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Pequenos Pecados – Jara Sofija Ostan

Jara Sofija Ostan, a jovem protagonista de «Pequenos Pecados», da eslovena Urska Djukic, esteve em Portugal e falou à METROPOLIS.

É uma das surpresas do ano. Depois de passagem pela secção Perspectives da Berlinale, chegou às nossas salas «Pequenos Pecados», filme de estreia da eslovena Urska Djukic e candidato do país à pré-seleção dos Óscars. O filme tem como personagem central Lucija, uma jovem de 16 anos, educada de forma conservadora, e que canta no coro da escola católica que frequenta. Os dias que vai passar com colegas e o professor de canto num convento isolado vão fazer com que se confronte pela primeira vez com o desejo sexual, ao mesmo tempo que enfrenta os dilemas da Fé. Com 16 anos na altura das filmagens, como a personagem que interpreta, Jara Sofija Ostan enche o ecrã, filmada pela realizadora de uma forma quase bressoniana. A jovem atriz esteve em Portugal a acompanhar a estreia do filme e falou à METROPOLIS.

A Jara tinha apenas 16 anos quando foi escolhida para interpretar a Lucija. A personagem também tem 16 anos. Até que ponto se identifica com ela?

Jara Sofija Ostan: Na altura identificava-me muito com ela, porque acho que passa por muitas das coisas que a adolescência traz. E essas eram precisamente as questões com que eu também estava a lidar nessa fase da minha vida. Estava a tentar perceber o mundo à minha volta, encontrar o meu lugar, compreender onde é que me encaixava. Ao mesmo tempo, acho que isso também tornava tudo um pouco mais difícil durante as filmagens, porque havia momentos em que era complicado sentir determinadas emoções diante da câmara. Tornava-se confuso separar quem era eu e quem era a Lucija, perceber onde terminava a personagem e onde começava a minha própria identidade.

As duas são assim tão semelhantes?

Jara Sofija Ostan: Havia muitas coisas com as quais me identificava, sobretudo essa sensação de que a adolescência é uma fase muito estranha da vida, em que nada é realmente certo e em que surgem experiências e sentimentos completamente novos. Mas também havia aspetos que nos tornavam muito diferentes.

Até que ponto a sua família a apoiou na decisão de fazer o filme?

Jara Sofija Ostan: Tenho uma família com quem me dou extremamente bem. São pessoas muito abertas e dão-me liberdade para descobrir as coisas por mim própria. Sobretudo a minha mãe, que sempre foi uma espécie de minha agente, mas nunca de uma forma controladora, sempre numa perspetiva de apoio. Se eu quisesse dedicar-me à pintura, à música ou à dança, ela apoiava-me sempre. Claro que o meu pai também, mas era com a minha mãe que conversava mais sobre essas decisões.

Ainda era menor quando fez o filme. Os seus pais estiveram sempre presentes?

Jara Sofija Ostan: Quando surgiu a oportunidade de fazer este filme, a minha mãe apoiou-me desde o primeiro momento e disse-me que estaria ao meu lado qualquer que fosse a minha decisão, desde que fosse realmente aquilo que eu queria fazer. Quando lhe disse: “Sim, vou fazê-lo”, respondeu apenas: “Perfeito.” Acompanhou-me e apoiou-me durante todo o processo. Foi uma experiência muito bonita saber que tinha esse apoio em casa e sentir essa segurança.

A realizadora explicou-lhe porque a escolheu?

Jara Sofija Ostan: Na primeira fase do casting enviámos apenas um vídeo de apresentação, uma pequena gravação em que nos apresentávamos. Ela recebeu cerca de 60 vídeos e, nessa altura, já estava inclinada para me escolher. Claro que o aspeto físico também teve influência, mas ela dizia que reconheceu em mim um determinado tipo de energia que queria que a Lucija tivesse.

Depois houve um casting presencial?

Jara Sofija Ostan: Sim, e a Urska percebeu que era exatamente aquilo que procurava, uma energia jovem, sensível e um pouco tímida, que eu também tinha nessa altura. Isso foi perfeito para ela, porque acho que todos os atores acabam por levar uma parte de si para as personagens. Está tudo muito interligado e cada personagem acaba por se tornar um pouco nossa. Por isso, penso que o mais importante é procurar uma determinada energia, e não apenas a aparência física ou a forma como alguém diz uma fala. O essencial é encontrar essa camada mais profunda da pessoa: será que tem uma energia semelhante? É esta a energia que quero para esta personagem?

O facto de ter formação musical também ajudou na escolha da realizadora?

Jara Sofija Ostan: Sinceramente, acho que não. No entanto, no casting tivemos de cantar. Todas as raparigas tiveram de preparar uma canção e eu escolhi “Back to Black”, da Amy Winehouse, o que foi uma escolha completamente louca, porque é uma música muito difícil de cantar da forma como ela a interpreta. Ninguém consegue fazê-lo como ela. Mas nunca fui propriamente cantora. Estudei violoncelo durante cerca de doze anos, mas nunca cantei de forma séria. O que me ajudou foi ter formação teórica em música, conseguir manter a afinação, conhecer a melodia e essas bases. Acho que isso foi útil, mas mais tarde tive de ter bastante formação adicional para aprender a cantar.

Como foi trabalhar com a outra jovem atriz?

