Em «Franz», Agnieszka Holland aproxima-se de Franz Kafka não através das convenções do biopic literário tradicional, mas por meio de fragmentos, sensações e contradições. Oscilando entre a reconstrução histórica e a reflexão contemporânea, o filme apresenta Kafka como uma figura simultaneamente intensamente física e profundamente elusiva. Encontramos um homem moldado tanto pelo desejo, pela vulnerabilidade e pela percepção quanto pela mitologia construída em torno do seu nome. Nesta conversa com a METROPOLIS, Holland fala sobre a função moral do corpo no cinema, a mercantilização de Kafka na Praga contemporânea e as razões pelas quais a visão do escritor parece hoje tão inquietantemente actual.
Há aquela famosa entrada de diário do Kafka que diz: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, fui nadar.”
Agnieszka Holland: Algo que é muito revelador de quem ele era.
Absolutamente! O seu filme parece construir-se precisamente em torno dessa coexistência entre o absurdo histórico e o ritual quotidiano. Vê essa dissociação como algo especificamente kafkiano ou fundamentalmente humano?
Agnieszka Holland: Acho que é humano. Quer dizer, não penso que as pessoas de hoje estejam realmente ligadas aos acontecimentos mais importantes da realidade. E os desafios contemporâneos mais perigosos ou dramáticos parecem menos importantes do que certas fake news, a vida quotidiana ou experiências privadas muito banais. Somos construídos assim. Só quando a realidade nos dá uma bofetada é que acordamos, olhamos em volta e percebemos o que está a acontecer. Mas com Kafka era mais complexo, porque aquilo que ele escrevia, aquilo que ele era, a sua visão — porque ele escrevia uma espécie de visão e isso refletia-se na sua prosa — tinha uma enorme lucidez. Ele dizia as coisas como eram. Não falava muito da sua vida privada, nem nos diários nem nas cartas. Aí comunicava sobretudo sentimentos íntimos, movimentos interiores, tremores. Mas quando lemos aquilo que escreveu enquanto escritor, percebemos uma visão muito clara da realidade e da humanidade.
Parece-me que o seu filme resiste constantemente à tentação de explicar Kafka. Hoje existe um forte impulso cultural para transformar qualquer figura histórica numa psicologia totalmente transparente. Até que ponto «Franz» é também uma resistência a essa obsessão contemporânea de decifrar completamente as pessoas?
Agnieszka Holland: Ele foi um dos escritores que mais se auto-analisou. Descrevia cada pequeno movimento da sua alma, das emoções e do corpo nos diários e nas cartas. Por isso, podemos imaginar que sabemos tudo sobre ele, mas na verdade não sabemos. E esse paradoxo é também uma linha narrativa do filme: aproximamo-nos dele e, de repente, percebemos que não sabemos nada. Acho que isso diz respeito a toda a gente. Mal nos conhecemos a nós próprios. E temos uma visão muito exterior dos outros seres humanos, muito estreita e superficial. Mesmo os grandes escritores psicológicos, como Dostoiévski, Thomas Mann ou Stendhal, construíam uma visão das personagens e brincavam aos deuses fingindo conhecê-las totalmente, mas no fundo falavam de si próprios. É sempre uma projeção.

Em vários momentos, Kafka parece menos uma personagem central e mais uma consciência que absorve o mundo em redor. Abordou o filme mais como uma biografia ou como uma experiência perceptiva?
Agnieszka Holland: Ambos. A construção do filme é linear, mas não segue uma causalidade convencional. Muitas vezes é fragmentada. Não é aquela narrativa clássica em que algo acontece e depois vem a consequência desse acontecimento, e assim sucessivamente. São mais flashes, fragmentos, peças de um puzzle. E, por causa dessa construção caleidoscópica, aproximamo-nos dele, depois rodamos o caleidoscópio e vemos tudo de outra forma. É mais uma procura. Não é storytelling tradicional. É procurar por ele. Aproximamo-nos, vemos uma pequena situação, temos a impressão de olhar pelos seus olhos e de repente pensamos que percebemos. Depois deixamos de perceber. É um jogo constante.
