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Tuner – Ouvido Absoluto, Mão Leve

Para melhor enquadrarmos a performance do actor Leo Woodall no filme «Tuner» (que entre nós recebeu a prosaica designação de «Tuner – Ouvido Absoluto, Mão Leve»), 2025, deDaniel Roher, precisamos de saber que a sua personagem, Niki, sofre de hiperacusia, uma condição auditiva relacionada com a hipersensibilidade a algumas frequências sonoras que podem ser percebidas como excessivamente altas e, por essa razão, passíveis de provocar dor e desconforto físico e gerar a ansiedade de ser surpreendido por ruídos inesperados.

Neste filme de mil e um sons e múltiplas opções de montagem, Leo Woodall irá defender o seu papel face ao veterano Dustin Hoffman, que no filme representa a figura de Harry Horowitz, o parceiro e mentor do jovem Niki num negócio de características familiares, a sempre mui nobre e especializada profissão de afinador de pianos.

Neste contexto, não deixa de ser incisiva a ideia que os argumentistas e o realizador nos oferecem das vicissitudes das pessoas que merecem a melhor atenção pela diferença que fazem no mundo da música, seja ela erudita ou ligeira, mas que os ricaços que os contratam encaram de forma enviesada sempre que se lembram de lhes pedir para que a seguir à afinação do piano (instrumento que muitos adquirem por mera vaidade decorativa) deem uma mãozinha, por exemplo, no desentupir de uma sanita ou coisa que o valha. Talvez por verem as ferramentas e as confundirem, sabe-se lá, com os alicates ou chaves inglesas de outros profissionais. E, como veremos, Niki e Harry respondem com natural desdém a esta autêntica provocação, com um sorriso meio condescendente, mas seguramente com vontade de partir a loiça e, no final das contas, com um rotundo “não, não estamos aqui para isso”.

No decorrer das rotinas diárias, Harry, o mais velho, irá esquecer-se da combinação do seu cofre, e o jovem Niki, dono e senhor da sua hipersensibilidade acústica, irá descobrir nova e surpreendente vocação: decifrar as sonoridades dos mecanismos de segurança, o que lhe permite quebrar o respectivo código e abrir a dita caixa-forte. Mas o melhor, ou o pior, estava para vir (depende do ponto de vista de cada um ou do modo como interpretarmos as consequências desta “habilidade” nos acontecimentos futuros). Entretanto, Harry será internado num hospital na sequência de um ataque cardíaco. De repente, Niki vê-se empurrado para um beco sem saída que o obriga a encontrar uma solução de continuidade para uma actividade até ali exercida a dois.

Para adicionar mais uma pitada de sal e pimenta ao enredo, Niki irá conhecer a sua (ao início improvável) futura namorada, uma promissora pianista, Ruthie (Havana Rose Liu). Encontram-se por acaso no conservatório de música onde ele fora afinar um piano.

Mas o encontro mais significativo e com maior impacto “proselitista” na sua vida vai decorrer num outro encargo de afinação, durante o qual descobre na mansão do seu empregador uns supostos seguranças que afinal não passam de gente muito pouco recomendável. Trata-se de um bando liderado por Uri (Lior Raz), imigrantes (segundo revela o chefe do gang a certa altura, oriundo de Vilnius, a capital da Lituânia).

Todavia, mais parecem israelitas, e na verdade o leader fala com os seus operacionais e cúmplices em hebraico. Daniel Roher, judeu canadiano, lá sabe porque foi escolher aquela(s) nacionalidade(s), mas na verdade o retrato que faz dos seus membros acaba por ser de uma ambiguidade que dá que pensar. E o que acontece após o momento em que Niki os surpreende a roubar? Nada mais, nada menos, vai ser “convidado”, através da pressão exercida pelos peculiares “amigos do alheio”, a abrir o cofre do seu cliente ocasional. Depois, o inevitável acontece, ou seja, devido ao inesperado sucesso da missão e ao rápido e generoso saque dos valores, o sinuoso Uri quer integrar Niki na senda do crime organizado. Naquela altura, o agora forçado afinador/arrombador não possuía grande margem de manobra, porque necessitava de liquidez financeira para acudir a dívidas suas e a despesas médicas e hospitalares de Harry. Tudo junto e bem pesado na sua má-consciência, cada vez mais leve, acaba por sucumbir ao esquema de golpada em golpada. Ainda assim, sempre com o ar ansioso e magoado de quem não gosta mas não vislumbra melhor alternativa.

Neste ponto, aproveito para dizer que, sempre que em «Tuner» se procede ao quebrar do código de um cofre, vemos sequências de planos rápidos, muito eficazes na sua dinâmica visual e apoiados numa estrutura muito bem controlada de montagem, como se pudéssemos seguir o movimento de cada peça dos mecanismos interiores dos cofres arrombados, manipulação visual concebida em função da acção a que corresponde o acto de violar aquilo que afinal só na aparência parecia inviolável. E os efeitos sonoros subjacentes a esta progressão de articulação mecânica não lhe ficam atrás. Diria até que, mais do que um filme de argumento (onde encontramos algumas linhas seguras mas igualmente outras mais previsíveis, sobretudo nos minutos finais), “Tuner” define-se melhor como um muito bom exercício de montagem, quer de som quer de imagem. Já agora, aproveito para salientar o bom gosto da banda sonora musical, onde predominam sonoridades jazzísticas, com a presença recorrente de clássicos como o célebre “Tenderly”.

Será, pois, num novo contexto “laboral”, para obter dinheiro fácil e onde o perigo espreita ao virar da esquina, que veremos a vida de Niki evoluir, cofre após cofre, arrombamento após arrombamento. Escusado será dizer que, após cada golpe concluído com retorno pecuniário de monta, os deslumbrados profissionais do crime aumentam a parada relativamente aos riscos a que se expõem, e esses irão atingir a saturação quando num determinado “serviço” por conta de uns coreanos meio rafeiros (mais uma vez os imigrantes e os estrangeiros na berlinda) a coisa descarrila, por outras palavras, desafina. E aqui chegado, nem o afinador de ouvido absoluto e mão leve consegue superar as adversidades e escapar com mão livre ao seu destino. Tudo o que se passa a seguir (que por razões óbvias não vou revelar) condiciona o percurso das personagens, as já conhecidas e as que serão introduzidas nas derradeiras sequências, de certa maneira confinando-as a um desfecho que não se compadece com a liberdade e a economia narrativa verificada, sobretudo, na primeira metade de «Tuner». Enfim, não compromete a sensação muito positiva deixada por esta longa-metragem de ficção, mas se eu fosse o parceiro de produção do realizador e argumentista (coadjuvado por Robert Ramsey) havia de o convencer a dar uma outra volta ao musical happy ending. Não obstante, sem retirar uma nota que fosse ao excelente improviso executado pelo acossado afinador de pianos que, por razões alheias ao seu querer, nunca seguiu uma ainda maior vocação, a de pianista profissional. Seja como for, antes do genérico final, fica na memória o subtil remate de Niki, vocalizado com o ar mais sereno do mundo, a saber, que o piano que serviu de catarse e libertação dos seus recalcados fantasmas, sim, precisava de ser afinado.

Título original: Tuner  
Realização: Daniel Roher
Elenco: Leo Woodall, Dustin Hoffman,  Alisen Richmond-Peck, Ellyn Jameson
Duração: 107 min.
Canadá/EUA, 2025

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João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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