Última Edição

Novidades

Artigos Relacionados

Pelo Adam

O tempo da justiça e da burocracia não é o tempo da vida. É sobre este desfasamento que Laura Wandel constrói o seu novo filme, «Pelo Adam». Depois de «Recreio» (2021), onde a escola surgia como um espaço de tensão entre a missão de proteger e o seu potencial de violência, a realizadora belga volta a fechar-se num único espaço: as urgências pediátricas de um hospital público, para observar outro sistema essencial posto à prova.

Adam (Jules Delsart) tem apenas quatro anos e está gravemente desnutrido. A mãe, Rebecca (Anamaria Vartolomei), é negligente e coloca objetivamente a saúde do filho em risco. Mas o filme recusa a facilidade de construir grandes vilões. A verdade é que também Rebecca precisa de ajuda e ninguém parece ter tempo ou disponibilidade para olhar para ela. Quando uma decisão judicial determina que mãe e filho permaneçam separados durante dez dias, até à audiência, a distância entre a lógica institucional e a realidade torna-se evidente: uma criança não pode esperar dez dias pelo contacto com a mãe de que precisa.

É aqui que entra Lucy (Léa Drucker), enfermeira-chefe do serviço de pediatria. Sem ingenuidade, ela vai tentar contornar a rigidez das regras, arriscando a própria posição para encontrar uma solução mais humana. Wandel nunca a transforma numa heroína; apenas numa profissional que compreende que cumprir a lei nem sempre significa fazer justiça.

À sua volta, o hospital revela outros dramas: famílias migrantes que ainda não falam francês, diferenças culturais profundas, crianças que recusam voltar para casa porque o pai foi preso ou porque a mãe permanece nos cuidados intensivos. Cada cama esconde uma urgência social para lá da urgência médica. E cada uma destas histórias desperta curiosidade suficiente para ser explorada mais profundamente. Os 75 minutos do filme deixam a sensação de um formato intermédio, demasiado breve para a riqueza humana que deixa entrever.

Ainda assim, Laura Wandel consegue um feito raro: abordar negligência parental, proteção de menores, imigração, pobreza e burocracia sem cair no panfleto. No final, fica uma pergunta incómoda: quando as regras deixam de servir as pessoas, quem encontra coragem para as dobrar?

Título Nacional: Pelo Adam
Título Original: L’intérêt d’Adam
Realização: Laura Wandel
Actores: Léa Drucker, Anamaria Vartolomei, Alex Descas, Jules Delsart
Duração: 75’
Ano: 2025
Origem: Bélgica, França
Classificação: 4

Imagem: ©LauraWandel

Artigo anterior
Catarina Maia
Catarina Maia
Catarina Maia é crítica de cinema, editora de conteúdos e investigadora independente. Escreve regularmente para a revista METROPOLIS desde 2013, entre críticas, entrevistas e ensaios sobre cinema contemporâneo, cultura visual e cinema de autor. Licenciada em Estudos Artísticos e pós-graduada em Estudos Fílmicos e da Imagem pela Universidade de Coimbra, cruza frequentemente o pensamento cinematográfico com questões sociais, éticas, ecológicas e urbanas. Paralelamente, desenvolve trabalho na área da comunicação cultural e coordena o projeto cívico de cariz ambiental Jardim Monte Formoso, ligado à biodiversidade e ao espaço público. Interessa-se particularmente pelas relações entre cinema, ética, memória e justiça social. A frase “Não gastes tudo em freiras”, do filme As Bodas de Deus (1998), de João César Monteiro, permanece como mote pessoal, entre a ironia, a ternura e a desobediência.

Também Poderá Gostar de