Sim, senti isso ao ver o filme. O que está a dizer agora corresponde exatamente ao que pensei. Falando de Kafka, um dos aspetos mais marcantes do filme é a sua fisicalidade. O corpo aparece vulnerável, desejante, doente, exposto. Sentiu necessidade de resgatar Kafka daquela imagem quase desencarnada do intelectual ascético?
Agnieszka Holland: A iconografia de Kafka é muito conhecida. Ele desenhava-se a si próprio e existem muitas representações dele, além das fotografias. Mas a imagem dominante é a de alguém curvado, muito magro, sombrio, escondido nas sombras. E acho que isso não é correto. Queríamos tirá-lo dessa sombra, desse canto, e colocá-lo na luz e nas cores. Não queríamos de todo fazer um filme a preto e branco nem cair nesse estereótipo. Na realidade, ele tinha medo do próprio corpo e não gostava dele, mas ao mesmo tempo queria amar esse corpo. Portanto, o corpo era muito importante para ele. Tinha uma relação tão ambígua com o corpo quanto com a alma e com a realidade. Mas também podia ser uma pessoa divertida. Claro que reli tudo outra vez antes do filme: a obra, os diários, as cartas. Já os tinha lido muitas vezes ao longo da vida.
E, olhando para isso através da psiquiatria ou psicologia modernas, hoje diria que Franz estava claramente algures no espectro. Tornou-se muito evidente quando juntamos todas as peças. E aconteceu algo engraçado quando mostrámos o filme pela primeira vez em Varsóvia a um público selecionado antes da estreia. A primeira pergunta veio de um jovem na primeira fila. Disse-me: “Fez um filme sobre a pessoa autista mais famosa da história. A senhora é uma de nós?” [risos]
[risos] Sim, isso nota-se. Mas a minha questão vinha mais do facto de grande parte do que li sobre Kafka o retratar como uma espécie de asceta, quase assexual, praticamente um eunuco. Achei interessante que tenha explorado não só essa dimensão do espectro, mas também a sexualidade e a nudez. E a minha pergunta seguinte é: em «Franz», a nudez nunca parece provocatória, serve quase sempre uma função emocional, como acontece em muitos dos seus filmes. O cinema contemporâneo parece dividido entre puritanismo e voyeurismo. Era importante encontrar uma terceira via?
Agnieszka Holland: Sim. A nudez no filme vai mudando ao longo da narrativa. No final, quando ele morre, vemos Franz numa espécie de sonho ou paraíso, nu com outros homens nus, a brincar na relva, felizes. Era uma libertação. Mas quando filmámos essa cena, já perto do final das filmagens, o actor Idan Weiss, que interpreta Franz e que não tem apenas semelhanças físicas mas também uma sensibilidade muito próxima, aproximou-se de mim e disse: “Por favor, não quero estar nu nesta cena.” Perguntei porquê, já que ele tinha estado nu antes. E ele respondeu: “Mas aqui há muitos homens jovens à minha volta. Tive um trauma quando era adolescente. Fui atacado, arrancaram-me a roupa, e depois tive uma depressão profunda durante muito tempo. Isto desencadeia isso em mim.” Então disse-lhe: “Claro, se for tão difícil para ti, pomos alguma coisa ou escondo-te completamente na relva alta. Mas não posso simplesmente dar-te umas calças, porque a cena é precisamente sobre libertar-se desses medos.” Começámos a ensaiar com uma peça a cobri-lo e, durante os ensaios, ele veio ter comigo e disse: “Posso ficar nu.” Libertou-se durante o processo. E eu queria isso também para Franz. Sempre senti vontade de o ajudar. Já quando tinha 14 ou 15 anos, ao lê-lo pela primeira vez, fantasiava que ele era meu irmão, que eu o compreendia melhor do que os outros e que podia ajudá-lo exatamente naquilo de que precisava. Isso ficou muito pessoal para mim. Tenho muita ternura por aquele jovem. Um pouco de irritação às vezes, mas sobretudo amor e ternura.

