Aos 77 anos, a polaca Agnieszka Holland é uma figura capital na história do cinema europeu. Estou na famosa FAMU de Praga, começou como assistente de Krzysztof Zanussi e teve como mentor Andrzej Wajda. A sua primeira longa-metragem, «Atores de Província», venceu o Prémio da Crítica em Cannes. Pelo caminho, além de ter sido Presidente da Academia Europeia de Cinema, foi nomeada a um Óscar pelo argumento de «Europa, Europa», filmou nos Estados Unidos, dirigiu atores como Leonardo DiCaprio, Jennifer Jason Leigh, Ed Harris ou Jessica Lange, em filmes ou séries, como «The Wire». Mais recentemente, esteve no centro de uma polémica com o primeiro-ministro conservador polaco, após a realização de «Green Border – Zona de Exclusão», sobre a crise dos refugiados da guerra da Síria. Agora, vamos ver «Franz», uma excitante e pouco convencional biografia de um dos vultos mais importantes da literatura europeia do século XX, Franz Kafka.
Porquê um filme sobre Franz Kafka, precisamente neste momento?
Agnieszka Holland: Eu própria pergunto a mim mesma porquê agora. Houve várias razões. Em primeiro lugar, tornou-se finalmente possível. Fazer um filme sobre Franz Kafka era uma fascinação muito profunda que tenho desde a adolescência. Sempre soube que precisava de muita liberdade e que não queria fazer uma biografia convencional, mas antes uma procura de uma espécie de verdade interior e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre o que Kafka significa hoje para mim e para os outros.
E representa um regresso a Praga, onde estudou cinema…
Agnieszka Holland: O que desencadeou realmente o projeto foi precisamente o facto de eu ter estudado em Praga. Conheço muito bem a cidade e sinto-me muito próximo dela. Uma das razões pelas quais fui para lá estudar foi precisamente por ser a cidade de Franz Kafka. Mas era uma cidade muito diferente da Praga de hoje, que se tornou um destino turístico extremamente bem-sucedido e, em certas alturas do ano, praticamente insuportável.
Na altura já se sentia na cidade essa presença de Kafka?
Agnieszka Holland: Quando estudei lá, no final da década de 1960 e início da de 1970, Franz Kafka era praticamente desconhecido dos jovens checos. Não era publicado desde a Segunda Guerra Mundial. Antes da guerra era visto apenas como um obscuro escritor judeu de língua alemã. Durante a guerra houve o Holocausto e, naturalmente, ninguém publicava Kafka. Depois da guerra, quando se tornou uma figura de renome mundial, instalou-se em Praga um estalinismo muito forte e Kafka passou a ser apresentado como um exemplo de escritor burguês degenerado.
Foi então uma desilusão, essa sua chegada a Praga?
Agnieszka Holland: Quando cheguei a Praga, em 1967, cheia de entusiasmo por estar na cidade de Franz Kafka, muito poucos dos meus colegas o tinham lido. Depois surgiu aquele breve período de renovação associado à Primavera de Praga que, de certo modo, começou com uma conferência da Associação de Escritores dedicada precisamente a Kafka, procurando reabilitá-lo. Muitos historiadores consideram que esse foi um dos primeiros sinais da desestalinização, nos anos 60.
Que influência teve essa conferência na reabilitação de Kafka?
Agnieszka Holland: Quando a Primavera de Praga foi esmagada pelos tanques soviéticos, Kafka voltou a deixar de ser publicado. Na prática, a sua presença na cidade onde nasceu permaneceu muito discreta, quase apagada.
Com o fim do bloco soviético, Kafka voltou a ser uma referência mítica da cidade.
Agnieszka Holland: Com a chegada do capitalismo, da liberdade e da economia de mercado, os checos aperceberam-se subitamente de que Kafka era um verdadeiro tesouro turístico. Tornou-se uma das marcas mais populares da Praga turística, com museus, monumentos, inúmeros objetos de recordação, cafés, publicações e tudo o mais. Foi precisamente nessa altura que comecei também a regressar a Praga, depois de um longo período de ausência, para filmar alguns dos meus projetos. Fiquei fascinada com essa estranha presença póstuma de uma das pessoas mais reservadas e enigmáticas que existiram. Como reagiria a esta fama tão estranha, ele que nem sequer queria que a sua obra lhe sobrevivesse? Essa presença depois da morte é algo verdadeiramente bizarro.
Como é que a produção do filme se começou a desenvolver?
Agnieszka Holland: A ideia surgiu quando conheci a produtora checa Šárka Cimbalová. Tínhamos feito juntos o filme «Charlatan» e a colaboração foi excelente. Percebi que ela, juntamente com os restantes coprodutores, me daria confiança, liberdade e os recursos necessários para realizar um filme que não fosse uma biografia convencional.
Esse é precisamente um dos aspetos mais interessantes do filme, escapar a uma biografia convencional.
Agnieszka Holland: A vida de Kafka está tão distante de uma narrativa biográfica tradicional que seria quase uma traição contá-la dessa forma. Por isso decidimos experimentar. Fizemos um filme não linear, composto como um conjunto de peças de um puzzle, de fragmentos, tentando reconstruir Kafka a partir da forma como ele fala comigo e com a modernidade.
