema.

Robert Redford não fez apenas filmes. Ele foi — literalmente — o Senhor Cinema.

José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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