Consigo perceber totalmente isso. E não é só a nudez: o corpo nos seus filmes ocupa sempre um lugar central. Em «Europa Europa», «In Darkness/Na Escuridão» ou «Green Border/Zona de Exclusão», a História é vivida fisicamente através do medo, da doença, da fome, da sexualidade, da exaustão. «Franz» parece semelhante nesse sentido. O corpo é a sua forma de entrar na História?
Agnieszka Holland: Acho que quando estamos nus, despidos de todos os disfarces, conseguimos ver o outro como alguém semelhante a nós. Passamos a vida a tentar encontrar alguém que esteja realmente próximo de nós, ao ponto de não termos medo dessa pessoa. E quando estamos nus, de repente deixamos de ter máscaras. Perdemos a identidade construída pelo vestuário.
Como vimos em «Europa, Europa»…
Agnieszka Holland: Sim. E também em «Green Border», como disse. Quando o guarda fronteiriço tira a roupa no final e olha para si próprio, percebe que é apenas um ser humano. É difícil odiar alguém que está nu à nossa frente. Com uniforme, odeia-se a pessoa. Nua, quem é ela? Apenas um ser humano. Para mim, essa é também uma função moral da nudez.
Um ponto de vista muito forte. Já realizou vários filmes centrados em figuras históricas ou literárias, de Jan Palach a Gareth Jones e agora Kafka. O que a atrai na biografia enquanto forma, tendo em conta que os seus filmes resistem constantemente às convenções do biopic tradicional?
Agnieszka Holland: Provavelmente falta de imaginação. [risos] Não tenho imaginação suficiente para construir uma realidade totalmente original. Por isso pego em pedaços da realidade e reorganizo-os à minha maneira.
Uma das coisas que mais me impressionou no filme foi a própria cidade de Praga. A Praga do passado possui quase uma textura opalina, enquanto a Praga contemporânea parece agressiva, inundada de luz e turismo. Não parece apenas um contraste temporal, mas quase moral. Como concebeu essa oposição visual?
Agnieszka Holland: A minha primeira experiência de Praga foi no final dos anos 1960, quando fui estudar cinema para lá. A cidade não estava renovada, estava muito vazia. Podíamos ir ao castelo e não encontrar praticamente ninguém, nenhum turista. E era fácil imaginar Kafka ali. Depois vieram o capitalismo, o dinheiro, as renovações e a economia de mercado. De repente ficou cheia de pessoas, turistas e gadgets. Kafka era praticamente desconhecido dos checos durante o período comunista, exceto na Primavera de Praga, porque era visto como um escritor degenerado e burguês. Não queriam publicar a sua obra. E de repente tornou-se um dos maiores produtos turísticos para vender e exibir. Praga é hoje muito mais agressiva. Tão agressiva que os próprios habitantes odeiam os turistas. Sabem que trazem dinheiro, mas ao mesmo tempo roubam-lhes a intimidade da cidade. Agora tudo está à venda. Esse é o paradoxo da economia livre: traz liberdade, mas ao mesmo tempo aprisiona as pessoas numa realidade capitalista brutal.

Sim, era precisamente isso que ia perguntar. As sequências contemporâneas são perturbadoras porque sugerem Kafka transformado num produto. Acha que existe hoje uma espécie de “indústria Kafka” que neutraliza precisamente aquilo que há de mais perturbador na sua obra?
Agnieszka Holland: Perguntei-me isso constantemente: se é algo bom ou mau. É profundamente paradoxal, porque ele era uma pessoa extremamente privada e nem sequer queria que a sua obra sobrevivesse após a morte. E de repente transforma-se numa marca, numa figura pública presente em todo o lado: T-shirts, monumentos, hambúrgueres e por aí fora. Será bom para ele? Talvez uma em cada cem ou mil pessoas que descubram Kafka através dessa atividade turística acabem por pegar num livro e lê-lo. Mas ao mesmo tempo pergunto-me o que ele diria se acordasse hoje e visse tudo isto. Ficaria assustado? Divertido? Intrigado? Não sei. Só sei uma coisa: o pai dele, Hermann, seria o homem mais feliz do planeta.
