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O INTERMINÁVEL

“Nunca voltes ao lugar onde já foste feliz.” Por maioria de razão, deveria aplicar-se a mesma regra aos lugares onde já foste infeliz. Em «O Interminável», contudo, Justin (Justin Benson) e Aaron (Aaron Moorhead) ignoram este e outros bons conselhos quando decidem regressar ao acampamento de uma estranha seita alienígena de onde fugiram em crianças. Os dois irmãos guardam recordações muito diferentes deste local. Enquanto que Justin encara as dificuldades do dia-a-dia como o preço justo a pagar pela liberdade conquistada, Aaron, alguns anos mais novo, alimenta a nostalgia de um passado dourado onde gozava do conforto e protecção que a pertença a essa comunidade fechada lhe oferecia.

A chegada de uma misteriosa cassete de vídeo contendo uma mensagem cândida e convidativa por parte de um dos membros da antiga seita, vai acicatar a curiosidade de Aaron que acaba por convencer o irmão a acompanhá-lo numa visita ao acampamento. Depois de uma recepção calorosa, que parece contrariar o relato de Justin sobre abusos, castração e um inevitável suicídio em massa, fenómenos cada vez mais bizarros vão obrigá-los a eles e a nós a complexos exercícios de ginástica mental. Caminhos que se desdobram e expandem em realidades paralelas, indivíduos estranhos presos no tempo e a crescente sensação de que algo maior está ao volante desta história fazem-nos refletir sobre o papel e a força da vontade própria.

Entre a ambição de criar um filme de ficção científica com grandes efeitos especiais e os condicionalismos próprios de um projecto independente, Justin Benson e Aaron Moorhead esforçaram-se por imprimir no filme uma mensagem muito clara (quiçá demasiado clara) sobre o valor da autonomia e a necessidade de aprender a respeitar as escolhas individuais de cada um. Esta dupla, que já nos deu «Resolução Macabra» (2012) e «Spring» (2014), não se ficou pelo papel de protagonistas, eles são responsáveis pela realização, argumento, montagem e direcção de fotografia. O resultado acusa essa falta de distanciamento, especialmente no retrato do drama emocional dos dois irmãos, que, sem dúvida, teria ganho com uma interpretação mais subtil. Porém, diga-se o que se disser, «O Interminável» é, orgulhosamente, a two-men show.

Título Original: The Endless Realização: Justin Benson, Aaron Moorhead Elenco: Justin Benson, Aaron Moorhead, Callie Hernandez. Duração: 111 min. EUA, 2017

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Catarina Maia
Catarina Maia
Catarina Maia é crítica de cinema, editora de conteúdos e investigadora independente. Escreve regularmente para a revista METROPOLIS desde 2013, entre críticas, entrevistas e ensaios sobre cinema contemporâneo, cultura visual e cinema de autor. Licenciada em Estudos Artísticos e pós-graduada em Estudos Fílmicos e da Imagem pela Universidade de Coimbra, cruza frequentemente o pensamento cinematográfico com questões sociais, éticas, ecológicas e urbanas. Paralelamente, desenvolve trabalho na área da comunicação cultural e coordena o projeto cívico de cariz ambiental Jardim Monte Formoso, ligado à biodiversidade e ao espaço público. Interessa-se particularmente pelas relações entre cinema, ética, memória e justiça social. A frase “Não gastes tudo em freiras”, do filme As Bodas de Deus (1998), de João César Monteiro, permanece como mote pessoal, entre a ironia, a ternura e a desobediência.

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