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O Meu País Imaginário

No início da sua derradeira longa-metragem, «Mi País Imaginario» («O Meu País Imaginário»), 2022, o cineasta Patricio Guzmán (11 de Agosto de 1941 – 15 de Setembro de 2026) desperta-nos a memória para uma época, conturbada mas libertadora, cujos correspondentes ecos históricos fazem parte de um dos seus mais celebrados documentários, a monumental Trilogia “La Batalla de Chile” (produzida entre 1975 e 1979).

Nessa espécie de preâmbulo, recorda os anos redentores que a eleição do Presidente Salvador Allende (1908 – 1973) proporcionou no seu país e junto daqueles que, pelo mundo fora e na restante América Latina, abraçaram a via da luta com o propósito de construir uma plataforma destinada a defender os mais elementares direitos cívicos e consolidar os instrumentos legais que garantissem a igualdade de oportunidades e as condições mínimas necessárias ao exercício do poder pelo povo e para o povo. Para que a fraternidade e a paz prevalecessem e o progresso social não fosse mera retórica de propaganda. Diga-se que o processo pacífico que levou ao poder um presidente civil e inspirado pelos ideais socialistas, democráticos e marxistas, não era coisa comum no Chile nem na maioria das paragens latino-americanas. Representava mesmo uma quase novidade num continente assolado por numerosos golpes de estado, revoluções de diferentes quadrantes políticos e ideológicos, muitas vezes dominado e condicionado por uma robusta dose de violência, situações muito próximas ou mesmo concretas de guerra civil declarada ou inserida num esquema ardiloso de luta de classes onde a pressão era exercida contra as forças laborais que se viam ciclicamente exploradas pelas multinacionais, nomeadamente ao serviço dos interesses dos EUA.

Nas já citadas imagens e no rosto dos homens e mulheres que aclamam o homem por eles eleito a 4 de Setembro de 1970 (vitória do candidato que reunira a esquerda chilena na frente designada “Unidade Popular”) sentimos uma contagiante e justificada alegria, que iria pouco depois dar lugar a uma legítima esperança de alcançarem melhores condições de vida, sobretudo por parte dos operários menos favorecidos, pelo proletariado agrícola e pela empobrecida pequena-burguesia urbana, grupos e classes sociais que até ali haviam sido condenados a fazer mil e uma contas e sacrifícios para que os parcos rendimentos chegassem ao fim do mês. Era uma nova era que não afastava da equação existencial a maioria dos chilenos. Todavia, o mandato e as mudanças promovidas por Salvador Allende não eram recebidos com agrado pelo “patrão” do Norte. Deste modo, o então Presidente Richard Nixon e o seu Secretário de Estado, o seráfico Henry Kissinger, desde cedo apoiaram a contra-ofensiva do capitalismo local e internacional e, para darem a volta ao que fora escrutinado nas urnas, financiaram com milhões de dólares as investidas da CIA e a estratégia das forças subversivas internas, quase sempre relacionadas com a extrema-direita que, pouco a pouco e com a ajuda de doses sistemáticas de desinformação, ergueram as condições para um levantamento ultra-conservador contra o novo regime.

Resistiram quanto puderam os dirigentes da frágil democracia, mas o poder da corrupção e a penetração de ideias revanchistas e golpistas acabou por vir ao de cima. Tudo culminou a 11 de Setembro de 1973, com o golpe de estado que derrubou o Presidente Salvador Allende (assassinado durante o assalto ao Palácio Presidencial), a que se seguiu a instauração de uma ditadura militar que durou até 1990. Período negro caracterizado por um clima de permanente repressão e perseguição dos opositores, anos de chumbo dominados pela sinistra e vampírica personalidade do general Augusto Pinochet. Para além da supressão da liberdade e dos mais elementares direitos cívicos, o Parlamento foi dissolvido, a Constituição suspensa e os partidos políticos banidos. Foram registadas inúmeras violações dos direitos humanos, que resultaram em milhares de mortos. Milhares de pessoas acabaram encarceradas ou desaparecidas. Também foi por causa deste miserável ambiente que um grande número de chilenos arriscou a sorte, iludindo os opressores e conseguindo alcançar o exílio. Foi o caso do realizador e militante Patricio Guzmán. Entretanto, no início dos anos noventa do Século XX, o Chile regressou balbuciante a uma democracia burguesa, que, no entanto, não foi capaz de cortar rente com o passado ditatorial. De facto, manteve no essencial a Constituição escrita por aqueles que haviam integrado as instituições fascistas e classistas da ditadura militar.

