O burburinho em torno de «Digger» tem nome e sobrenome: Tom Cruise. O elenco é repleto de nomes importantes e a dupla Iñarritu/Lubezki é expressiva; no entanto, nada se compara ao apelo que Cruise gera. Ele não é o tipo de ator que se submete a qualquer papel. Após ter se tornado o grande ícone do cinema de ação contemporâneo, sua opção por trabalhar com um diretor do calibre de Iñarritu, bastante prestigiado pela Academia, chamou a atenção. O marketing, as entrevistas, os trailers… tudo foi minuciosamente preparado. «Digger» talvez não seja o melhor filme do ano, mas é, sem dúvida alguma, o mais ambicioso em termos de tom, estrutura e escolhas temáticas.
Digger Rockwell é um magnata da indústria do petróleo. A exploração do gélido solo da Gronelândia por parte de sua empresa, que conta com o apoio do governo americano, chegou a um nível catastrófico, que levará o mundo a um rápido processo de destruição. Isso sem falar na estratosférica plataforma de gelo que se formou e está a caminho da Europa. A direção de arte é precisa ao retratar Digger como uma figura megalomaníaca e excêntrica – a sua mansão é um misto de museu e jardim zoológico. A bota característica, o chapéu e o sotaque são os toques que definem o arquétipo do cowboy. Claro, tudo funciona dentro de uma lógica satírica, na qual o exagero impera e serve para alertar para perigos que, apesar de soarem absurdos, são reais. Digger é um sociopata, um bilionário que perdeu a noção da realidade. As suas amostras de carinho direcionadas à sua gata são, na verdade, um surto de um homem que acredita ser Deus; afinal, a pobre coitada já deveria ter falecido há mais de um século e é mantida viva num estado cadavérico. Ao ser informado por Ganesh, o biólogo responsável pelas previsões catastróficas, o protagonista demonstra uma preocupação maior com o dinheiro perdido do que com seus funcionários mortos na Gronelândia. As dinâmicas entre os personagens funcionam em diferentes camadas: a manutenção do timing cômico dialoga com o alerta colocado por Iñarritu.
De um ponto de vista estético, «Digger» remete aos filmes do sueco Roy Andersson. Os cenários, a forte maquilagem e a fotografia elaboram um universo opaco, sem perspectiva, servindo à ideia farsesca e absurda idealizada pelo cineasta mexicano. Na cena em que o governo se reúne com Digger, percebemos que algumas apostas estão sendo feitas. Não é apenas a entonação dos atores, que interpretam caricaturas, o design de som, que realça o som das cadeiras virando para gerar uma tensão cômica, e a decupagem, que vai de um plano aberto da mesa comprida para planos que geram embates entre os membros do governo; Iñarritu também aposta em piadas verbais, tornando sua sátira cada vez mais latente. A sensação é de que as coisas estão saindo do eixo, até que Iñarritu, sem pedir licença, puxa o tapete e promove uma grande reviravolta.

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Tudo aquilo era o ensaio de uma peça teatral que já existe há mais de 20 anos, baseada em fatos reais. A câmara assume uma agilidade maior, acompanhando os personagens, nervosos com a noite de estreia. Iñarritu desliga a máquina satírica e nos leva para os bastidores do espetáculo – algo que já havia feito no aclamado «Birdman». Nessas transições, Cruise tem a chance de provar por que é um grande intérprete. Ele vai do sotaque texano à sua fala normal e precisa mudar o ritmo dos passos, demonstrando outra personalidade e outros tipos de preocupação – a narrativa é inteiramente moldada a ele. Iñarritu utiliza a metalinguagem para potencializar seu discurso, afirmando que a arte deve, sempre que possível, trazer a história à tona, expondo os horrores que governos autoritários e homens poderosos proporcionaram. Seu filme, que já era político e atual, ganha uma outra faceta: «Digger» é uma carta de amor e de apelo à união entre arte e política. Em um ano no qual o tema se sobressaiu em diferentes cenários, Iñarritu marca a sua posição. Em momentos em que a sátira volta a ganhar força, o diretor altera a colocação da câmeaa, incluindo o espaço teatral no enquadramento e evidenciando que estamos diante de uma representação. O argumento também propõe uma discussão dentro do próprio fazer artístico. Como se deve abordar uma catástrofe real, que afetou milhões de pessoas? Existe uma forma mais adequada? A sátira é um desrespeito? Ridicularizar figuras que já são ridículas não é um risco? A caricatura realça aquilo que os mais poderosos mascaram? A fidelidade é mais valiosa? Depois de tanta desgraça, as pessoas não merecem se reunir no teatro e rir um pouco? Aqui, mais do que nunca, o teatro é um espaço para imaginar, compartilhar experiências e fugir da realidade ao mesmo tempo em que mergulha nela.
O argumento aponta para questões atuais, como os perigos da polarização política extrema. Com seus cordeiros dispostos a qualquer coisa para apoiá-los, os governantes não pensam em medidas empáticas, mas na construção de narrativas positivas, jogando a culpa para o outro lado. O controle da mídia e das redes sociais nunca foi tão real. Em uma sequência que se passa num anfiteatro, Digger entra de forma triunfal e realiza um discurso que sintetiza o que é o populismo. Esse talvez seja o momento mais memorável de Cruise, que esbanja carisma e cinismo, seduzindo com sua retórica e corporalidade. Ele tem muitas arestas a cobrir e oferece uma performance cheia de vigor, funcionando como um termômetro para o filme. Quando Cruise assume a pele de Curtis, o ator que interpreta Digger, não é apenas a tensão da estreia que ele traz, mas dramas que pertencem àquele personagem específico. Ele consegue, mesmo desfigurado pela maquiagem, retornar à sua vida sem se desligar inteiramente do espetáculo, numa atuação que merece todos os elogios possíveis. Dentro de um elenco excelente, Riz Ahmed, John Goodman e Jesse Plemons são os que mais se destacam.
«Digger» é um filme de proporções caóticas, que mira alto e acerta a grande maioria de seus alvos.
Título original: Digger
Realização: Alejandro G. Iñárritu
Elenco: Tom Cruise, Riz Ahmed, John Goodman, Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg, Jesse Plemons, Emma D’Arcy
Duração: 128 min.
Reino Unido, México, EUA
2026




