Lá se vão seis anos desde que Brian Russell De Palma lançou (ainda que num circuito dos mais acidentados) a sua última longa-metragem, « Domino – A Hora da Vingança» [«Domino»] (2019). Tentou de muitas formas voltar a filmar desde então, incluindo um thriller potencialmente reservado para o ator baiano Wagner Moura, chamado «Sweet Vengeance». Apesar do voto (silencioso) que a indústria audiovisual lhe impôs, a sua obra segue sob culto, a se destacar a projeção de um dos seus maiores êxitos estéticos, «Blow Out – Explosão» (1981), no circuito Estação, no Rio de Janeiro, na noite desta segunda. A projeção da película no Brasil, chamada «Um Tiro Na Noite» por lá, faz parte do projeto “Classiquíssimos” do Cine Estação NET Botafogo. A exibição será às 21h (meia-noite em Lisboa).

Na trama, o sonoplasta Jack Terry (John Travolta) grava acidentalmente a evidência que prova que um acidente de carro foi na verdade um assassinato, e consequentemente se põe em perigo. Os cortes ligeiros na edição de Paul Hisch, numa montagem supervisionada por De Palma, dão o tom de uma estética autoralíssima marcada por acrobacias da câmara… e pelo medo.

Estima-se que o 78° Festival de Cannes, agendado de 13 a 24 de maio, há de prestar um tributo ao realizador de 84 anos em sua seção Classics ou no Cinéma a la Plage. A Croisette abriu as telas para ele em 2024, ao comemorar os 50 anos de um marco do musical: «O Fantasma do Paraíso» [«Phantom of the Paradise», 1974]. Na trama, baseada em “Fausto”, de Goethe, um musico se torna um monstro assassino ao ter a sua alma corrompida por um empresário diabólico. A sua originalidade e a sua transgressão fazem-se notar já na sequência de abertura, quando um duplo de Paul Anka canta “Goodbye, Eddie”, nos acordes da banda Juicy Fruits.

Nancy Allen



Citado como referência por Quentin Tarantino e aclamado por cineastas pop europeus como Nicolas Winding Refn e François Ozon, De Palma completa um lustro de invisibilidade aos olhos da indústria audiovisual. Nenhum dos projetos de longas metragens que estavam associados ao seu nome saíram do papel. Para piorar, «Domino» mal arranjou vitrine no streaming. Estrelado pelo ótimo Nikolaj Coster-Waldau, no papel de um policia em busca de vingança, o thriller ainda aguarda estreia em vários territórios, confirmando uma maldição que se abateu sobre o seu realizador. Nos EUA, ele foi fustigado, prejudicado por uma série de problemas de produção. Nos bastidores, fala-se em calote, que nem De Palma nem os atores foram remunerados como deveriam. O seu fracasso acabou prejudicando projetos posteriores do midas do suspense da Nova Hollywood, como «Catch and Kill», escrito para seu amigo Al Pacino, e «Predator», sobre o escândalo Harvey Weistein.

Responsável por garantir ao cineasta uma indicação ao Leão de Ouro, em 2012, o suspense «Paixão» [«Passion»], com Noomi Rapace e Rachel McAdams, permanece também sem lugar no Brasil. Nem plataformas como a MUBI conseguiram trazê-lo.

Ao rever seu legado, em revisão recente da sua filmografia, De Palma declarou: “Hitchcock é o maior mestre da arte contar histórias a partir de imagens e se eu uso alguma referência da sua gramática esses elementos dão complexidade ao que eu conto. Mas acho que hoje, após quase seis décadas como diretor, eu já tenho os meus próprios métodos configurando um estilo”.

John Lithgow

De Palma rodou «Blow Out – Explosão» em locais de Filadélfia, ao custo de US$ 18 milhões. Queria Al Pacino para o papel central, mas acabou por escolher Travolta. Rodou cerca de 70% do filme à noite, com direção de fotografia de Vilmos Zsigmond. Nancy Allen assumiu papel de destaque no elenco (e na vida afetiva do Sr. De Palma).

A sua bilheteira foi mirrada (cerca de US$ 14 milhões), mas a produção sagrou-se como um filme de culto. Mas o que dizer dos demais clássicos realizados por De Palma? Exibido no Festival de Rio de 2008, «Censurado» («Redacted»), um libelo contra a intervenção militar de Bush no Iraque, batizado no Brasil de «Guerra Sem Cortes», teve melhor sorte e foi para a grade da Filmin.Pt e para o www.mubi.com. A sua longa deu a De Palma o prémio de Melhor Realização em Veneza, em Itália. «Dália Negra», o seu último sucesso popular, lançado em 2006, também desapareceu das telas, mas hoje pode ser acessado na Amazon Prime. O que teria expelido um cineasta desse naipe do circuito? Cineasta com seis décadas de carreira.

Nascido em 11 de setembro de 1940, em Newark, Nova Jersey, De Palma estudou Física até se estrear como realizador, em 1960, ao rodar a curta-metragem «Icarus». Filho de um cirurgião, a quem acompanhou em muitas operações, De Palma rodou 35 filmes nas últimas cinco décadas. Dirigiu sete curtas entre 1960 e 1966, além de um videoclipe para Bruce Springsteen, desenvolvido a partir da canção “Dancing In The Dark”.

Rodagem de «Blow Out»

Na seara das longas-metragens, contabiliza 31 produções, rodadas entre 1968 – quando debutou no formato, com «Murder a la Mod» – e 2019 – quando «Domino» entrou em cartaz, ficando em evidência apenas em Israel e na Hungria. Avaliando-se tudo de bom que o diretor assinou, «Testemunha de Um Crime» [«Body Double»] (1984), «Scarface» (1983) e «Carrie» (1976) são considerados obras-primas da sua carreira, cujos maiores êxitos comerciais foram projetos de “encomenda”. Os seus blockbusters: «Os Intocáveis» [«The Untouchables»] (1987), cujo faturação aproximou-se dos US$ 76,2 milhões, e «Missão: Impossível» [«Mission: Impossible»] (1996), que registrou uma arrecadação mundial de US$ 456,7 milhões.

Controverso por excelência, classificado como misógino e voyeurista, De Palma foi, durante décadas, classificado como um pastiche de Alfred Hitchcock, até que uma retrospectiva realizada em 2002 no Centre Pompidou recontextualizou a sua filmografia, buscando uma identidade autoral própria para além de suas referências.

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