Nessa experimentação narrativa procurou encontrar na própria escrita de Kafka ideias sobre a forma de construir o filme?
Agnieszka Holland: Sim, tanto na sua ficção como nos diários e nas cartas. Kafka escreveu muito mais diários e correspondência do que propriamente obras de ficção. Ambos são fundamentais para o compreender, ou pelo menos para nos aproximarmos dele. Diria até que poderia ter chamado ao filme «À Procura de Franz», porque foi realmente um processo de busca. Procurei, nesses fragmentos, algum reflexo de uma verdade mais profunda. Naturalmente, nunca sabemos se chegamos verdadeiramente à verdade. No entanto, durante a realização do filme tive a sensação de que nos estávamos realmente a aproximar dele. Foi um trabalho extremamente estimulante, tanto para mim como para toda a equipa.
O Idan Weiss foi a sua primeira escolha ou houve um longo processo de casting?
Agnieszka Holland: A diretora de casting enviou-me gravações de três ou quatro atores e o Idan Weiss estava entre eles. Mas foi imediatamente evidente que ele era uma espécie de milagre, daqueles que, por vezes, acontecem apenas uma vez na vida de um realizador. A história tem ainda um lado muito estranho. A diretora de casting era uma das mais prestigiadas da Alemanha. Respondi-lhe imediatamente, dizendo que precisava de conhecer o Idan o mais depressa possível. Ela não me respondeu durante uma semana. Depois passou outra semana e comecei a contactar os coprodutores alemães, preocupada. Foi então que me disseram que ela tinha morrido. De certa forma, aquele foi o seu derradeiro presente para mim.

De todos os livros escritos por Franz Kafka, qual é o seu preferido?
Agnieszka Holland: Tenho um carinho muito especial pelos romances mais longos, «O Processo» e «O Castelo». Mas «O Processo» é particularmente importante para mim e, infelizmente, continua a ser extremamente atual, .do ponto de vista político, porque estamos a entrar numa época em que a lei se torna completamente arbitrária e autoritária, e em que o ser humano fica totalmente alienado de qualquer possibilidade de decidir o seu próprio destino. Foi precisamente essa situação que levou Kafka a tornar-se uma referência fundamental para os existencialistas, como Jean-Paul Sartre ou Albert Camus. O que encontraram na sua obra voltou, infelizmente, a tornar-se muito relevante nos dias de hoje. Ao mesmo tempo, há também muito humor em Kafka.
Ao longo da sua carreira, já se tinha cruzado com a obra de Kafka?
Agnieszka Holland: Nos anos 80 encenei «O Processo» para a televisão polaca e foi uma grande aventura adaptá-lo, desconstruí-lo e reconstruí-lo. Na verdade, sempre que releio esse romance fico profundamente entusiasmada. Gosto também muito dos seus textos muito curtos, dos apócrifos, dos aforismos e das pequenas narrativas de uma única página. São, para mim, uma espécie de nova Bíblia. Podemos lê-los vezes sem conta, tal como os judeus leem a Torá, descobrindo sempre novos significados.
Há outros dos seus livros que recomendaria?
Agnieszka Holland: Gosto praticamente de toda a sua obra. Gosto de «América», gosto de «A Metamorfose». E gosto muito de «Na Colónia Penal», que incluímos no filme. Foi esse texto que fez de Kafka um verdadeiro profeta. As pessoas que descobriram Kafka depois da Segunda Guerra Mundial tinham dificuldade em acreditar que ele o tivesse escrito décadas antes. Parecia um texto escrito já depois da guerra. É preciso lê-lo para perceber isso.
Fez filmes sobre Beethoven, Rimbaud e agora Kafka. As vidas dos artistas parecem atraí-la particularmente. São sempre interessantes, do ponto de vista dramatúrgico?
Agnieszka Holland: É uma coincidência curiosa, digo sempre que não vou voltar a fazer filmes sobre figuras históricas, sobretudo artistas. Mas, de alguma forma, essa necessidade acaba sempre por regressar. No caso de Beethoven, recebi um argumento que não era perfeito. O que realmente me fascinou foi perceber que a verdadeira personagem era a música. Para mim, que nem sequer sou particularmente musical, embora goste de música clássica e de música clássica contemporânea, poder aproximar-me daquela música de uma forma tão intensa e profunda e tentar traduzi-la para imagens foi uma aventura verdadeiramente única.
E no caso do filme sobre Rimbaud?
Agnieszka Holland: Tudo começou com o extraordinário argumento de Christopher Hampton. Escreveu a peça quando tinha apenas vinte e um anos e, muitos anos depois, adaptou-a ao cinema. Eu própria era profundamente fascinada por Rimbaud quando tinha vinte anos. Por isso, encontrámo-nos praticamente na mesma fase da vida. Foi uma procura comum de um certo significado da juventude, uma época em que também nós imaginávamos sermos génios. Foi uma experiência muito especial. Gostei de todos esses filmes e todos eles representaram uma grande viagem para mim. Não me arrependo de nenhum. E talvez ainda faça mais um filme sobre outra figura célebre. Quem sabe.

