Uma das citações mais vernáculas de Kafka não vem dos seus romances mas de uma entrada nos seus diários escrita a 2 de agosto de 1914: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, fui nadar.” Apenas aqueles que percebam a monstruosa comédia deste aforismo poderão compreender realmente a imensidade do escritor judeu de Praga. É precisamente essa coexistência entre o absurdo e a normalidade, entre a tragédia histórica e os pequenos rituais quotidianos, que Agnieszka Holland procura captar em «Franz», uma obra ambiciosa que se afasta deliberadamente dos cânones da cine-biografia convencional para tentar alcançar algo mais raro: uma aproximação espiritual ao universo kafkiano. Em vez de transformar Kafka num monstro da literatura moderna ou num mártir da alienação burocrática, Holland prefere mostrar um homem contraditório, vulnerável, por vezes ridículo, frequentemente inseguro, mas sempre dotado de uma lucidez quase insuportável acerca de si próprio e do seu tempo.
A realizadora polaca, cuja filmografia sempre demonstrou uma particular sensibilidade para as relações entre História e intimidade (veja-se o magistral «Europa, Europa»,1980) encontra em Kafka um objecto artístico ideal. O escritor viveu numa época de dissolução política, cultural e moral; um período em que o Império Austro-Húngaro se aproximava do colapso enquanto as promessas da modernidade revelavam progressivamente o seu lado mais sombrio. Holland compreende que não é possível separar o autor de “O Processo” e de “O Castelo” desse contexto de ansiedade permanente. Porém, evita a tentação académica de transformar o filme numa mera ilustração biográfica ou numa lição de literatura filmada.
O maior mérito de «Franz» reside precisamente na sua recusa do didactismo. Kafka surge menos como uma figura histórica do que como uma consciência em permanente estado de conflito. O filme acompanha as suas relações familiares, as suas hesitações amorosas, os seus problemas de saúde e as suas obsessões literárias sem nunca sugerir uma explicação definitiva para a génese da sua obra. Holland sabe que o mistério de Kafka constitui uma parte essencial da sua grandeza. Qualquer tentativa de o decifrar completamente acabaria por o empobrecer. Igualmente de mérito é o refinamento notável da encenação. A Praga recriada pelo filme evita o postal turístico e privilegia uma atmosfera de claustrofobia subtil. As ruas parecem simultaneamente familiares e estranhas; os interiores possuem uma densidade quase onírica; os enquadramentos sugerem constantemente a presença de forças invisíveis que condicionam a vida das personagens. Sem recorrer a excessos expressionistas, Holland consegue construir um espaço visual que dialoga naturalmente com o imaginário do escritor. Como golpes, a realizadora introduz cenas da capital checa contemporânea inundada de turistas e banalidade. Se as cenas do passado têm uma materialidade opalina, as do hoje contrastam com uma luz que cega.
A direcção de actores merece igualmente destaque. O Idam Weiss não procura imitar Kafka de forma caricatural, nem reproduzir os tiques habitualmente associados à figura do intelectual esquisóide. Pelo contrário, oferece uma interpretação marcada pela contenção e pela fragilidade. Há momentos em que o escritor parece prestes a desaparecer dentro da própria timidez, mas é precisamente dessa aparente insignificância que emerge a força da personagem. O Kafka de Holland não domina as situações; sofre-as, observa-as e regista-as. E é dessa posição marginal que nasce o seu olhar único sobre o mundo.

Um dos aspectos mais interessantes do filme é a forma como aborda a sexualidade. Durante décadas, a imagem pública de Kafka foi reduzida à de um asceta torturado, quase desprovido de corpo. Holland recusa esse cliché. As relações afectivas e eróticas do escritor são apresentadas como elementos fundamentais da sua experiência humana. O desejo surge associado tanto à possibilidade de comunhão como ao medo da perda de autonomia, um dilema recorrente na sua correspondência e nos seus diários. Mas essa sexualidade e nudez são-nos servidas de forma extremamente elegante, tal como a realizadora já nos tinha habituado a encontrar em várias das suas obras anteriores. Longe de qualquer gratuitidade ou provocação fácil, a nudez em «Franz» possui uma função dramática e emocional muito precisa. Os corpos não são exibidos como objectos de contemplação, mas como territórios de vulnerabilidade. Holland filma-os com naturalidade, sensibilidade e respeito, integrando-os organicamente na narrativa. O resultado é uma representação da intimidade rara no cinema contemporâneo, frequentemente dividido entre o puritanismo e a exploração voyeurística.
Naturalmente, o filme não está isento de limitações. Em determinados momentos, a reverência perante a figura de Kafka conduz a um certo excesso contemplativo. Algumas sequências prolongam-se para além do necessário, insistindo em estados de espírito que o espectador já compreendeu. Há também passagens em que a acumulação de referências biográficas apresentadas de forma não-linear, poderá parecer excessivamente dependente dos conhecimentos prévios do público. Quem não estiver familiarizado com a vida e a obra do escritor poderá sentir-se ocasionalmente excluído de certas nuances. Contudo, estes defeitos revelam-se relativamente menores perante a coerência global do projecto. Holland não pretende oferecer um entretenimento ligeiro nem uma narrativa de fácil consumo. O seu objectivo é mais exigente: tentar traduzir cinematograficamente uma sensibilidade literária que sempre resistiu às simplificações. E, na maior parte do tempo, consegue-o de forma admirável. O resultado final é um filme que honra Kafka precisamente porque não procura transformá-lo num monumento. «Franz» apresenta-nos um homem assombrado pelas suas dúvidas, pelas suas paixões e pelas suas limitações, alguém que viveu numa época de catástrofes iminentes mas que continuou, apesar de tudo, a escrever cartas, a apaixonar-se, a discutir com o pai, a trabalhar num escritório e, ocasionalmente, a ir nadar.
Tal como naquela célebre entrada do diário de 1914, a História e a vida quotidiana coexistem sem explicação possível. Agnieszka Holland compreende que é nesse espaço de tensão entre o absurdo e o banal que habita o verdadeiro Kafka. E é por isso que «Franz», mais do que uma simples biografia cinematográfica, se afirma como uma meditação inteligente e profundamente humana sobre a fragilidade da existência, a criação artística e a estranha normalidade com que os seres humanos atravessam as épocas mais sombrias da sua própria história eternamente condenados a uma angústia existencial.
Título original: Franz
Realização: Agnieszka Holland
Elenco: Idan Weiss, Katharina Stark, Jenovéfa Boková
Duração: 127 min.
República Checa, Polónia, Alemanha, França, Turquia
2025



