“Eu não consegui fugir desta história. Ela perseguiu-me.” Há filmes que nascem de uma ideia. Outros nascem de uma dor profunda ou de uma alegria imensa. «Maria Vitória» nasceu de uma urgência de expressão, de colocar para fora o que o realizador viu, sentiu e recebeu.
Para Mário Patrocínio, a sua primeira longa-metragem de ficção, que agora se estreia em Portugal, começa muito antes da rodagem, antes dos castings e antes dos apoios. «Maria Vitória» nasce em 2018. “Para mim, inicia-se verdadeiramente em 2018, com a morte da minha mãe (que se chamava Maria Vitória).” É nesse momento que surge a necessidade de contar esta história. Não como exercício criativo, mas como um gesto inevitável que o realizador sentiu que tinha de levar a cabo.
“Fui criado por mulheres — pelas minhas avós, pela minha mãe — e senti que precisava que essa voz saísse de mim.” O filme constrói-se, assim, a partir dessa ausência, mas também dessa presença invisível. Uma presença que atravessa a narrativa como um sopro… Mesmo quando não se vê, ouve-se. É algo que trespassa a montanha. Está sempre lá. É a presença da mãe, das avós, da ancestralidade.
A história tem lugar numa aldeia da Beira Interior, no coração da Serra da Estrela. E isso não é por acaso. Não é uma questão de raízes, pois Mário Patrocínio nasceu em Lisboa, mas desde pequeno que correu o mundo, tendo chegado primeiro ao Japão – onde frequentou a escola durante dois anos – passando mais tarde pelo Rio de Janeiro, Angola, assim como Paris, Berlim e Los Angeles, para depois regressar a Lisboa.
Mas voltemos a «Maria Vitória». Não é acidental que a história se fixe na Serra da Estrela. A paisagem não é apenas cenário: é uma força dramática. “É um lugar frio, cuja natureza tem uma força muito grande. O fogo e a água — elementos que podem criar vida ou criar morte”, partilha. E ali, como em qualquer aldeia remota do interior do país, o Inverno pesa. O silêncio pesa. A ausência pesa. E é nessa ausência que o realizador encontra um dos eixos do filme.
“Sentimos que muita gente partiu e continua a partir, sobretudo das zonas que não são centros urbanos. Só fica quem tem uma razão muito forte para ficar.” Para o cineasta, a observação não nasceu da distância académica, mas da presença física. Mário Patrocínio foi e voltou à zona do filme durante anos. Viu a Serra no verão — cheia, vibrante, com emigrantes, calor e mergulhos — e viu-a esvaziar-se no inverno. “No verão, há felicidade. Depois, fica tudo vazio. A ausência sente-se”, recorda.
Essa ideia de ausência, de luto colectivo, atravessa, aliás, toda a estrutura emocional do filme. “Quando alguém muito próximo falece não é só a família que sente a perda. É muita gente à volta. Porque, na verdade, todos somos uma pequena aldeia”, reflete.
Por Sara Afonso / Fotos exclusivas de Mário Patrocínio

A história que não o deixou fugir
O processo de escrita foi longo — seis anos de maturação, idas e regressos, interrupções para respirar. “Há momentos em que não se consegue fugir a uma história. Eu posso tentar, mas sou perseguido por ela.” Não foi, por isso, uma escolha racional. Foi insistência. “Mesmo que eu quisesse fugir, a história não fugia de mim. Estava ali, a empurrar para ser contada.”
Mário Patrocínio admite ser uma pessoa atenta e alguém que gosta de estar realmente presente, e por isso existe uma dimensão profundamente intuitiva no seu método de trabalho e na forma como olha para os seus filmes – documentários ou ficção. “Há uma parte intelectual, claro. Mas há uma parte muito sensorial. Há cenas que surgem com uma precisão brutal, que eu não sei de onde vêm”, admite. Não lhe chama purga. Prefere falar em ‘deixar passar algo’. “É deixares passar por ti coisas que vão surgindo e por vezes são aprimoradas depois, mas muitas saem no filme exactamente como me surgiram”, avança.
O argumento de «Maria Vitória» foi desenvolvido no âmbito do Script Circle – Solace 23,uma oficina interdisciplinar orientada por Frank Rodenkirchen e Françoise vonRoy, após a seleção de Mário Patrocínio como Berlinale Talent, em 2017. Mas durante o período de concretização deste projeto, o realizador trabalhou intensamente com o diretor de fotografia, Pedro J. Márquez. A certa altura, impaciente, Mário Patrocínio dizia que precisava de filmar. A resposta do diretor de fotografia ficou-lhe gravada: “O que estás a fazer, o que estás a escrever já é cinema.” E é nesse entendimento que se percebe a forma como o filme foi construído: já pensado visualmente muito antes de existir enquanto objeto físico.
Questionado sobre como poderia definir este filme, a dificuldade de classificação iniciou-se muito antes, quando começaram a mostrá-lo. “Tentámos definir o género, ou onde se encaixaria dentro do cinema português, e quase ninguém conseguiu encaixá-lo em lado nenhum.” Para o realizador, isso foi um bom sinal. “Foi uma surpresa agradável. Disseram-me que havia ali algo fresco.”

