No título original, «La Nouvelle Femme», está o segredo: mais do que fazer um filme biográfico tout court sobre Maria Montessori (1870-1952), a médica e pedagoga italiana que criou uma abordagem educativa revolucionária, Léa Todorov procurou, na sua primeira longa-metragem de ficção, um olhar efetivo sobre a mulher, ou antes, as mulheres que souberam abrir caminho a outras. Dividindo-se entre a figura titular (perfeita Jasmine Trinca) e uma cortesã francesa, Lili d’Alengy (Leïla Bekhti), o drama ambientado em 1900 usa-se então da segunda personagem, fictícia, para dar um contraponto essencial ao modelo feminino de Montessori. Como assim? Se a educadora trabalhou os termos da sua liberdade de um ponto de vista académico (com alguns reflexos nas escolhas da vida íntima), Lili surge neste contexto como a coquette que se “empoderou” pelas vias da alta sociedade.

Para além disso, o filme sinaliza o tópico maternal que as une, pela semelhança: enquanto Maria, mãe solteira, é alguém que viverá longe do filho para poder exercer a profissão sem entraves sociais, Lili – que abandonara a sua criança ainda bebé, por perceber que nascera com “defeito”, e também por não querer impedimentos à vida boémia – terá de rever esse papel de mãe quando a menina é deixada, por fim, à sua responsabilidade. As duas conhecem-se no momento em que Lili, indo de Paris a Roma para se desembaraçar dos cuidados da pequena Tina (Rafaëlle Sonneville-Caby), tenta interná-la no instituto onde Montessori está a experimentar um novo método de aprendizagem com crianças neuroatípicas. A partir daí, os laços entre as três desenvolvem-se com a devida hesitação e complexidade.

Se é certo que «Maria Montessori» (título português) acabará por ser a história da emancipação desta mulher, ou do modo como se afirmou perante uma comunidade académica dominada pelos homens, também é verdade que as sequências mais fascinantes e comoventes do filme são aquelas que contemplam os meninos e meninas no instituto, durante as práticas de ensino. E aqui destaca-se, em particular, uma sucessão de retratos individuais, em que essas crianças (neuroatípicas na vida real) reagem às notas articuladas por Lili ao piano…

Digamos que filmar a deficiência com esta dignidade e delicadeza não é assim tão comum – eis a marca maior da realização de Léa Todorov (já agora, filha do filósofo Tzvetan Todorov e da romancista Nancy Huston). Uma realização que não tem nada de revolucionário, ao contrário do método evocado/representado, mas que sabe conquistar a sua liberdade de movimentos entre o filme biográfico, o drama de época e a arte experimental da pedagogia.

TÍTULO ORIGINAL: La Nouvelle Femme REALIZAÇÃO: Léa Todorov ELENCO: Jasmine Trinca, Leïla Bekhti, Rafaëlle Sonneville-Caby ORIGEM: França, Itália DURAÇÃO: 100 min. ANO: 2023

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