Sim, o pai dele era um pequeno burguês… [risos]
Agnieszka Holland: Tinha tanto medo de que o único filho fosse um falhado inútil, e de repente veria que ele podia render imenso dinheiro.
Exatamente. Voltando a Idan Weiss: a interpretação dele é impressionante pela contenção. Em certos momentos parece quase prestes a desaparecer dentro do enquadramento. Falou com ele sobre a ideia de um protagonista que não domina o espaço, mas é dominado por ele?
Agnieszka Holland: Falámos muito, mas a certa altura fiquei bastante confiante de que ele faria um grande trabalho. Os instintos dele são muito fortes e a semelhança com Franz não é apenas física. A sensibilidade dele aproxima-se muito das zonas de sombra de Franz, mas ao mesmo tempo ele é ativo, tem humor, há muitas coisas misturadas na cabeça e no coração do Eden. Sentia que encontraria sozinho o caminho certo se fosse orientado de forma subtil. Por isso não queria dar-lhe demasiadas indicações. Houve um momento em que, durante a preparação, ele ficou fechado sozinho no apartamento em Hamburgo. Só saía à noite e lia Kafka sem parar. Depois de dois meses assim, disse-lhe: “Não. Sai à rua. Olha para o sol. Não quero que ele fique escondido na sombra. E vê jogos de ténis do Rafael Nadal. Aquela mistura de estranheza e bondade que existe no Rafa também existe no Franz.”
Que comparação inesperada! E ainda assim quase respondeu à minha próxima pergunta. Há momentos em que Kafka observa muito mais do que age. Isso é particularmente difícil para um ator, porque o cinema costuma privilegiar personagens assertivas. Como dirigiu essa passividade sem a deixar cair na inércia dramática?
Agnieszka Holland: Acho que Franz observava as coisas de forma muito ativa. Via imensas coisas, à sua maneira, ligeiramente estranha. É como um cão que percebe o mundo de maneira diferente da nossa. A perceção de Franz era muito própria e realmente diferente. Acho que Idan compreendeu isso muito bem. Por isso nunca pareceu passivo. Estava ativamente a observar tudo.
Depois de fazer «Franz», sentiu que compreendia Kafka mais profundamente ou, pelo contrário, que ele se tornou ainda mais indecifrável para si?
Agnieszka Holland: Não posso dizer que o compreendo. Isso seria pretensioso. Mas sinto que estou mais próxima dele, que o sinto de alguma forma, como se ele tivesse estado ao meu lado durante bastante tempo. E foi uma boa presença.
Existe no filme uma tensão muito forte entre intimidade privada e violência histórica iminente. Parece-me particularmente relevante no momento actual. Vê paralelos diretos entre a Europa de Kafka e a Europa contemporânea?
Agnieszka Holland: Infelizmente, quando Kafka se torna relevante, isso geralmente significa que a História está a entrar num período perigoso. Sinto que ele voltou a tornar-se relevante de forma muito direta. Antes da Segunda Guerra Mundial, e sobretudo depois dela, as pessoas liam Kafka através da experiência do Holocausto e da guerra e diziam: “Este homem era um profeta.” Via coisas que os outros não viam. Depois tornou-se uma figura central para os existencialistas, com a alienação e tudo isso, como Camus ou Jean-Paul Sartre. Mais tarde passou a ser um escritor interpretado de formas extremamente ricas e variadas. Sempre algo obscuro, mas ao mesmo tempo fascinante. É possível usar diferentes chaves para desbloquear os romances ou a vida dele. Mas hoje está a ser lido de maneira muito política. Fala-nos como se estivesse a falar diretamente dos perigos que vivemos agora. E isso não é propriamente uma boa notícia.