É realizadora, produtora, desempenhou um papel importante na Academia Europeia de Cinema. Como vê a situação atual do cinema europeu?
Agnieszka Holland: Estamos a atravessar uma crise, e toda a gente o percebe. É uma crise provocada pelas novas tecnologias e pelas novas formas de distribuição. A exibição nas salas de cinema está a tornar-se um pouco como a ópera: é cada vez mais difícil gerar receitas verdadeiramente significativas através das salas, embora eu não esteja convencido de que esse processo seja irreversível. Além disso, a pandemia foi um golpe muito duro, que veio agravar uma transformação que já estava em curso. E, naturalmente, toda a gente tem medo da Inteligência Artificial.
Qual é a sua posição face à utilização da Inteligência Artificial no cinema?
Agnieszka Holland: Penso que a Inteligência Artificial representa um perigo muito maior para os jornalistas, para os políticos e para a própria situação política do que para os artistas. Para um artista pode ser uma ferramenta extraordinária, capaz de tornar possível aquilo que, de outra forma, seria impossível realizar. É um pouco como a energia atómica: pode ser utilizada em benefício da humanidade ou para a sua destruição. A Inteligência Artificial é semelhante: uma ferramenta de dois gumes. Por isso, não é a Inteligência Artificial que mais me preocupa. O que realmente me preocupa é a mediocridade.
Como é que explica termos chegado a este momento?
Agnieszka Holland: Vivemos numa época extremamente complexa, enquanto a revolução das redes sociais e da internet simplificou tudo e polarizou tudo. Não vejo grandes artistas capazes de enfrentar essa onda de medo e de mediocridade. E isso não acontece apenas no cinema. No cinema, porém, é particularmente visível, porque quase toda a gente consome narrativas audiovisuais. No geral, o conteúdo e a substância tornaram-se muito frágeis. Felizmente continuam a existir exceções, mas são demasiado raras para criarem um verdadeiro movimento.
Também trabalhou muito para televisão. Sente a mesma liberdade quando trabalha para a televisão ou para o cinema?
Agnieszka Holland: Depende da televisão. Na época em que a HBO era verdadeiramente um novo meio, era possível fazer projetos muito ousados e com grande liberdade. Hoje penso que toda a gente tem medo. Todos receiam abordar temas ou formas de expressão que possam ser considerados controversos. Ora, é precisamente da controvérsia que a arte se alimenta.
De onde vem esse medo, das regras do mercado?
Agnieszka Holland: As plataformas têm receio porque sabem que, se abordarem determinados temas, não apenas políticos, mas também sociais, correm imediatamente o risco de perder metade do público. Por isso preferem escolher caminhos intermédios, opções seguras, histórias agradáveis ou, por vezes, simplesmente violentas, mas comercialmente apelativas. É muito difícil encontrar atualmente uma plataforma que conceda verdadeira liberdade para criar algo realmente substancial.

Começou a sua carreira mantendo uma relação muito próxima com Andrzej Wajda. Este ano celebra-se o centenário do seu nascimento. Como assinalou essa data?
Agnieszka Holland: Estive presente na celebração do seu aniversário, em Cracóvia. Foi uma cerimónia organizada pela sua viúva, Krystyna Zachwatowicz-Wajda, de quem sou muito próxima, tal como fui muito próxima do próprio Andrzej. Os dois criaram o Centro Japonês de Cracóvia, um centro cultural que construíram praticamente do zero com o dinheiro de um prémio recebido no Japão. Hoje é um espaço extremamente vivo, onde se realizam exposições, encontros e inúmeros acontecimentos culturais. Foi aí que celebrámos verdadeiramente o seu aniversário. Depois disso tenho procurado, tanto quanto possível, continuar a falar dele, apresentar os seus filmes e também os filmes que fizemos juntos.
Como é que definiria Andrzej Wajda?
Agnieszka Holland: Para mim, Andrzej Wajda foi um homem extraordinário e um realizador excecional. O seu legado é imensamente rico, porque permaneceu criativo até ao fim da vida. Não realizou apenas filmes: fez teatro, desenhou, concebeu inúmeros projetos que nunca chegaram a concretizar-se, mas que hoje, quando os conhecemos, continuam a ser fascinantes. Criou igualmente uma escola de cinema para formar novos realizadores e desenvolveu muitas outras iniciativas. Os seus cadernos e diários foram publicados há cerca de dois anos. Não na íntegra, mas já numa edição muito extensa. Foi uma grande surpresa para muita gente.
E como era, não como artista, mas como pessoa?
Agnieszka Holland: Na vida quotidiana era uma pessoa extremamente discreta e educada. Contudo, ao ler esses diários, percebe-se até que ponto era exigente e crítico, tanto em relação aos colegas como aos filmes de outros realizadores e, sobretudo, em relação aos seus próprios filmes. Era impiedoso consigo mesmo. Desmontava-se completamente em cada análise que fazia do seu trabalho.



