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Divina Comédia

Dante Alighieri (1265-1321) foi poeta, escritor e homem de intervenção política na República de Florença, a Repubblica Fiorentina (1115-1532). Entre outras obras maiores, escreveu o poema alegórico Comedìa que viria a ser imortalizado por Giovanni Boccaccio (1313-1375) na hoje mais conhecida designação La Divina Commedia.

Esta «Divina Comédia», 2025, que agora estreia em Portugal pela mão da Nitrato Filmes, realizada pelo iraniano Ali Asgari, só de raspão se pode considerar no mesmo patamar que essa obra maior da literatura e da cultura da Europa e do Mundo. Mas não deixa de ser comédia, género que defende com garra, e por isso mesmo nos impele a não lhe virar as costas, mesmo quando não ignoramos os seus altos e baixos. Podemos dizer que de uma maneira geral apresenta algumas soluções narrativas que foram decerto bafejadas pelo ar fresco (e de algum modo livre) que sopra das montanhas situadas a Norte de Teerão.

No elenco principal encontramos duas personagens propulsoras dos acontecimentos que se moldam a partir da matéria-prima de uma ficção que não anda longe de uma certa realidade local, e não só. Falamos de um casal constituído pela produtora e actriz (Sadaf Asgari) e pelo cineasta (Bahram Ark) que, percorrendo de mota as ruas e avenidas da capital do Irão, procura desesperadamente encontrar um ecrã para exibir o seu último filme. Este foi rodado em Turco, porque a personagem central era Turca, argumento que se revela muito frágil quando um belo dia o autor se vê obrigado a confrontar o representante oficial que lhe podia ou não atribuir a necessária licença de exibição.

E será no frugal escritório deste seu interlocutor que se começa a desenhar o modelo de “ataque” assumido pelo (verdadeiro) realizador, Ali Asgari (no campo da encenação, da planificação e no do ritmo de montagem), face a situações que merecem da parte dele, das personagens e da nossa parte (enquanto espectadores disponíveis e solidários) um sentimento de imersão nas vicissitudes do (ficcional) realizador e no desfrutar dos mil e um pormenores que fazem a diferença no desenrolar da acção. Trata-se aqui (e logo a abrir) de estabelecer um diálogo (diria, um diálogo de surdos) entre alguém que irá estar fora do enquadramento do primeiro ao último dos vários minutos que dura o plano médio do nosso “herói” sentado de esguelha numa sala onde ao fundo se vê a bandeira do Irão.

Todavia, o eixo da objectiva incide na diagonal que existe entre nós, os que estamos a observar a situação, e ele, o actor, ou seja, nós estamos no lugar do burocrata que debita as suas razões, na prática a voz do poder (umas vezes, profere verdades genéricas que lhe conferem uma visível perspicácia e autoridade, outras vezes, juízos de valor retirados da cartilha ideológica que pretende formatar e evitar um ou outro desvio no contexto da actividade cultural).

Pelo meio fica a pergunta que, aliás, qualquer um podia formular: “Porque insiste o realizador em lutar contra a maré? Porque insiste em mostrar um filme que não obedece aos parâmetros oficiais sobejamente enunciados?” Na verdade, pouco ou quase nada sabemos da longa-metragem em causa a não ser que encaixa (segundo se diz e se repete) nos parâmetros do chamado cinema de autor. Não obstante, a nossa curiosidade é aguçada quando ouvimos o dito autor dizer ao irmão (cineasta reconhecido e aparentemente bem integrado na profissão e nos meandros mais cosmopolitas da sociedade local) qualquer coisa como: “se quiseres ir ver o meu exercício de arte e ensaio, vai, mas o mais certo é não gostares”.

De facto, uma ironia fina atravessa do princípio ao fim o muito bem estruturado guião. Há ainda nele doses generosas de sarcasmo, e as diferentes atmosferas propostas pelo argumento, que se acumulam e se misturam com os sucessivos conflitos dramáticos, são uma espécie de figuração laica da força vital que move esta «Divina Comédia», equivalendo de certo modo aos conceitos de matriz religiosa prevalecentes na obra literária e relacionados com o Inferno, o Purgatório e o Paraíso.

Para quem conheça o Irão, são uma delícia as personagens que Ali Asgari introduz na autêntica epopeia do realizador em busca de um ecrã disponível, mesmo que isso se faça no limite de uma visão algo redutora, aqui e além arriscada, e até fora da legalidade. Penso que aqui chegado será melhor deixar na “sombra” a referência e o que acontece com e a esses autênticos cromos, uma divertida galeria de controversas figuras com que os protagonistas se cruzam, que representam no limite algum do “povo” que pulula nas áreas mais chiques, mas não necessariamente mais influentes, de Teerão.

Mas sobretudo vou guardar segredo sobre a mais do que subversiva resolução final, para assegurar uma das mais singulares surpresas a quem for ver este filme. Só vos digo que quem gostar de cães e conhecer os seus hábitos e manhas, vai perceber muitíssimo bem a gargalhada que eu dei quando o cão (na verdade, uma cadela), bicho de estimação de uma senhora da classe média alta (muito liberal) desata a ladrar com uma ferocidade invulgar. Isto na noite da estreia (privada) do filme maldito. Um gag maravilhoso e uma sibilina e acutilante ferroada no inconformismo de quem por fim, na improvisada plateia, apanha com um generoso banho de realidade vindo dos lados da Síria. E os salpicos atingem qualquer um dos flancos da barricada. Com o circunspecto canino sentado e a olhar de frente para nós, firme e hirto, acaba esta «Divina Comédia». Nem sempre acerta no divino, mas decididamente acerta na comédia.

Título original: Komedie Elahi
Título internacional: Divine Comedy
Realização: Ali Asgari Elenco: Bahram Ark, Sadaf Asgari, Faezeh Rad
Duração: 98 min.
Irão, Itália, França, Alemanha, Turquia –
2025

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João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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