Entrevistado pela escritora e historiadora Beatrice Loayza no último Festival de Cannes, onde «Highest 2 Lowest» («Céus e Infernos»), 2025, foi exibido fora de competição, o realizador Spike Lee, referindo-se ao que ele considera não um remake mas uma reinterpretação do clássico «Tengoku To Jigoku» («Céu e o Inferno»), 1963, de Akira Kurosawa, fez questão de sublinhar a relocalização da acção do seu filme de Yokohama, no Japão, para uma Nova Iorque onde os sinais exteriores de contemporaneidade não disfarçam as perenes convulsões demográficas que em alguns distritos chegam mesmo a revelar uma persistente decadência das relações humanas no contexto de um espaço urbano que muitos consideram alternativo ao modo de ser e estar dos EUA. Na cidade que supostamente nunca dorme, por entre as diferenças de classe sobressaem visíveis contradições económicas, para além de acentuadas divisões sociais, religiosas e de raça que, mal ou bem, acabam por contaminar e influenciar os meandros da política e do relacionamento comunitário e seus concomitantes valores éticos e morais. Mas “ouçamos” as palavras do cineasta: “We’re in Brooklyn, Manhattan, the Boogie Down, Yankee Stadium. The film is supposed to smell like New York. And it’s not perfume.” Ou seja, em «Céus e Infernos», Brooklyn, Manhattan, o Boogie Down (local de origem da cultura hip-hop), o Yankee Stadium, preenchem na articulação da estrutura narrativa alguns lugares representativos e emblemáticos que nos deveriam fazer identificar e sentir as diferentes atmosferas de Nova Iorque, ou melhor, uma parte significativa mas não completa da chamada Big Apple. Todavia, como Spike Lee referiu, face ao arrojo com que circunscreveu as principais linhas de força do argumento, podemos aceitar a ideia de que o ar que ali se respira “não cheira a perfume”. Não obstante, não quis incendiar consciências nem apontar o caminho de qualquer militância, embora ela esteja lá, sublimada, para quem a quiser descobrir. Na verdade, este filme inscreve-se num género muito querido da indústria americana, o Crime Thriller, e neste caso abre o jogo com uma espécie de cenário de conto de fadas para adultos que não dispensa o look e o estilo melodramático do “Era Uma Vez”. Senão vejamos: durante o genérico inicial, coadjuvado por um primeiro e muito vibrante exemplo do que será a incisiva banda sonora musical (cuja análise daria por si só uma crítica paralela a esta que aqui vos proponho), ouvimos uma canção que glorifica o bem-estar pessoal e louva o que de mais belo podemos usufruir no mundo que nos rodeia. Trata-se da composição “Oh, What a Beautiful Morning”, cujo refrão aqui recordamos: “Oh, what a beautiful mornin’ / Oh, what a beautiful day / I got a beautiful feelin’ / Ev’erything’s goin’ my way”. Seguramente, quer o compositor Richard Rodgers, quer o letrista Oscar Hammerstein II, nunca pensaram que a inspiração romântica da sua melodia (pensada para o palco e para o grande ecrã e para um clássico do musical, “Oklahoma!”) pudesse vir a ser usada como um autêntico hino ao sucesso de um grande empresário musical, um afro-americano que não esconde os sinais exteriores de riqueza. Mas a fome de poder e dinheiro não se extingue como o pavio de uma simples vela, antes pelo contrário, renasce constantemente. Por isso ele procura uma nova oportunidade para regressar em força e reforçar ou revalorizar os anos de ouro e os ecos de êxitos passados que lhe valeram o conforto financeiro que ostenta com satisfação. Uma personagem plena de confiança cujo lema podia ser, no contexto da sua Stackin’ Hits Records, “All the sounds of the earth are like music” (Todos os sons da Terra são música), verso extraído da citada canção inicial. Entretanto, pouco a pouco vamos percebendo que algo pode mudar e que a sonoridade encantatória e luminosa dessa “Beautiful Morning” podia afinal prenunciar, por contraste, as batidas negras e subterrâneas do rap e de um vasto conjunto de sonoridades que irão assaltar e virar do avesso a vida e a carreira de David King (Denzel Washington, no papel principal que no Japão coube a Toshiro Mifune). Temas musicais que irão dominar com inegável eficácia o pulsar ficcional proposto pela planificação e montagem e pela realização de Spike Lee.

