No panorama do cinema moçambicano pós-independência, Sol de Carvalho ocupa um lugar plenamente merecido e que se encontra consubstanciado numa obra que chegou aos nossos dias como um exemplo da vontade de investir na História do país que o viu nascer. Trata-se assim de um nome a reter, entre outros cineastas, a par de João Ribeiro, Licínio de Azevedo, Pedro Pimenta, só para citar alguns dos seus colegas fundadores da produtora Ébano com quem me cruzei ao longo da minha carreira numa altura em que era responsável pelas co-produções cinematográficas da RTP.
Mas basta de recordações do passado e passemos ao quadro de previsões que aponta para o próximo dia 26 de Junho de 2025 a estreia da sua mais recente longa-metragem «Ancoradouro do Tempo», 2023. Este filme foi inteiramente rodado na Fortaleza de São Sebastião na Ilha de Moçambique, província de Nampula, imponente estrutura militar construída no século XVI pelos portugueses com o objectivo de proteger as naus da chamada “Carreira da Índia”, rota marítima que desde 1500 estabelecia a ligação entre Lisboa e o Oriente, particularmente Goa, e que se manteve até ao século XIX, altura em que foi inaugurado o Canal do Suez (17 de Novembro de 1869). Pode dizer-se que as paredes amplamente corroídas de uma arquitectura militar (considerada em 1991 pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade) são uma personagem em si mesma, prova de vida material que alberga a materialidade e imaterialidade de outra(s) vida(s), neste caso a parca existência de um pequeno grupo de pessoas com alguma idade que aparentam muita experiência na arte de sobreviver com muito pouco ou quase nada, e que se encontram ali “exiladas” como pensionistas numa espécie de casa de repouso onde cada qual faz o que lhe dá na real gana e onde não falta uma enfermeira mais nova, Marta (Adamugy), que ali estaria para prover aos mais diversos cuidados de saúde, e não só. Existe ainda um director, Vasto Excelêncio (Tomas Bié), cuja função seria o de manter alguma ordem e gerir o complexo de quartos/divisões, uns vazios e outros ocupados. Todavia, pelas suas constantes manifestações de autoridade que se confundiam quase sempre com ira e agressividade, não era pessoa de fácil relacionamento, mas antes uma personalidade agreste e propícia a gerar inimizades. A realização fará dele o retrato necessário e suficiente para estabelecer uma barreira entre o seu percurso e o das restantes personagens, nomeadamente na sequência de um crime que logo ao início parece certo e se concretiza (mesmo que os espectadores só oiçam o som de uma pistola a disparar). Situação grave que dá assim lugar a um inquérito policial levado a cabo pelo inspector Izidine (Horácio Guiamba), o homem que por ali vivera em criança com o pai e agora regressava da cidade para deslindar o mistério de uma morte naquele sítio isolado, naquele fim do mundo perdido e decadente. Será ele, aliás, que vemos em primeiro lugar a cruzar as águas do Índico num pequeno barco de passageiros e de carga ligeira que o leva ao ancoradouro que dá acesso ao interior da Fortaleza, e será igualmente sobre ele que as atenções dos habitantes locais se vão concentrar a partir do momento em que começa a vasculhar os quatro cantos do labirinto arquitectónico onde procura encontrar provas do crime e de quem o cometeu. Tem para isso sete dias, uma escassa semana que mais não significa do que um pressuposto ilusório, face ao que iremos posteriormente assistir. E deste modo se lançam os dados e as eventuais pistas que o argumento desenvolve como uma rede apertada e intrincada de onde não se sai facilmente.

Para os devidos efeitos, Izidine vai usar um modelo de inquérito que privilegia os contactos pessoais com os habitantes da Ilha que alegadamente sabiam de qualquer coisa. Todavia, ao invés de ajudarem, os homens e mulheres interrogados vão urdir histórias mais ou menos fantasiosas, mas com algum grau de credibilidade se consideradas isoladamente. No decorrer da acção instala-se um grande problema para o inspector quando cada um dos inquiridos, por vezes ansiosos por confessar não importa o quê, se declara culpado da morte do director. Muitas destas pseudo-confissões são feitas e logo a seguir corroboradas individualmente e de frente para a objectiva, olhos nos olhos com o espectador. Depoimentos integrados em segmentos audiovisuais que, para além de destruírem a chamada quarta parede, nos permitem avaliar o que dizem as personagens envolvidas, suspeitas ou não, fora do colectivo do grupo e do frágil recato das suas conversas com Izidine. Pobre inspector, que se sente gozado e ludibriado e, de certo modo, empurrado para aquele limbo onde o desfecho favorável e racional da sua missão parece cada vez mais distante, sobretudo no que diz respeito ao apuramento da verdade. Mas não desiste, e com nervos de aço e determinação profissional enfrenta os cornos do destino e será capaz de vislumbrar um conjunto de crimes ainda maior do que aquele que de facto acontecera. Para isso vai encaixar uma a uma as peças do puzzle narrativo numa resolução que em parte nos surpreende, e mais não digo. Pelo meio redime a memória do pai com quem estivera de relações cortadas por conta de um amargo equívoco, constituindo este sub-plot um risco que Sol Carvalho e Mia Couto, ambos co-argumentistas, superam com alguma habilidade e subtileza. Trata-se no fundo de fazer as contas com a História da Libertação de Moçambique e de louvar os seus heróis, mesmo aqueles que nunca reivindicaram quaisquer honras ou, pura e simplesmente, não puderam ocupar de corpo inteiro e sem sair da clandestinidade um lugar especial na luta de libertação contra o colonialismo.

Destacámos as personagens e os nomes dos actores que dão força motriz aos principais conflitos dramáticos, mas não podemos esquecer a participação dos restantes, a saber: Nhonhoso (Mário José Mabjaia), Navaia (Adelino Branquinho), Nãozinha (Josefina Massango), Ernestina (Isabel Jorge), Salufo Tuco (Elliote Alex), Mourão (Vitor Gonçalves) e Bandeira (Stewart Sukuma). Tecnicamente, o filme cumpre naquilo que foi seguramente a preocupação de criar atmosferas visuais e sonoras que correspondessem ao quadro de sombras, luz e cor das estruturas da fortaleza e da intriga que percorre os seus espaços habitados e por habitar, salientando-se neste contexto a muito interessante banda sonora musical.
Resta dizer que o argumento foi escrito com base na adaptação do romance “A Varanda do Frangipani”, romance que Mia Couto publicou em 1996. Há nele, como no filme, muito do que são as idiossincrasias do modo de ser e do modo de contar africano. E essa será seguramente a força maior das duas obras, a literária e a cinematográfica.
Título original: O Ancoradouro do Tempo Realização: Sol de Carvalho Elenco: Maria Adamugy, Tomas Bie, Horácio Guiamba Duração: 105 min. Moçambique, 2024

