A recente vitória da Letónia nos Óscares com «Flow», experimento sem palavras egresso de Un Certain Regard de Cannes, mostra o quanto a indústria audiovisual de âmbito global anseia por iguarias animadas que não sejam reféns dos códigos da Disney/Pixar. Indícios desse anseio se fizeram notar com a Palma de Ouro Honorária dada ao Estúdio Ghibli, do Japão, em 2024. No afã por uma experiência imersiva globalizada nos códigos da animação, a América Latina tem a chance de assegurar holofotes para si, via Brasil, com a obra de Alê Abreu e o seu «O Segredo dos Perlimps». A longa-metragem chega agora a Portugal depois de uma bem-sucedida carreira em França.
Aliás, foi da pátria de François Truffaut que nasceu «Gru – O Maldisposto» (2010 -2024), uma franquia responsável por dar à história dos filmes animados um presente, ou melhor, vários: os seres amarelinhos que agem de maneira atrapalhada, funcionando como inteligência coletiva, em adoração a um ser de más intenções – os Minions. A popularidade deles foi tanta que essas figuras se tornaram metáforas para o gado que pasta na mediocridade de projetos populistas, num acirramento de fronteiras políticas. Os minions do mundo real, de um Brasil real, com letra minúscula, não são engraçados como os da produção do estúdio Illumination, apoiaram uma marca genocida (talvez por não entender o que a palavra “genocida” significa) e separaram o Brasil na polarização mais violenta que já se viveu. É dessa violência, e da tentativa de freá-la de vez, que nasceu o arrebatador «Perlimps». É um filme que espelha o pesadelo Jair Bolsonaro, vigente de 2018 a 2022.
A sua narrativa hipnótica atravessa gerações na plateia: funciona como aventura para crianças de dentes de leite e serve para bocas desdentadas como alegoria de uma caverna assombrosa, onde o povo brasileiro ficou aprisionado desde o Golpe de 2016. Os dois lados – quem é jovem ainda e amanhã será velho; e quem já se sente em tempo de maturidade – tem o que aprender com o novo filme de Abreu. Ele ganhou notoriedade com «O Menino e o Mundo» (2013), nomeado ao Óscar de Melhor Longa de Animação.

Os diálogos da sua nova fita – tipo “No Vale Encantado, um pingo de segundo vale por uma tonelada de séculos” – são mel para a colmeia dos nossos tímpanos. A sua direção de arte é um primor, numa calorosa utilização de cores. O seu existencialismo é dos mais agudos, representado, sobretudo, na figura do João-de-Barro, ave que fala com a sabedoria de Stênio Garcia, um titã da teledramaturgia. Exibido pela primeira vez no Festival de Annecy, na França, a lúdica película de Alê abre a sua narrativa com um fluxo de luzes, apoiado na engenharia sonora do coletivo o Grivo e na música de André Hosoi. A partir dessa sinestesia, somos apresentados aos protagonistas, Claé e Bruó, duas crianças com feições de bichos – encarnadas nas vozes de Giulia Benite, a personagem Mônica de «Turma da Mônica: Laços» e «Turma da Mônica: Lições», e de Lorenzo Tarantelli. Um deles é um Lobo do Sol e o outro é um Urso da Lua. São de “facções” opostas, mas têm a mesma missão: achar os Perlipms, um tipo de plâncton de luz capaz de deter os Gigantes, forças opressoras que controlam o mundo.
Na sua jornada, eles encontram um abrigo no abraço do João-de-Barro, que outrora foi um dos Gigantes, mas optou por se humanizar. O seu bico pia alumbramentos. Maravilhados, Lobo e Urso aprendem: “Os Gigantes precisam da guerra pois só assim eles ficam mais gigantes”. Se nós aprendermos com eles – como eles -, os “minions” – os seguidores – ficam lá no canto deles, e não voltam, em especial neste momento de avanço lupino da extrema direita sobre o Velho Mundo.
Título original: Perlimps Realização: Alê Abreu Vozes: Lorenzo Tarantelli, Giulia Benite, Stênio Garcia Duração: 80 min. Brasil, 2022
Casa do Cinema de Coimbra revela «O Segredo dos Perlimps» em Matiné Infantil
A próxima matiné infantil da Casa do Cinema de Coimbra exibe O Segredo dos Perlimps, no domingo, 20 de abril, às 14h30.

