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ERA UMA VEZ EM GAZA

«Era Uma Vez em Gaza» é daqueles filmes que apareceram em Cannes ‘de fininho’, mas para lembrar que o cinema ainda consegue surpreender. Na secção Un Certain Regard 2025, os irmãos palestinianos Tarzan e Arab Nasser voltaram a provar que conseguem transformar o horror em sátira e a tragédia em farsa e ganharam o Prémio de Melhor Realização. Não é preciso grande esforço para imaginar a dificuldade que é filmar em Gaza, um território sitiado, bombardeado, reduzido a pó nos noticiários. Mas os Nasser não filmam ruínas como quem filma uma reportagem. Eles filmam Gaza como se fosse palco de um western, uma terra sem lei onde os tiros são substituídos por checkpoints, o faroeste troca o saloon por bancas de falafel e os duelos à pistola dão lugar a olhares cúmplices entre pequenos traficantes que se querem safar. O absurdo é tanto que só resta rir. E rir, em Gaza, é talvez o maior ato político que se pode ter.

A história segue dois protagonistas improváveis: Yahya, um estudante ingénuo que ainda acredita que a vida tem qualquer coisa de futuro, e Osama, pequeno vendedor de falafel que arranja forma de esconder droga dentro da comida. Um truque que podia servir para uma comédia ligeira, mas que aqui torna-se metáfora para a sobrevivência. Porque em Gaza tudo é precário, tudo pode rebentar a qualquer momento, e, ainda assim, há espaço para um humor negro que nos desarma. O filme não foge ao contexto, é impossível. A ocupação israelita, os bombardeamentos, os edifícios em ruínas estão sempre ali, à espreita. Mas os Nasser recusam o panfleto e preferem expor o quotidiano com ironia e afeto, revelando o ridículo de viver num território onde até comprar pão pode ser uma aventura épica. O riso nasce da tragédia, e é exatamente isso que dá força ao filme.

O título não é inocente. Ao evocar Leone e Tarantino, «Era Uma Vez em Gaza» não é apenas uma piscadela cinéfila: é também um epitáfio. Porque o “era uma vez” é o tempo verbal do luto, da perda, da história que já foi. Só que aqui não há nostalgia, há resistência. Os realizadores mostram que, mesmo em ruínas, a vida continua. Osam e Yahya são heróis improváveis, mas carregam o fardo de um povo que se recusa a desistir. O absurdo do falafel com droga ou o polícia corrupto que parece saído de uma farsa italiana não são detalhes gratuitos. São formas de mostrar que até no pior dos contextos existe espaço para a comédia, mesmo quando essa comédia nos dá um nó na garganta.

O filme é também fruto de uma rede internacional de apoios e coproduções, na qual se destaca a participação portuguesa através da Ukbar Filmes e da RTP. Portugal volta assim a inscrever o seu nome em projetos que, mais do que cinema, são testemunhos históricos. Ao lado da França, Alemanha, Catar e Jordânia, a presença portuguesa confirma a vocação de mediador cultural e cúmplice em histórias que importam. E importa ver «Era Uma Vez em Gaza» não apenas porque é um filme palestiniano, mas porque é um grande filme.

Os irmãos Nasser, nascidos em Gaza em 1988, já tinham dado nas vistas com «Dégradé» (2015) em Cannes e «Gaza, Meu Amor» (2020) em Veneza, ambos estreados em Portugal. Mas este novo filme é talvez o mais ousado, o mais feroz e, ao mesmo tempo, o mais divertido. São cineastas que se recusam a filmar apenas o sofrimento. Preferem filmar o absurdo, a ironia, o quotidiano surreal que é viver num território permanentemente ocupado. E fazem-no com talento visual, com ritmo narrativo, com humor negro e uma compaixão imensa pelas personagens. O resultado é uma obra que confirma o cinema palestiniano como uma das linguagens mais vivas e necessárias da atualidade.

«Era Uma Vez em Gaza» é cómico e trágico, leve e pesado, local e universal. É cinema que incomoda e diverte ao mesmo tempo, que nos faz rir enquanto nos lembra que não há nada de divertido naquilo que está a acontecer. É uma homenagem ao povo palestiniano, mas também uma declaração de vida: mesmo quando tudo arde, ainda há espaço para contar histórias. E se o cinema é, em última análise, uma forma de resistir ao esquecimento, então os Nasser acabam de assinar o seu filme mais resistente e inesquecível. Uma maravilha!

Título Original: Once Upon a Time in Gaza Realização: Arab NASSER, Tarzan NASSER Elenco: Issaq Elias, Nader Abd Alhay Origem: Palestina, França, Alemanha, Portugal, Catar, Jordânia Duração: 90 minutos Ano: 2025

José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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