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Ciclo “A Questão da Fé”- Cinema Nimas

Paul Schrader colocou esta epígrafe ao seu livro O Estilo Transcendental no Cinema“A religião e a arte / são  linhas paralelas / que se intersectam somente no infinito, / e se encontram em Deus”, do teólogo holandês Gerardus van der Leew. Este ciclo surgiu na sequência da estreia do filme Os Domingos, ainda em cartaz (e nele poderíamos também incluir, como antecipação, o filme de João Mário Grilo Os Olhos da Ásia, que aqui se viu a fechar o programa do mês passado).

A Fé, que pode ou não ser questão de religião, sempre trouxe consigo interrogações e dúvidas, aceitação ou negação (perguntava Oliveira nas suas reflexões sobre o seu Palavra e Utopia“Não há ateus convertidos? E crentes que perderam a fé?”, ele que frequentemente citava Régio e o seu “crer não crendo” ; num outro filme de Bresson, Pickpocket, Michel diz: “Acreditei em Deus durante três minutos” e o realizador comentava que “poucas pessoas podem dizer que acreditaram em Deus durante tanto tempo”).

Escolhemos uma dúzia e meia de filmes, todos eles de grandes cineastas, todos eles obras-primas, de várias épocas e cinematografias (mas muitos outros se poderiam acrescentar). Organizamos ainda, a meio, a seguir à projecção de Ordet, de Dreyer, um debate sobre estas questões, colocadas por realizadores que sempre assumiram a sua religiosidade, como Bresson ou Rossellini, ou, por outro lado, Buñuel, que, tendo tido em criança uma educação religiosa, se dizia “ateu, graças a Deus” (e em cuja obra a religião teve sempre forte presença, com filmes que foram proibidos e o realizador a ser condenado à prisão e excomungado). Obras de despojamento e ascetismo, como as daqueles dois cineastas, ou Dreyer, Pasolini e Godard, outras, barrocas, como o filme de Verhoeven, e tanto umas como outras acabariam por causar escândalo.

Para finalizar (ou começar de novo): não será o cinema um acto de “revelação” e ele mesmo algo da ordem do milagre? E não é também uma espécie fé, enquanto espectadores, e uma certa dose de inocência, o caminho para encontrarmos a sua “verdade”?

O SANTO DOS POBREZINHOS Francesco, giullare di Dio

de Roberto Rossellini

Itália, 1950 – 1h25 | M/12 | 4K

21 Mai, 16h

“Estamos perante uma experiência rara, um filme cativante, sábio, simples e com várias camadas, uma daquelas obras abençoadas que não só renova a nossa percepção do cinema, como abala a nossa visão do mundo.” – Peter Von Bagh

VIRIDIANA

de Luis Buñuel

México, 1961 – 1h30 | M/12

21 Mai, 20h

“Viridiana provocou em Espanha um escândalo muito considerável, comparável ao de L’Âge d’or. […] foi imediatamente proibido e o Director Geral da Cinematografia Espanhola era mandado para a reforma antecipada por ter subido ao palco do festival de Cannes para receber [a Palma de Ouro]…” – Luis Buñuel

DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA Journal d’un curé de campagne

de Robert Bresson

França, 1951 – 1h35 | M/16

22 Mai, 20h | 10 Jun, 19h30

Adaptado do romance homónimo de Georges Bernanos, este é o filme que definiu o cinema de Bresson, por muitos considerado a sua maior obra-prima e a sua mais apaixonante criação.

AO SOL DE SATANÁS Sous le Soleil de Satan

de Maurice Pialat

França, 1987 – 1h38 | M/12

23 Mai, 13h

“Esta é a obra-prima de uma obra. Como a Nona de Beethoven, é efectivamente a plenitude de todas as sinfonias. Quando vejo A Palavra de Dreyer, quando vejo Ao Sol de Satanás de Pialat…: tudo está lá, e perfeitamente ordenado. […] É a apoteose da sua arte.” – Bruno Dumont

SIMÃO DO DESERTO Simón del desierto

México, 1965 – 43’ | M/12

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A IDADE DE OURO L’Âge d’or

de Luis Buñuel

França, 1930 – 1h02 | M/12

24 Mai, 11h

“[L’Âge d’or] estreou ao público no Studio 28, e foi projectado em salas esgotadas durante seis dias. […] uma semana depois o comandante de polícia proibiu-o. A proibição manteve-se durante 50 anos.” – Luis Buñuel

NO CORAÇÃO DO ESCURIDÃO First Reformed

de Paul Schrader

EUA, Reino Unido, Austrália, 2017 – 1h53 | M/16

24 Mai, 19h30 | 4 Jun, 15h

“Podemos dizer que este First Reformed é um Taxi Driver para teólogos ou para gente que leva a sério as questões que a teologia propõe”. – Pedro Mexia

