É difícil ver a primeira longa-metragem de Urska Djukic, «Little Trouble Girls», estreada na secção Perspectives do festival de Berlim, e não pensar que este crescer-de-idade já foi feito antes e de forma mais expansiva. Estar presente para o acordar sexual num mundo espiritual entre raparigas que compõem um coro de vozes é comandar um filme desperto para o momento da revelação. Uma adolescente de 16 anos pendula entre a pulsão fisiológica que foge ao seu controlo e a repressão católica que abafa o desejo. O filme move-se numa ondulação envolvente que nunca cessa, mas permanece diluída, sem a gravidade devida, em grande parte graças aos lugares-comuns que não são ultrapassáveis, por mais notável que seja o imaginário.
A acanhada Lucia (Jara Sofija Ostan) vive com uma mãe que a fecha à experiência de ser uma mulher. Quando sexo aparece na televisão, o canal é mudado sem uma palavra ser dita. Entre as raparigas do colégio, a história é diferente. Batom é partilhado, joga-se à ‘verdade ou consequência’, treina-se o primeiro beijo e vislumbra-se a nudez masculina. Também se discute se a mulher tem um ponto de partida ou não (menstruação) e se o sexo é um ritual de passagem. Djukic espalha o filme de imagens encantatórias sugestivas do órgão genital feminino do primeiro plano em diante, nomeadamente o centro de uma flor que uma abelha explora ou um umbigo.
É assim que Djukic escolhe perscrutar o mundo interior de Lucia que, muito aos poucos, e depois de uma só vez, reconhece e responde aos impulsos eléctricos que o seu corpo comanda. Entre a virtude e o pecado, a jovem realizadora filma Lucia em planos tão apertados, por vezes, sem da sua cara necessitar, que evidenciam não só um confiante estudo de personagem como também a importância de o cinema sobre mulheres ser realizado por uma mulher. O olhar é ternurento porque é vulnerável.
Lucia não está à procura da sua voz, dentro ou fora do coro de música. Mas acaba por perdê-la depois de evidenciar ao maestro, enquanto no retiro musical no convento, que algo aconteceu entre ela e a amiga. Ao socializar a experiência sensual – dar-lhe um nome e partilhá-la com o único adulto ali perto -, Lucia esquece-se que o acto de se ser adolescente não é humanizado, especialmente entre os homens. Aí encontra-se o melhor do filme, quando esta se depara com o olhar desse mesmo homem depois do momento confessional.
«Little Trouble Girls» tem a personagem e o olhar. Sabemos o que é ser uma mulher através deles. Falta-lhe apenas o sentido de lugar, prejudicado por padrões demasiado óbvios, para nele se entrar. Isso não significa, no entanto, que Urska Djukic não tem uma voz. É muito promissora a tentativa. Mas demasiado fica preso na garganta.
TÍTULO NACIONAL: Little Trouble Girls
TÍTULO ORIGINAL: Kaj ti je deklica
REALIZAÇÃO: Urska Djukic
ELENCO: Jara Sofija Ostan, Mina Svajger, Sasa Tabakovic
ORIGEM: Eslóvenia, Itália, Croácia, Sérvia
DURAÇÃO: 90 min.
ANO: 2025