Jara Sofija Ostan: A Mina [Svajger] e eu conhecemo-nos muito antes das filmagens, talvez seis meses ou até um ano antes, porque fizemos um teste de imagem bastante tempo antes de começarmos a rodar. Demo-nos muito bem desde logo e continuamos amigas até hoje.

E como é que decorreram as filmagens?

Jara Sofija Ostan: Foi uma experiência completamente nova para mim. Foi fascinante perceber como tudo funciona, a iluminação, a preparação das câmaras, o tempo que demora a montar cada plano e a preparar cada mudança. Foi aí que percebi que o cinema é realmente uma arte que adoro e pela qual tenho uma enorme paixão. Foi uma experiência maravilhosa. Aprendi imenso sobre mim própria e também mudei muito por causa dela.

Ficou surpreendida com o sucesso internacional do filme?

Jara Sofija Ostan: Talvez não surpreendida. Eu acreditava que o filme iria ser muito bom. Mas, quando fazemos um projeto, é melhor não criar expectativas demasiado elevadas, porque, se as coisas correrem mal, a desilusão é enorme. Por isso decidi não pensar nisso. Disse para mim própria que esperaria pela estreia e depois veria como o público reagia, se gostava do filme, como me veria no ecrã e como tudo seria recebido. Tentei não criar expectativas demasiado grandes. Quando o filme estreou, foi tudo muito intenso. Começaram a acontecer coisas extraordinárias, muitos festivais, a candidatura aos Óscares, a estreia na Berlinale. Foi difícil assimilar todo aquele sucesso. Mas fiquei muitíssimo feliz, claro.

Imagino que já tenha assistido a muitas exibições do filme. O que é que raparigas da sua idade costumam dizer-lhe depois de verem o filme?

Jara Sofija Ostan: Sobretudo as raparigas — embora também alguns rapazes — compreenderam muito bem o filme. Conseguem reconhecer dentro delas próprias os sentimentos que o filme transmite e rever-se naquela idade e naquela fase da vida. Normalmente ficam muito emocionadas, porque este é um tema sobre o qual não se fala muito. Além disso, para o público esloveno foi algo bastante novo, abordar a sexualidade feminina, a descoberta do prazer, do amor e da própria sexualidade. As raparigas aproximam-se muitas vezes de mim muito emocionadas e felizes por termos contado uma história sobre as expectativas que recaem sobre uma jovem mulher, ser um bom exemplo, comportar-se como toda a gente espera, não fazer nada considerado estranho, impróprio ou inesperado. No geral, recebo comentários muito positivos sobre o filme.

Como correu a sessão em Lisboa?

Jara Sofija Ostan: Correu muito bem. Trouxe alguns amigos portugueses e acho que o público gostou bastante. No final também disse algumas palavras. Foi muito bonito ver o filme aqui.

Então tem amigos portugueses. Qual é a sua ligação a Portugal?

Jara Sofija Ostan: Conheci alguns atores portugueses num festival organizado pela minha agência, o Subtitle Festival. Conhecemo-nos lá, tornámo-nos muito amigos e, quando soube que o filme ia passar em Portugal, escrevi-lhes a perguntar se podia ficar em casa deles para irmos todos ver o filme juntos. Ficaram muito entusiasmados e estou a aproveitar muito esta visita precisamente por poder estar com eles.

Entretanto já fez uma segunda longa-metragem. A representação é mesmo aquilo que quer fazer na vida?

Jara Sofija Ostan: Neste momento, sim. Sei que quero trabalhar no cinema porque adoro este universo como um todo. Talvez um dia me canse de representar ou sinta vontade de experimentar outra coisa, mas continuarei certamente ligada ao cinema. Posso realizar, ser diretora de fotografia ou desempenhar qualquer outra função dentro da indústria. Vou simplesmente deixando que a vida me leve e vendo para onde o caminho me conduz.

Como vê o estado atual do cinema esloveno, na perspetiva de uma jovem atriz?

Jara Sofija Ostan: O cinema esloveno tem vivido um período muito positivo nos últimos dois ou três anos. Tem havido uma grande evolução, com filmes muito bem recebidos em festivais internacionais e a conquistar prémios. Nos últimos anos surgiram também várias jovens realizadoras eslovenas a estrear longas-metragens que têm sido distinguidas internacionalmente. Tem sido, de certa forma, um ano das mulheres no cinema, algo de que gosto muito. Acho sinceramente que o cinema esloveno está a evoluir muito bem. Tenho orgulho na forma como está a crescer, no trabalho que as pessoas estão a desenvolver e na coragem de contar histórias novas e difíceis, que ainda ninguém tinha contado.

A sua personagem chama-se Lucija, está em Portugal e o filme também aborda a religião. Há uma ou duas cenas com a imagem da Virgem Maria. Lúcia foi a única sobrevivente das chamadas aparições de Fátima, em 1917.

Jara Sofija Ostan: Talvez não tenha sido exatamente essa a origem do nome, mas também acho que Lucija é um nome com uma forte conotação religiosa, como Santa Luzia. Além disso, penso que o nome significa “luz”. Por isso, acredito que existia uma ligação entre o nome e a personagem. Não foi uma escolha feita ao acaso. A Urška nunca me explicou tudo de forma totalmente direta. Havia muitas coisas que fui percebendo e que afinal não eram coincidências. Mas tenho a certeza de que o nome foi escolhido de forma muito pensada.

João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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