A PALAVRA Ordet

de Carl Theodor Dreyer

Suécia, 1955 – 2h06 | M/16

25 Mai, 18h. Conversa com Pedro Mexia e outros convidados

“À morte chamara Johannes o ‘homem da ampulheta’. Tudo está na areia que escorre, na passagem das horas. ‘E então o tempo, sim foi coisa que passou’. Só a Palavra e a Imagem o podem suspender assim. E, por isso, disse S. Paulo que, maior do que a fé, era o amor. Ordet é o filme desse amor.” – João Bénard da Costa

O SACRIFÍCIO The Sacrifice

de Andrei Tarkovsky

URSS, 1986 – 2h22 | M/12

26 Mai, 17h

Perante a iminência de uma III Guerra Mundial, e em desespero, Alexander vira-se para Deus, argumentando e oferecendo-Lhe tudo para evitar o holocausto nuclear.

PASSARINHOS E PASSARÕES Uccellacci e uccellini

de Pier Paolo Pasolini

Itália, 1966 – 1h31 | M/16

27 Mai, 15h45

Uma fábula on the road, com Tótó e Ninetto, onde Pasolini, num dos seus filmes mais inspirados, vinca uma espécie de religiosidade humana e o corvo, metáfora do autor, fala do crepúsculo das grandes esperanças (também, ou sobretudo, ideológicas).

BENEDETTA

de Paul Verhoeven

França, Holanda, Bélgica 2021 – 2h11 | M/16

28 Mai, 21h30

A partir da obra Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy, de Judith C. Brown, Verhoeven consegue um filme sublime, de corpo e alma, vizinho do êxtase místico de Santa Teresa de Ávila.

NOSTALGIA

de Andrei Tarkovsky

URSS, 1983 – 2h05 | M/16

29 Mai, 16h30

“Talvez estejamos aqui para enriquecer-nos espiritualmente. Se a nossa vida tende a este enriquecimento espiritual, então, a arte é um meio para lá chegar.” – Andrei Tarkovsky

O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS Il vangelo secondo Matteo

de Pier Paolo Pasolini

França, Itália, 1964 – 2h17 | M/16

30 Mai, 14h30

“Pasolini quis dessacralizar a vida de Cristo […] e ousou pensar o Evangelho como uma história de homens e reconhecer nas caras da gente do povo as caras das suas personagens, tanto quanto os chamados pintores primitivos, no meio da abstracção pura dos dourados, começaram a ousar pintar caras de gente.” – Luis Miguel Cintra

EU VOS SAÚDO, MARIA Je vous salue, Marie

de Jean-Luc Godard

França, Reino Unido, Suíça, 1984 – 1h12 | M/16

31 Mai, 10h30

“Godard fez aquilo que devia fazer: tratar correctamente o seu tema. Dá como prémio ao espectador uma dupla representação: religiosa e absoluta, humana e quotidiana. Com o seu humor e a sua doçura, Godard cruza a estrada de Simone Weil (que havia inspirado Rossellini para Europa 51).” – Jean-Claude Biette

PALAVRA E UTOPIA

de Manoel de Oliveira

Portugal, 2000 – 2h10 | M/12

31 Mai, 14h30

“Não há ateus convertidos? E crentes que perderam a fé? Vá daí julgar-se que por se tratar dum filme sobre um cristão e padre jesuíta, como é o caso de Palavra e Utopia, o realizador, mesmo sendo objectivo tanto quanto em arte possa ser-se, enquanto religioso dessa religião ou doutra, agnóstico ou ateu, passará aos olhos de quem critica, de modo superficial, como cúmplice do facto que é mostrado, comprometendo assim todos os seus julgamentos sobre valores e factos. E não será isto, por sua vez, levar a crítica ao desvio grave de olhar para o realizador como se fora ele um Vieira, tomando um pelo outro?” – Manoel de Oliveira

EUROPA 51

de Roberto Rossellini

Itália, 1952 – 1h53 | M/12

1 Jun, 17h

“É o filme do escândalo, construído em torno dessa dupla figura da qual a personagem de Irene (Ingrid Bergman) é o pivot. O seu comportamento é um escândalo social porque ameaça a coerência ideológica do grupo social ao qual ela pertence.” – Alain Bergala

LUZ DE INVERNO Nattvardsgästerna

de Ingmar Bergman

Suécia, 1963 – 1h21 | M/12

8 Jun, 14h

“Em Luz de Inverno, Bergman levou a depuração ao mais extremo.” – João Bénard da Costa

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