Casting como processo de descoberta
Com nomes no elenco que dispensam apresentações – como Miguel Borges, Miguel Nunes ou Adriano Carvalho –, o processo de casting foi fluído e sem papéis pré-definidos. Dois anos antes de filmar, Mário Patrocínio fez um primeiro casting apenas para conhecer atores e perceber perfis. Não tinha ainda as condições para avançar, mas precisava de sentir. Foi aí que conheceu a atriz protagonista: Mariana Cardoso.
No caso dos outros papéis, os castings foram feitos mais perto das filmagens. Com um método muito próprio: improvisação antes de texto, para poder sentir a forma como os atores respondem ao desafio que surge no momento. “No início não dou texto a ninguém. Dou o setup: passa-se isto, tu és isto, queres isto. E vemos”, revela.
Foi assim com Miguel Nunes. “Na improvisação mostrou algo determinante: uma super inteligência na forma como lidou com a violência verbal. Não reagiu com igual agressividade. Trouxe sagacidade, e até humor. Adorei isso.”
O momento mais intenso do filme surge, precisamente, no confronto final entre os dois “Miguéis”. Um diálogo construído também através de estratégia narrativa. “Houve coisas que só um sabia e o outro não.” Informação guardada propositadamente para provocar uma reação genuína. “Estamos a falar de takes únicos. Não existem ali cortes.” O resultado, admite, foi emocionante: “Ver o resultado daquilo que eu tinha escrito. E sentir um alto grau de humanidade em situações muito duras foi incrível”.
Aliás, ensaiar, para o realizador, não é só repetir falas. É uma oportunidade de construção. “Durante os ensaios alterei muitas cenas e criei outras novas. Os atores tiveram, muitas vezes, um contributo direto no guião”, conta.
A construção visual
A direção de fotografia de Pedro J. Márquez é frequentemente destacada pelo realizador, mas sublinha que o trabalho acaba sempre por ser um ato coletivo. A direção de arte, com o contributo de Katie Byron e Paula Szabo, partiu de um trabalho de observação muito concreto — das casas visitadas aos objetos encontrados na região — para construir um universo visual credível. “Todos os elementos que se veem naquela casa, nós vimos em muitas casas da região.”
Houve também uma preocupação clara em contrariar uma ideia romantizada e estática da aldeia. “Às vezes há uma imagem errada de que não existe contemporaneidade na aldeia. É um erro.” O guarda-roupa, os objetos, os detalhes, tudo foi pensado para refletir essa realidade híbrida, na qual os jovens estão igualmente actualizados e familiarizados com as novas tecnologias, pensamentos ou ações mais comumente atribuídos aos centros urbanos.
Sobre esta reprodução da realidade, que nos leva a perceber que alguém efectivamente observou o que se passa nestas terras em diferentes fases do ano, Mário Patrocínio admite que muito vem da sua própria personalidade e até de outros trabalhos que já fez, como os documentários «Complexo – Universo Paralelo» ou «I Love Kuduro»: “Sou capaz de ficar sentado num café apenas a ouvir. Às vezes as pessoas conversam e contam-me histórias que não contariam se calhar a ninguém daquele lugar.” A observação vem do documentário, mas também da fotografia. “A fotografia para mim é uma forma de escutar. Fico ali, converso, crio confiança, e só depois tiro a foto.”

Finalmente em casa
Com produção e Ana Pinhão Moura, «Maria Vitória» chega aos cinemas no dia 5 de março, numa sessão especial no cinema Nimas, em Lisboa. A premissa parte da vida de uma jovem, Maria Vitória (Mariana Cardoso), que vive numa aldeia remota nas montanhas portuguesas e joga futebol na equipa juvenil masculina local. Determinada a tornar-se profissional, dedica o seu tempo livre a treinos intensos com o pai, Nacho (Miguel Borges), que não a deixa “sair da linha”. A rotina de ambos é fortemente abalada pelo regresso inesperado de Bruno (Miguel Nunes), o irmão mais velho, que vem abrir novamente as feridas da perda mãe. Enquanto se prepara para o jogo mais importante da sua vida, Maria começa a questionar a autoridade do pai e, aos poucos, procura uma forma de se libertar, de compreender os seus verdadeiros desejos e tomar as rédeas do seu futuro.
«Maria Vitória» explora o abandono, o luto, a intuição feminina e o renascimento, e oferece ao espectador a possibilidade de ver para além disso. Quanto a Mário Patrocínio, agora segue-se uma grande viagem de promoção e estreia nacional do filme – depois de ter estreado no Festival de Cinema de Tóquio. E se durante anos acumulou funções, produziu projetos, ajudou outros a concretizar sonhos, a longa de ficção era o lugar onde sempre quis estar. “Estou muito feliz. Sempre foi isto que eu quis fazer.” E acrescenta: “Escrever e filmar é onde me sinto mesmo em casa.”
O próximo projeto — «As Mulheres do Meu Pai», uma adaptação do livro de José Eduardo Agualusa, um road movie com a atriz brasileira Thaís Araújo — está escrito, desenvolvido, com financiamento internacional assegurado, faltando o apoio de Portugal, que ainda não foi possível, mesmo tendo passado 10 anos desde o início do mesmo. Ainda assim, Mário Patrocínio mantém-se fiel ao princípio que guiou este filme, desde o seu luto pessoal até à estreia: “Eu só posso fazer a minha parte. Dar alma e sangue, e muito trabalho.”
Às vezes, isso é suficiente para que uma história — aquela que não nos deixa fugir — encontre finalmente o seu lugar.

