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Drácula

Bento Carneiro, o vampiro brasileiro, nascido da mente imparável de Chico Anysio (1931-2012), há-de ter algum parentesco com o bebedor de sangue de «Drácula», do romeno Radu Jude, que carrega o Brasil nas veias graças à participação da produtora brasileira RT Features, de Rodrigo Teixeira.

Revelado na competição pelo Leopardo de Ouro de Locarno, em 2025, o filme transforma o maior património folclórico da Roménia numa anarquia audiovisual de quase três horas, misturando sátira política, imagens documentais, inteligência artificial, pornografia grotesca, humor escatológico e ataques ao capitalismo europeu.

Antes de se tornar personagem literária pelas mãos do irlandês Bram Stoker, em 1897, Vlad Tepes Draculea (1431-1476), o Empalador, foi uma figura histórica cuja crueldade alimentou séculos de lendas. Jude recupera esse imaginário não para produzir assombro, mas para praticar o deboche, como se o vampiro tivesse sido contaminado pelo espírito de Bento Carneiro e pela insolência de Jean-Luc Godard.

Vencedor do Urso de Ouro de 2021 com «Bad Luck Banging or Loony Porn» e premiado pelo argumento de «Kontinental ’25» na Berlinale deste ano, o realizador mantém intacta a sua disposição para confrontar ficção e realidade. “A poesia que pode existir no cinema que faço vem do choque entre a ficção e o documentário, numa espécie de regresso aos irmãos Lumière”, afirmou à Metropolis. Em «Drácula», essa colisão assume proporções delirantes: a criatura de Stoker deixa de ser apenas um predador sobrenatural para encarnar uma sociedade que suga trabalho, desejo, memória e dignidade. Jude não quer assustar ninguém. Quer ridicularizar os verdadeiros monstros do nosso tempo. E consegue, mesmo quando a sua provocação ameaça devorar a própria narrativa.

Título original: Dracula
Realização: Radu Jude
Elenco: Adonis Tanta, Oana Maria Zaharia, Gabriel Spahiu
Duração: 170 min.
Origem: Roménia, Brasil, Áustria, Reino Unido
Ano: 2025

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