Nesta breve introdução, onde muito mais poderia ser dito, procurei recordar o histórico que enquadrasse o despertar de um mal-estar, a matéria primordial de «O Meu País Imaginário», ou seja, a amplitude e a razão de ser do movimento popular sobre o qual o cineasta irá incidir uma reflexão dinâmica, chegando mesmo a compará-la a uma nova revolução. Na verdade, a agitação, com algum potencial insurrecional, posta em marcha nos derradeiros meses de 2019 e que se estendeu pelo ano de 2020, conhecida por estallido social, na prática foi um conjunto de manifestações, algumas pacíficas, outras particularmente violentas, desencadeadas por factores de desagregação das condições de vida, entre outras causas, o aumento dos preços de bens de primeira necessidade e a insatisfação face a promessas políticas não cumpridas pelos que sempre alinharam ao lado dos sectores mais conservadores e extremistas do neo-liberalismo (leia-se, a direita reaccionária e plutocrática). Dessa falta de esperança num futuro que se afigurava difícil e incerto nasceu entre os jovens, e não só, a vontade de sair para a rua numa intensidade guerreira demonstrada em numerosos actos de desobediência civil e em batalhas campais de grande envergadura que, no fundo, correspondiam a uma natural atitude de defesa (com uso de escudos improvisados e lançamento de pedras da calçada) face ao quadro de brutalidade da repressão policial, que fazia lembrar a do período da ditadura. Inclusivamente, quem na altura mandava no país deu ordens para que o exército fosse chamado a intervir (com armas de calibre de guerra), militares cuja violência não diferia da utilizada nas investidas policiais. Nas imagens recolhidas no decorrer dos protestos, percebemos que muitos manifestantes arriscaram a sua integridade física (mostram-se exemplos significativos dos danos corporais graves que sofreram) e, não poucas vezes, veremos a polícia disparar (provavelmente balas de borracha, mas a distâncias que podem ser letais) directamente sobre os manifestantes.     

Todavia, o documentário não se fica apenas pelo relato de uma revolta civil, mais ou menos coordenada e aparentemente sem partidos políticos a formatá-la (embora a contribuição de um partido ou de uma frente de vanguarda pudesse ser útil para consolidar alguns aspectos da luta de massas). De facto, o filme vai mais longe ao integrar na estrutura da montagem depoimentos de pessoas que, de um modo ou de outro, representavam (algumas ainda representam) os pilares de uma sociedade chilena que assumiu com determinação e coragem a efervescência revolucionária que por fim permitiu, entre outras conquistas de similar importância, uma renovada organização social e a força de um plebiscito que deveria caucionar uma nova Constituição.

Entre aqueles que deram a cara, significativos são os depoimentos, sinceros e despojados de demagogia, de muitos homens e ainda mais mulheres, entre elas uma fotógrafa que salientou o poder que os cidadãos comuns adquiriram nos últimos anos, por vezes sem darem verdadeira conta do mesmo, quando confrontados com situações extraordinárias e ameaças existenciais.

Na verdade, ao poderem registar no plano áudio e visual os acontecimentos da História que vale a pena preservar para memória futura, a outrora omnipresente e sectária narrativa oficial fica algo comprometida. Basta que mergulhem, sem medo, na linha da frente ou na retaguarda dos combates que vale a pena disputar, usando os mil e um artefactos ligeiros que gravam imagens e sons (por exemplo, as câmaras dos telemóveis), apontando-os para o que se está a passar diante dos seus olhos e denunciando os factos que assim ganham uma inegável mais-valia ao serem documentados, observados e interpretados por diversos ângulos e pontos de vista. Desta nova realidade combinada com modelos perenes da linguagem clássica do documentarismo se faz uma boa parcela da estrutura fílmica de «O Meu País Imaginário».

E quanto ao propósito e entusiasmo do realizador perante os factos relatados, aqui ficam as suas palavras: “Outubro de 2019, uma revolução inesperada, uma explosão social. Um milhão e meio de pessoas manifestaram-se nas ruas de Santiago por mais democracia, uma vida mais digna, uma melhor educação, um melhor sistema de saúde e uma nova Constituição. O Chile tinha recuperado a sua memória. O acontecimento de que eu estava à espera desde as minhas lutas estudantis em 1973 e que finalmente se materializou.”

Mas não há bela sem senão, e podemos dizer que o furacão que confrontou a direita no poder na altura do estallido (a explosão social), não apenas na capital, Santiago, mas em muitas outras paragens do Chile, não conseguiu alcançar mais do que pequenas melhorias face ao que era urgente e estava realmente em causa nos dias e noites da heróica sublevação. Dado que o documentário «O Meu País Imaginario» demorou quatro anos a estrear no nosso país, o que hoje sabemos sobre a realidade política e socioeconómica do Chile pesa (sem beliscar a importância do que se vê e ouve) no rescaldo que podemos e devemos fazer da abordagem cinematográfica de uma das mais expressivas jornadas de luta no contexto sul-americano. Patricio Guzmán ainda deu conta da eleição de um jovem (ex-líder estudantil) para a presidência da república, Gabriel Boric. Foi em 2021. Mas em 2026 quem foi para o seu lugar, José Antonio Kast, representou o regresso a políticas populistas de extrema-direita.

Resta saber qual ou quais vão ser os cineastas dispostos a seguir o exemplo de Patricio Guzmán (recentemente falecido) para, sempre que possível forjados na experiência da luta, continuarem a dar-nos uma visão esclarecida e sem papas na língua dos grandes conflitos e desafios que se agigantam face ao futuro do Chile, num mundo pleno de compromissos e em permanente convulsão.

Título original: Mi país imaginario
Título internacional: My Imaginary Country
Realização: Patricio Guzmán
Documentário
Duração: 83 min.
Origem: Chile, França
2022

João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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