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O Anjo da Sorte

Um anjo da guarda (Keanu Reeves), bem-intencionado mas de baixo orçamento — leia-se, asas pequenas — decide subir na carreira celestial. Cansado de limitar-se a evitar distrações ao volante, escolhe uma missão maior: mudar a vida de uma “alma perdida”. O alvo? Um trabalhador indiano azarado (Aziz Ansari) e um milionário empreendedor simpático, mas um tanto arrogante (Seth Rogen).

O plano, claro, corre mal. Muito mal. O anjo troca os corpos dos dois e, ao falhar, é despedido — condenado a viver como um simples humano e mortal.

É este o ponto de partida de «O Anjo da Sorte», filme escrito, realizado e protagonizado por Aziz Ansari, na sua estreia numa longa de ficção. Uma comédia que é tudo menos leve: um olhar afiado sobre a precariedade, o “fim do sonho americano” e a desigualdade que separa os que trabalham uma vida sem nunca chegar a lado nenhum e os que enriquecem a cada segundo, à custa da miséria e do esforço dos outros.

Entre risos e absurdos, Ansari desmonta o modelo social em que vivemos. Mostra-nos os que sobrevivem a fazer três trabalhos por dia, avaliados por estrelas e algoritmos, e os que, do topo, acumulam riqueza à custa de quem já não tem tempo para ir ao WC ou sequer para respirar. Uma realidade em que ter dinheiro vale mais do que ter valores, e em que a vida sem ele se tornou tão miserável que até as existências solitárias dos milionários parecem preferíveis.

Sem moralismos ou condescendências, Ansari brinca com estereótipos e preconceitos, expondo um sistema onde até um anjo sofre de síndrome do impostor. O resultado é uma sátira lúcida, com interpretações sóbrias — Reeves, Rogen e o próprio Ansari encontram o equilíbrio entre o cómico e o humano — e uma banda sonora surpreendentemente cuidada e coesa, que reforça o tom agridoce do filme.

«O Anjo da Sorte» é mais do que uma comédia celestial. É um retrato do nosso tempo — das desigualdades, da exaustão e da ilusão de que trabalhar mais é o mesmo que viver melhor. E é também um lembrete de que, no meio do caos, talvez o milagre esteja nas pequenas coisas: partilhar uma gargalhada, dançar sem motivo, comer um taco à beira da estrada ou fazer festas a um cão. No final, Ansari deixa-nos com uma pergunta simples, mas urgente: se até um anjo pode falhar, o que nos resta senão tentar outra vez? A resposta estará sempre no poder da escolha e isso, por agora, talvez nos chegue.

Titulo original: Good Fortune Realização: Aziz Ansari Elenco Keanu Reeves, Seth Rogen, Aziz Ansari, Keke Palmer Duração: 97m EUA, 2025

Sara Afonso
Sara Afonso
Entrou para o jornalismo há mais de 20 anos, ainda antes de terminar o curso de Comunicação e Jornalismo. Estagiou no jornal O Jogo, na área de cultura e cinema e, no final do curso, entrou no jornalismo especializado de Tecnologia, nas revistas Connect, Casa Digital e T3. Em 2011, aceitou a direção do seu projeto de sonho: a revista de cinema Empire, o bilhete dourado para conhecer e entrevistar estrelas do cinema e da TV, para comentar eventos de cinema e para ser júri em festivais de cinema nacionais. Por fim, assumiu a coordenação de vários projetos de imprensa, em áreas como surf, fitness, gastronomia, vida selvagem, mindfulness e criatividade, alimentação saudável, entre outros, sempre mantendo a colaboração na área do cinema, com a revista digital METROPOLIS. Já escreveu livros, criou perguntas para um famoso programa de televisão e contribuiu com a sua escrita para um projeto deslumbrante sobre o Oceano, (Oceans and Flow). Recentemente, voltou ao mundo das revistas, mas, como alguém disse um dia: “A partir do momento em que participam na descoberta mágica do cinema, este torna-se o vosso amor para sempre.

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