Durante anos achámos que a maior ameaça aos brinquedos era o esquecimento: uma caixa no sótão, uma mudança de casa, um irmão mais novo com mãos pegajosas. Afinal, a ameaça vinha com ecrã táctil, bateria e aplicações coloridas. «Toy Story 5» percebe isso com a crueldade doce que a Pixar domina: faz-nos rir dos bonecos, enternecer com Jessie, desconfiar do tablet e, no fim, sentir uma culpa doméstica tão familiar como migalhas no sofá.
A história podia ser só mais uma reunião de família. Woody regressa, Buzz continua a disparar bravura como quem perdeu o manual de instruções, Jessie assume o centro emocional e Bonnie, agora mais crescida, descobre Lilypad, um tablet que promete aquilo que os brinquedos nunca prometeram: resposta imediata, estímulo constante, entretenimento sem negociação, mundos prontos a usar. O velho faz-de-conta fica no chão, a perguntar se ainda tem lugar numa infância que já sabe fazer scroll antes de saber atar os atacadores.
O filme acerta porque não transforma a tecnologia numa besta apocalíptica. Não há sermão de associação de pais, panfleto contra os ecrãs ou nostalgia a fingir que as crianças de antigamente liam Eça de Queiroz debaixo de uma oliveira. Antes dos tablets houve televisão a mais, consolas a mais e desenhos animados a mais. A humanidade tem esta beleza: cada época acha que inventou o fim da infância.

Lilypad, a rã digital, não é o problema. O problema somos nós, que demos o sapo à criança para ela comer a sopa, ficar quieta no restaurante, não interromper o telefonema, não gritar no carro, não nos obrigar a ser pais durante cinco minutos inteiros. Depois fingimos espanto quando o boneco de pano perde a guerra contra um ecrã luminoso. É como deixar um gelado em cima da mesa e culpar a criança por ter lambido a História.
Por baixo da batalha entre plástico e pixels, «Toy Story 5» encontra uma ideia comovente sobre a substituição. Jessie sabe o que significa deixar de ser escolhida. Já esteve no fundo da caixa, já conheceu o abandono, já teve aquela ferida antiga que «Toy Story 2» nos deu com uma canção e duas bofetadas sentimentais. Aqui, a luta contra Lilypad não é a guerra da bonecada contra o progresso. É a defesa de uma infância que precisa de chão desarrumado, histórias absurdas e bonecos que só ganham vida quando uma criança lhes empresta a voz.
Essa é a diferença essencial. O tablet oferece mundos. O brinquedo exige que a criança os invente. O tablet responde. O brinquedo espera. O brinquedo obriga a negociar, perder, recomeçar, emprestar, gritar “agora sou eu”, aceitar que a nave espacial é afinal uma almofada e que o vilão pode ser uma meia solitária. Brincar é aprender a viver com os outros. O ecrã, quando passa a ama electrónica, poupa trabalho aos adultos, mas rouba fricção às crianças.
Visualmente, a Pixar continua a fazer milagres com coisas pequenas: o brilho de um olho de plástico, o medo estampado num boneco, a solidão de um quarto infantil quando a criança já não olha para ele da mesma maneira. Há gags, correria e Buzz em modo catástrofe organizada. Mas há também aquele golpe baixo habitual: a sensação de que não vemos apenas brinquedos em perigo, mas uma parte de nós a ser guardada numa gaveta.
«Toy Story 5» funciona melhor quando deixa de parecer uma sequela inevitável e passa a questionar com exactidão: o que acontece à imaginação quando tudo vem pronto, colorido, recomendado e actualizado? A resposta não é desligar tudo e voltar à idade da pedra. A resposta é devolver cada coisa ao seu lugar. Um tablet pode abrir janelas. Não deve fechar o quarto. Pode ser ferramenta. Não pode ser companhia única.
No fim, saímos com vontade de abraçar filhos, pedir desculpa aos brinquedos, reduzir o tempo de ecrã, procurar um boneco antigo e, inevitavelmente, olhar para o telemóvel. Somos ridículos, contraditórios e humanos. A Pixar sabe disso desde 1995. E continua a brincar connosco como se também fôssemos bonecos: puxa-nos a corda, faz-nos falar, faz-nos rir e, quando já estamos distraídos, deixa-nos a chorar no escuro.
Título Original: Toy Story 5
Realização: Andrew Stanton
Com: Vozes de Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Greta Lee, Tony Hale, Conan O’Brien, Annie Potts e Keanu Reeves
Origem: Estados Unidos
Duração: 102 minutos
Ano: 2026
Género: Animação / Comédia / Aventura familiar
Photo by Pixar/Pixar – © 2026 Disney/Pixar. All Rights Reserved.