Em suma, «Highest 2 Lowest» começa de forma pacífica, “cool”, mas desde cedo pressentimos que algo se irá passar e, de repente, a acção é posta ao lume e começa a ferver, gerando-se um incómodo ruído de fundo, fruto de circunstâncias inesperadas. David King vai ser arrastado com a sua família e os seus mais próximos para o desespero de um resgate na sequência de um rapto que, ao invés de envolver o seu filho, atinge por equívoco o filho do confidente, motorista e amigo de longa data, Paul Christopher (Jeffrey Wright), um brother com quem fomentou laços especiais de solidariedade que remontam aos anos em que ambos viviam, em relativo pé de igualdade, nos bairros desfavorecidos de Brooklyn. Pequenos grandes sinais dar-nos-ão conta ao longo do filme (para quem estiver atento aos pormenores absolutamente deliciosos das referências culturais, e não só, que vamos acumulando ao longo do visionamento) que o motorista não foi bafejado pela sorte que sorriu ao seu antigo companheiro de bairro e de classe. Daremos conta, pela iconografia que ostenta no quarto e por aspectos do seu comportamento, que muito provavelmente abraçou a Nation of Islam e que ainda agora venera a memória e militância de um líder como Malcolm X. Já o rico e famoso David King, não se perfilando completamente dentro da ideologia dominante, mantendo até alguma ambiguidade, lá para o fim, pela cruz de pedras preciosas que pendura ao peito num colar, seguramente situa a sua orientação religiosa no campo da fé cristã. Não se pense que são referentes inocentes, sobretudo para quem conheça as idiossincrasias de classe e da negritude corporativa nos EUA, assim como não são inócuos ou meramente decorativos os artefactos, pinturas e demais adereços que compõem o grosso dos ambientes, das atmosferas e do que conta ou não conta no campo existencial da elite, o “Highest”, e no campo do cidadão comum, o “Lowest”.

Seja como for, como outrora no filme de Akira Kurosawa, a questão número um que se coloca a partir do momento de viragem que o rapto introduz passa sobretudo pelo dilema de pagar ou não pagar um resgate de milhões. Decisão que não podia ser assumida por David King sem incorrer no risco de perder parte significativa da fortuna acumulada, já que o pagamento daquela avultada soma implicava o fim da estratégia que programara para a sua empresa discográfica. De repente, a dúvida, a hesitação, a dificuldade da escolha entre o sim e o não, geram um impasse que desgraçadamente o compromete, cada vez mais, com os parâmetros da vida e da morte. Não apenas da morte física, mas igualmente da morte profissional, a que viria colocar uma pedra na engrenagem do seu negócio e da sua carreira de homem com o melhor ouvido da indústria musical, aquele que se queria manter poderoso e independente para se afastar das garras das novas modas e das composições geradas por AI, música sem alma, como ele afirma de forma substantiva. Todas as sequências que suportam esta noção de equilíbrio instável entre o sim, a atitude justa, e o não, a atitude cobarde, são exemplares do modo como Spike Lee e os actores interagem para atingir através da sua composição e desempenho o objectivo de nos envolver no vórtice gerado pela luta entre o dever moral e a pura e dura ausência de escrúpulos. Resolvido o primeiro embate com a sua consciência, ou má-consciência, David King irá protagonizar de seguida uma viagem alucinada através da luz e das sombras nova-iorquinas, desde o Olympia Dumbo (magnífica vista sobre o Lower Manhattan do outro lado do Rio Hudson, penthouse de luxo onde habita, na recuperada e hoje muito exclusiva Front Street de Brooklyn) até aos caminhos cruzados da 161st Street, lá para os confins do desconsiderado Bronx (onde se situa o Yankee Stadium). Este percurso obedece a um guião que respeita o quadro da investigação policial e da correspondente perseguição ao raptor e seus cúmplices, percurso sinuoso e febril que vai por fim envolver David King numa perigosa missão, mais ousada do que insegura, considerando o grau de vulnerabilidade que o apoio dado pelas autoridades policiais não consegue por vezes contrariar. Na verdade, a entrega do resgate será condicionada pelas condições do criminoso e pela operação que montou deliberadamente no dia em que se comemorava o Puerto Rican Day Parade e em que nas ruas apinhadas de foliões oriundos da comunidade porto-riquenha explodiam as cores da alegria latina numa animada festa ao som da inebriante salsa. Raptor cuja identidade, não obstante apresentar sinais de pertencer ao meio musical, permanece obscura, excepto para David King. Nele sentimos, a partir de certos indícios musicais, o crescer gradual, não de uma certeza absoluta mas de uma intuição que o vai levar, acompanhado pelo amigo motorista e pai do adolescente raptado, a um ajuste de contas directo nos campos de batalha da sua juventude, a Nova Iorque que não aparece nos bilhetes-postais.

