«Jill – Encontro com o Passado» é um filme que consegue criar o reflexo de uma sociedade dividida a partir de um relato de uma família isolada corrompida pelo sentimento de constante paranoia do pai que contamina e determina as acções do lar. Esta é a estreia na longa-metragem do suíço Steven Michael Hayes, que escreveu e realizou este revigorante filme.

«Jill – Encontro com o Passado» conta a história de uma família que vive na sua propriedade nos bosques. Os filhos não vão à escola e não têm contacto com o mundo exterior. A mãe (Juliet Rylance) é uma escritora talentosa, mas não publica nada para não chamar atenções sobre si. O pai tem uma plantação de cannabis que parece ser o sustento do casal e dos seus 4 rapazes e uma rapariga. A narrativa é contada a partir das reminiscências de Jill (Dree Hemingway), já na casa dos 30 anos, que faz um retorno à sua infância num lugar com muito amor e confiança que se tornou um pesadelo.

O papel de chefe de família é desempenhado por Tom Pelphrey, um actor que é muito intenso no desempenho de papéis dramáticos, veja-se o seu papel como Ben em «Ozarks» ou Perry em «Fora do Alcance» [«Outer Range»]. Normalmente somos brindados com performances vindas dos confins da sua alma. Neste filme o papel de Ted é feito à medida de Tom Pelphrey, no crescendo dramático de alguém que é prepotente e depois torna-se um controlador obsessivo que torna a sua família cativa da sua pancada em relação ao mundo exterior. Realce também para o bom desempenho de Juliet Rylance ao representar a impotência de uma mulher que vê a desagregação do lar e da utopia que ajudou a criar. Juliet tem claramente o pedigree do seu pai, Mark Rylance.

«Jill – Encontro com o Passado» é uma grande alegoria sobre a forma insidiosa de controlo que transforma um lar feliz num poço de tristezas devido às obsessões da figura paternal. Neste drama, um dos filhos mais novos interroga a cobardia da mãe e as acções tresloucadas do pai. É uma obra com imensas nuances para com a realidade não só do extremismo e o isolamento como também a possessão de alguém que absorve a vida de uma mulher ou de um jovem adulto ao retirar-lhes a capacidade de livre-arbítrio.

Título original: Jill Realização: Steven Michael Hayes Elenco: Tom Pelphrey, Juliet Rylance, Zackary Arthur Duração: 101 min. Suíça,2022

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº107, Junho 2024]

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