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Cartas Amarelas

«Cartas Amarelas» («Yellow Letters»), de İlker Çatak, estreou na Competição da Berlinale 2026 de uma forma discreta mas acabou por levar o Urso de Ouro para casa. O realizador germano-turco, que já nos tinha metido dentro da panela de pressão moral de “A Sala dos Professores”, regressa aqui a outro edifício: não uma escola, mas um país; não uma sala de aula, mas uma democracia a fazer de conta que ainda respira normalmente enquanto vai despedindo, silenciando e arrumando os incómodos em envelopes administrativos. As “cartas amarelas” do título são isso mesmo: avisos de despedimento, papéis com o verniz burocrático do costume, essa caligrafia limpa com que o poder gosta de sujar a vida dos outros. Primeiro vem a carta. Depois o medo. Depois a humilhação. Depois a família começa a estalar. E, quando damos por isso, a política já entrou na sala, no quarto, na cama, na conta bancária e até no pequeno-almoço.

À superfície, «Cartas Amarelas» é a história de Derya (Özgü Namal), e Aziz (Tansu Biçer), um casal de artistas de teatro de Ancara. Ela é actriz, ele dramaturgo e professor. Vivem, trabalham, discutem, amam-se, irritam-se, têm uma filha adolescente e a ilusão, sempre ternurenta, de que a arte ainda pode ser um lugar de liberdade. Até que o Estado, esse espectador sem bilhete mas sempre na primeira fila, decide intervir. Um comentário, uma posição política, um gesto mal interpretado, uma frase que alguém achou excessiva e pronto, acabou-se a peça. Derya e Aziz são afastados do trabalho, empurrados para fora do circuito, transformados em problema público. O cancelamento, aqui, é com carimbo, salário cortado, portas fechadas e uma vida doméstica a desmoronar-se sem música dramática, que para isso já basta a realidade.

O mais interessante no filme de Çatak é que ele não cai na tentação confortável do panfleto político de denúncia. Não há aqui santos de um lado e monstros do outro, o que é sempre uma chatice para quem gosta de sair do cinema com a consciência tranquila. Derya aceita trabalhar numa telenovela mais dócil, mais alinhada, mais conveniente. Aziz agarra-se à integridade como quem segura uma bandeira no meio de uma tempestade, com aquela nobreza bonita mas, convenhamos, pouco prática quando há contas para pagar e uma filha de 14 anos a tentar ter uma vida vagamente normal. Ele quer princípios. Ela quer sobrevivência. Ele quer resistência. Ela quer respirar. A filha quer Wi-Fi, privacidade e que os adultos parem de transformar tudo numa tragédia grega com aquecimento central. Quem tem razão? A resposta honesta é: talvez todos, talvez ninguém. E é aí que o filme deixa de ser apenas “necessário” e se torna realmente muito interessante.

Filmado na Alemanha, com Berlim e Hamburgo a fingirem ser Istambul e Ancara, «Cartas Amarelas» mostra-nos claramente os limites à liberdade de expressão na Turquia mas a mira é mais larga. O poder autoritário já não precisa necessariamente de botas, bigode e discursos emotivos. Basta usar linguagem técnica, departamentos disciplinares, campanhas de difamação, directores culturais muito sensíveis ao vento político e uma frase simpática no fim: “lamentamos informar”. O medo moderno vem muitas vezes em papel timbrado. Entra devagar, pede licença, oferece uma justificação absurda e, quando se instala, já estamos todos a falar mais baixo ou melhor a calar-nos com medo.

O Urso de Ouro encaixou, portanto, como uma luva ou como uma bofetada com luva branca. «Cartas Amarelas» é um filme sobre a espinha dorsal: a dos artistas, a dos casamentos, a das instituições e a nossa, espectadores a achar que isto acontece sempre lá longe, a outros povos, com outros governos, em países com má imprensa. Çatak sabe que a censura mais eficaz é aquela que obriga cada um a censurar-se antes de abrir a boca. E sabe também que o heroísmo, visto de perto, tem renda, supermercado, filhos, sogras, exaustão e renda para pagar. Por isso, o filme não pergunta apenas até onde estamos dispostos a resistir. Pergunta quanto custa resistir, quem paga a factura e se, no fim, ainda sobra alguma coisa do amor quando a política se senta à mesa todos os dias. Chama-se «Cartas Amarelas», mas podia chamar-se “Manual Prático de Como uma Democracia se Despede de Si Mesma”. Só que isso talvez fosse demasiado longo para caber no envelope ou no título do genérico.

Título Original: “Gelbe Briefe” / “Yellow Letters”
Realização: İlker Çatak
Com: Özgü Namal, Tansu Biçer, Leyla Smyrna Cabas, İpek Bilgin, Yusuf Akgün, Emre Bakar
Origem: Alemanha, França, Turquia
Duração: 128 minutos
Ano: 2026

José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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