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O Testamento de Ann Lee

Protestantismo e puritanismo fazem parte do ADN do sentimento religioso americano, herdeiro direto dos movimentos de reforma trazidos pelos primeiros colonos europeus. Estes cultos, não estando presos a uma hierarquia rígida nem a uma exegese institucionalizada dos textos sagrados cristãos, puderam desenvolver-se de forma relativamente livre, alimentados por uma reflexão simultaneamente intelectual e pessoal. Por seu turno, o puritanismo de raiz levou a que grande parte desses movimentos colocasse a questão do sexo no centro da sua visão moral e espiritual. É neste contexto histórico e cultural que se inscreve «O Testamento de Anne Lee», filme que procura revisitar a figura da fundadora do movimento religioso conhecido como Shakers. Anne Lee, que acreditava ser a encarnação feminina de Cristo, tornou-se a personagem central de uma corrente espiritual marcada por uma interpretação muito particular da abstenção sexual, da vida comunitária e da renúncia. O filme tenta captar essa dimensão mística e fundadora, colocando o espectador perante uma narrativa austera e contemplativa, onde grande parte do peso dramático recai sobre Amanda Seyfried, que se entrega ao papel com notável fervor, talento e dedicação.

          Um dos aspetos mais conseguidos da obra, dirigida por Mona Fastvold e escrita em parceria com Brady Corbet, encontra-se na sua linguagem visual. Os planos são cuidadosamente construídos e revelam uma atenção evidente à composição pictórica. Em diversos momentos, os enquadramentos parecem beber diretamente da tradição da pintura inglesa e flamenga do século XVIII. A disposição das figuras, a quietude de certas poses e o modo como a luz recorta os rostos e os interiores evocam retratos e cenas domésticas dessa tradição artística. Essa impressão é reforçada por uma paleta cromática muito particular. Predominam tons castanhos e terrosos que criam uma atmosfera abafada e austera, como se todo o universo visual estivesse envolto numa espécie de opressão claustrofóbica. A cor surge apenas de forma esparsa e calculada, funcionando como pequenos apontamentos que quebram a monotonia cromática. Nas cenas do barco, por exemplo, surgem azuis vivos e dourados que introduzem um contraste subtil mas eficaz, acentuando o momento de esperança associado à travessia para o Novo Mundo.

          Entre os episódios mais curiosos da narrativa encontra-se a cena em que surge o livro anónimo “Thérèse Philosophe”. Conhecida pela mistura de erotismo e reflexão filosófica, a presença dessa obra libertina do século XVIII introduz um elemento inesperado no ambiente austero da comunidade retratada. O livro funciona como contraponto simbólico à disciplina moral e religiosa que domina a vida dos seguidores de Anne Lee. Mais do que um simples objeto narrativo, sugere a existência de uma tradição intelectual alternativa, ligada ao espírito crítico e ao pensamento iluminista, que se cruza momentaneamente com a espiritualidade rigorosa do grupo. Nesse sentido, a referência à obra acrescenta uma camada de leitura interessante, evocando o confronto entre diferentes formas de pensar o corpo, o desejo e a liberdade humana. Para Anne Lee, porém, apenas a liberdade interessava, sendo o corpo e o desejo realidades a expurgar. Segundo o filme, esse repúdio estaria ligado à perda dos filhos, mas também ao que Freud designou por “cena primária” (Urszene). A heroína não consegue processar o ato sexual dos pais que presencia em criança e interpreta-o como uma forma de violência ou como um acontecimento misterioso e perturbador. Num registo clássico de leitura freudiana, esse momento traumático determinaria a sua posterior aversão ao sexo.

          Apesar destes elementos sugestivos, o filme nunca parece clarificar plenamente a sua intenção. A mensagem global da obra permanece algo difusa. Em determinados momentos, a narrativa sugere uma abordagem crítica em relação ao movimento Shaker; noutras ocasiões, parece adoptar um tom quase reverencial perante a figura da líder religiosa parecendo inclinar-se mais para um registo de exortação espiritual, por vezes próximo de um tom catequético, como se o objetivo fosse transmitir uma lição religiosa em vez de construir uma narrativa cinematográfica plenamente envolvente. Essa oscilação acaba por gerar uma certa indefinição temática. Em vez de desenvolver uma reflexão consistente sobre as tensões inerentes às comunidades religiosas utópicas, o filme limita-se muitas vezes a apresentar episódios e imagens que permanecem enigmáticos. O resultado é que o espectador pode sentir dificuldade em perceber qual é, afinal, o verdadeiro propósito da narrativa.

          Em entrevista, a realizadora relata que a ideia surgiu em 2020, quando encontrou por acaso um hino Shaker e decidiu investigar mais profundamente este culto. O que mais a fascinou foi a capacidade da comunidade de transformar o celibato numa forma de êxtase coletivo através da música e da dança. Consequentemente, estas duas dimensões assumem um papel central no filme. Fastvold convidou Daniel Blumberg para compor a banda sonora e Celia Rowlson-Hall para conceber as coreografias. Se a banda sonora de Daniel Blumberg consegue criar ambiências que remetem com eficácia para os hinos Shaker originais, o mesmo não sucede plenamente com o trabalho coreográfico. As coreografias concebidas por Celia Rowlson-Hall revelam-se excessivamente teatrais e demasiado depuradas, denunciando um grau de elaboração e virtuosismo técnico que contrasta com a simplicidade quase espontânea que se associa às danças da tradição Shaker. Essa estilização acaba por destoar da crueza e do rigor histórico presentes nas restantes cenas. Em vez de surgirem como prolongamentos naturais da experiência espiritual da comunidade, estes momentos musicais tendem a destacar-se como episódios autónomos, produzindo um certo efeito de distanciamento no espectador. Assim, mais do que momentos de elevação mística, acabam por funcionar como interrupções formais na narrativa, e o êxtase sensual que a realizadora pretendia sugerir raramente se torna plenamente perceptível.

          Em última análise, «O Testamento de Anne Lee» permanece uma obra formalmente cuidada e intelectualmente sugestiva, mas dramaticamente irregular. A solidez da proposta estética e o empenho da interpretação central contrastam com uma narrativa que hesita entre o retrato histórico, a meditação espiritual e a alegoria psicológica. Essa indecisão impede o filme de desenvolver plenamente as questões que convoca: o conflito entre corpo e espírito, entre desejo e redenção, entre liberdade individual e disciplina comunitária. O resultado é um objeto cinematográfico visualmente fascinante, mas que deixa a sensação de ter ficado aquém do potencial dramático e filosófico da figura extraordinária que procura retratar. Louvemos  porém a ousadia da realizadora de, num tempo de consumo rápido e fácil, nos ter oferecido um filme exigente que obriga à reflexão.

Título Original: The Testament of Ann Lee
Realização: Mona Fastvold  
Elenco: Amanda Seyfried, Lewis Pullman, Thomasin McKenzie, Tim Blake Nelson 
ORIGEM: Reino Unido/ Estados Unidos
DURAÇÃO: 137 min.
ANO: 2025

´O TESTAMENTO DE ANN LEE´ CHEGA AO DISNEY+ A 20 DE MAIO

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