Tal como no filme de Akira Kurosawa, cujo argumento fora escrito a partir do romance “King’s Ransom” de Ed McBain, a sequência do comboio e da operação urdida para a entrega do resgate constitui um dos momentos fulcrais e de maior intensidade dramática, onde se potencializa a velocidade da acção e ainda o meticuloso crescendo do suspense. Há nesta sucessão de planos e pontos de vista a criação deliberada de imponderáveis gerados por uma miríade de obstáculos, entre outros, uma multidão de adeptos dos New York Yankees que geram a maior das confusões, por um lado devido aos gritos de incitamento e, por outro, por causa dos violentos e pouco desportivos insultos dirigidos aos adversários da sua equipa, os Boston Red Sox. Mas aqui o realizador americano, ao contrário do japonês, aproveita este ambiente de relativa anarquia para dar mais protagonismo ao improvável herói, David King, quase que o separando dos agentes da polícia e dos detectives que seguiam disfarçados no comboio Número 4 desde Borough Hall até à 161st Street. Esta reviravolta será decisiva para se perceber mais adiante a raiz da opção que privilegia o lado individualista do desfecho, dominado pelo explosivo confronto entre duas personagens que assumem e incorporam sozinhos, um frente ao outro, a alma de dois rappers. Tudo se irá passar num estúdio de gravação, obscuro e quase clandestino. De um lado, David King. Do outro, o raptor, Yung Felon (interpretado por A$AP Rocky). Belíssima ideia que, mesmo fora da caixa e contrariando alguma da até ali robusta verosimilhança narrativa, acaba por funcionar como o ponto alto de uma ficção que apontava para o duelo vital de duas personagens (e para a capacidade performativa de ambos os actores), cada qual situada nos antípodas do espectro social, mas não no reverso da identidade cultural negra que acrescenta o sal e a pimenta a «Highest 2 Lowest». Título cujo significado será de certo modo redefinido com algum simpático mas inusitado cinismo no ponto final “hollywoodiano” de uma história de redenção mais material do que moral. Ao contrário do que se possa pensar, as incertezas da subjectividade e do livre arbítrio que Spike Lee procura destacar no pensamento de David King (a perplexidade perante o rapto, o peso do resgate e os acontecimentos em que se viu mergulhado), não diferem das grandes linhas de força defendidas por Akira Kurosawa para Kingo Gondo, o protagonista de uma das suas obras-primas.

Em suma, «Céus e Infernos» consegue articular com rigor e vigor uma linguagem dinâmica apoiada por diferentes e modernos meios de produção, mas não apaga a excelência do clássico japonês que lhe serviu de matriz. Para os devidos efeitos, esta reinterpretação foi rodada numa era em que o factor humano e as ferramentas de comunicação que fazem ou podem fazer a diferença nas nossas vidas, são mais difíceis de controlar do que as ilusões e abismos do julgamento imediato. Por outras palavras, não são fáceis de encontrar no aparentemente mais acessível, mas não inócuo, mundo virtual.
E, a propósito de encontrar o que desejamos e vale mesmo a pena, Portugal não foi bafejado com a estreia em sala, mas «Highest 2 Lowest» estará disponível no streaming da Apple TV+, à escala global, a partir do dia 5 de Setembro de 2025.
Título original: Highest 2 Lowest Realização: Spike Lee Elenco: Denzel Washington, Jeffrey Wright, Ilfenesh Hadera, A$AP Rocky, Wendell Pierce Duração: 123 min. EUA/Japão, 2025

