Neste mês de Maio de 2025, o circuito comercial em sala está, e seguramente continuará a estar durante algumas semanas, vincado por uma sucessão de muito interessantes estreias, sobretudo na área dos documentários de autor, onde se destaca «Tardes de Solidão» («Tardes de Soledad»), 2024, do catalão Albert Serra (Concha de Ouro no Festival de San Sebastian de 2024), retrato sem filtros da fiesta e dos seus protagonistas numa relação plena entre homem/animal, sangue/arena, vida/morte que, sem sombra de dúvida, merece os maiores elogios. Dada a crueza, incluindo a pura e dura violência da sua abordagem, estou muito curioso em perceber qual será a reacção que a sua exibição no grande e posteriormente no pequeno ecrã irá suscitar na susceptibilidade de alguns espectadores ditos mais sensíveis. De igual modo, podemos e devemos voltar a sublinhar a presença em sala de um grande documentário, «Becoming Led Zepppelin» («Led Zeppelin – O Nascimento da Lenda»), 2025, de Bernard MacMahon, que não se destina apenas aos fãs da emblemática banda, antes pelo contrário. E neste quadro de novidades não se ignore uma obra de ficção que usa com alguma eficácia e igual capacidade de denúncia materiais de arquivo que nos mostram sem filtros os actos de barbárie do regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial, «Fuhrer und Verfuhrer» («Hitler e Goebbels»), 2024, de Joachim A. Lang. Entretanto, como se já não fosse muita a oferta, assinalemos a estreia, que se irá repartir por várias sessões, do documentário «Juventude» («Qingchun»), retrato da República Popular da China e dos jovens que nela ganham a vida e fazem mover a sua economia. A realização é de Wang Bing que o estruturou em capítulos, a saber, «Primavera», 2023, «Tempos Difíceis», 2024, e «Regresso a Casa», 2024.
Feita esta introdução, poderão perguntar qual a sua razão de ser no corpo de uma crítica sobre uma obra que procura na ficção a sua principal vertente, digamos, programática. De facto, a presente crítica refere-se aqui e agora ao filme «Feng Yu Li Dai» («Marés Vivas»), 2024, de Jia Zhang-Ke. Mas há um factor importante a reter nesta abordagem ficcional de uma realidade histórica chinesa e das idiossincrasias individuais de um casal, Qiao (interpretada por uma actriz recorrente na obra do realizador, a sua mulher Zhao Tao) e Bin (Li Zhubin, outro dos seus actores favoritos). São as histórias com H grande e pequeno que se espraiam por duas décadas do novo milénio arrancadas ao quotidiano do povo chinês e a imagens documentais que reflectem o ambiente político, cultural e social do país protagonista, cruzadas com afloramentos de filmes anteriores do autor. Recordemos da sua já vasta obra um notável conjunto de filmes como, por exemplo, «Jiang Hu Er Nu» («As Cinzas Brancas Mais Puras»), 2018, «Tian Zhu Ding» («China – Um Toque de Pecado»), 2015, e «San Xia Hao Ren» («Still Life – Natureza Morta»), 2006 (Leão de Ouro do Festival de Veneza).

Jia Zhang-Ke soube sempre equilibrar de forma dialéctica o pessoal e o colectivo, criticando o que havia para criticar, sem papas na língua e munido de uma arma poderosa, o humor, que aqui mais uma vez usa, explora e confirma por interpostas pessoas/personagens, chegando ao ponto de, numa citação algo mecânica, dar voz e um pouco de alma a um robot que assim aponta o caminho da felicidade perante o indeciso e infeliz rosto da não muito jovem Qiao. De facto, esse humor surdo, por vezes subliminarmente mordaz, vem ao de cima, mesmo quando as circunstâncias parecem ser as mais adversas, para dar lugar ao mínimo dos mínimos sorrisos. No episódio descrito, este encontro entre dois seres diametralmente opostos acontece no ambiente asséptico de um moderno supermercado e em plena pandemia da Covid-19. Uma conjuntura que contrasta com a agreste e cinzenta paisagem urbana de outras eras que víramos nas sequências iniciais. Bem vistas as coisas, lá bem no fundo não muito distante do que foram no passado os alicerces dos ciclos materiais, e até alguns espirituais, que acabaram nos anos mais próximos, para o melhor e o pior, encerrados e enterrados para sempre. Para sempre? Nunca se sabe! Sequências como esta, aliadas a uma permanente reflexão sobre o poder das imagens no contexto em que elas são/foram obtidas e onde se pressente a sinceridade existencial do proletariado rural e, sobretudo, urbano das zonas industriais, assim como a realidade reconstituída dos actos e feitos de uma classe média onde negócios nem sempre luminosos encaixam nas contradições da palavra de ordem “Um País, Dois Sistemas”, fazem de «Marés Vivas» um repositório exemplar do exercício fílmico que procura na verdade que está diante dos olhos do cineasta a força documental do ser e estar de grupos específicos que povoam a sociedade chinesa, sendo esta a componente de documentário que se funde com a componente de ficção a que por fim surge mais apelativa e criativa, porque manipulada até ao pormenor. Esta aliança não produz necessariamente uma prova documental destinada a apoiar uma ideia mestra dos produtores e do realizador, mas não deixa de ser um meio eficaz para se chegar ao documento, a matéria essencial que se quer destacar. Os registos obtidos sob o modelo documental/ficcional ficam na memória do espectador, acompanhando o percurso sinuoso, dramático, quase impossível de sustentar, e os altos e baixos (aqui e além muito baixos) de Qiao e Bin. Temos direito a evocações dos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008 e aos ecos da construção da mais monumental das barragens, a hidroeléctrica Três Gargantas. Magnífica a subida do Rio Yang-Tsé, que não será novidade absoluta para quem acompanhou a filmografia de Jia Zhang-Ke. Tudo isto sem nunca abandonar o olhar sobre os dramas humanos vividos pelas populações deslocadas, ou seja, por aqueles que não voltaram costas aos sacrifícios impostos pelo que foi o equivalente moderno do grande salto em frente promovido outrora (1958-1960) pelos dirigentes maoístas. Diga-se a este propósito, que o filme não podia concluir com melhor chave, podemos mesmo designá-la uma chave de ouro. Estamos numa rua ampla de uma cidade completamente renovada, ao cair da noite. Na sequência de breves encontros ao longo de um só dia, sem grande sucesso, e durante uma breve e pouco expectável reconciliação entre os dois antigos amantes, a deprimida Qiao olha de frente o nitidamente envelhecido Bin e, de repente, despe a roupa que a protegia do frio. Logo de seguida, já com uma indumentária desportiva, junta-se a uma multidão que corria ao longo da avenida em passo sincronizado e decidido. Aquela que fora na juventude bailarina e modelo revela uma agilidade que nos surpreende e, na minha pele de espectador, depois de ver o que vi, fiquei com vontade de partilhar convosco o que aqui fica: «Marés Vivas», não acaba com um novo salto em frente, mas sim com um salto para a frente de uma maratona protagonizada por um grupo de homens e mulheres que não se sabe de onde veio nem se sabe para onde vai. E há qualquer coisa de épico no modo como a realização foca o rosto pacificado de Qiao. Repito, como depoimento sobre a afirmação de um presente que corta com o que correu mal, e a incerteza do futuro, melhor não podia ser! Em suma, imperdível!
Título original: Feng liu yi dai Título internacional: Caught by the Tides Realização: Jia Zhang-ke Elenco: Tao Zhao, Zhubin Li, You Zhou Duração: 101 min. China, 2024




