Em «Cinco Segundos», o realizador italiano Paolo Virzì abandona o habitual tom irónico de filmes como «Tutta la Vita Davanti» ou «La Pazza Gioia» para narrar uma história emotiva sobre culpa, perda e redenção. Adriano, interpretado por Valerio Mastandrea, é um homem rabugento e solitário que decidiu refugiar-se no campo, nuns estábulos de uma villa recuperados, tentando apagar o homem que foi outrora. Em frente, o palacete da villa é ocupado por um grupo de jovens que quer fazer florescer novamente os vinhedos abandonados. Entre eles, a “líder” Matilde (Galatea Bellugi) é a neta do conde, antigo proprietário da herdade, e todos os outros são jovens formados nas melhores universidades europeias que perseguem um sonho utópico de uma comunidade que promove a inclusão e vai fazer vingar o melhor vinho de sempre.
A força de «Cinco Segundos» está precisamente na relação que Adriano vai construindo com Matilde, mesmo quando está desesperado por silêncio e isolamento. Ao mesmo tempo que esta relação cresce, vamos também decifrando que passado trágico foi vivido por este advogado de renome que agora é acusado do maior dos crimes.
Virzì não tem pressa de mostrar tudo, mas também não nos deixa sem respostas e, no meio do enredo factual, ressurge o verdadeiro impacto emocional sobre a perda, o luto e a coragem de assumir algo involuntário, mesmo quando, em última instância, apenas se procurava proporcionar momentos de normalidade e pura felicidade.
Com prestações irrepreensíveis de Valerio Mastandrea e Valeria Bruni Tedeschi, atores que costumam trabalhar com Paolo Virzì e que foram distinguidos com nomeações para os prémios italianos David di Donatello de 2026, nas categorias de Melhor Ator e Melhor Atriz Secundária, «Cinco Segundos» recebeu, ainda, nomeações para Melhor Filme e Melhor Argumento Original – coescrito com Carlo Virzì (irmão de Paolo) e Francesco Bruni, colaborador histórico de Paolo desde os tempos da escola de cinema –, naqueles que são considerados os Óscares italianos.
Carlo Virzì é também ele, como em muitos dos filmes de Paolo Virzì, o maestro que orquestra a banda sonora e a introduz na história como um elemento discreto, mas incontornável. Também a fotografia de Luca Bigazzi é um ponto de referência, trazendo-nos uma Toscana gelada por um inverno tão rigoroso quanto a solidão e a dor de Adriano, que vai depois brotando e aquecendo, como que acompanhando o renascimento da vinha cultivada pela comunidade de jovens. O diretor de fotografia é responsável por filmes como «A Grande Beleza», «A Juventude», «Este é o Meu Lugar» ou «O Último Padrinho».
Em «Cinco Segundos», Paolo Virzì traz um drama que afeta um pai que sofre a maior das dores, mas que redescobre o poder do amor e do cuidado, mesmo quando os laços de afeto não são de sangue. Traz o valor do perdão e o poder de persistência do amor incondicional de um pai por um filho, mas também mostra que nem sempre a maternidade ou a paternidade são aceites e envolvidas nesse amor incondicional. Ao mesmo tempo, o realizador italiano não deixa de fazer um retrato da Geração Z, lembrando que até os seus ideais mais nobres podem vacilar quando confrontados com a realidade. A vida faz-se em comunidade, todos são formados em grandes universidades e têm uma visão orgânica da relação com a natureza, inspirada nos princípios da permacultura. Todos são o que querem ser, a liberdade é total, mas o conservadorismo ainda trava duras batalhas com esse modelo. No final, a verdade é que esse modelo também pode falhar e, com as suas falhas e virtudes, todos vão tentando ocupar o seu lugar nesta vida, o melhor que sabem, a cada momento. Mas algo é certo: novas vidas nascerão, outras perder-se-ão, iremos trair, perdoar, perder e ganhar, seremos condenados ao insucesso sempre que tentarmos ser bem-sucedidos, mas, enquanto existir amor, seja qual for a sua versão, estaremos todos a salvo.
Título original: Cinque Secondi
Realização: Paolo Virzì
Elenco: Valerio Mastandrea, Galatea Bellugi, Valeria Bruni Tedeschi, Ilaria Spada
Duração: 105 m
Ano: 2024



